ISRAEL/PALESTINA, DO “COMBATE” AO “PEGA-VARETAS”

 

Jayme Brener

(Jornalista)

 

O “Combate” era um jogo de tabuleiro que fez muito sucesso no Brasil nas décadas de 1980/90. Nele, dois exércitos – um, azul; outro, vermelho – se enfrentavam até a vitória de um deles. A lógica era cartesiana: um exército vermelho; outro, azul; um vencia, outro perdia; um era “bom” e o outro, “mau”, de acordo com o lado do tabuleiro em que você estivesse.

Há quem tente aplicar o raciocínio “Combate” também ao tema dos direitos humanos. Assim, crimes como as duas bombas atômicas despejadas pelos Estados Unidos no Japão durante a Segunda Guerra Mundial seriam “menores” diante das atrocidades cometidas pelo eixo Roma-Berlim-Tóquio, maiores responsáveis pelo conflito. E, claro, vencidos.

A lógica de todos os movimentos que lutam seriamente pelo respeito aos direitos humanos como valor universal é oposta. É a lógica da vítima, para quem pouco importam os algozes. E não vale comparar sofrimentos.

Quando se trata das relações Israel-palestinos, então, a lógica do “Combate” desmorona em dois tempos. Violadores dos direitos humanos e vítimas se confundem no tabuleiro.

Comecemos pelos fatos incontroversos. Israel, criado em 1948 sob os escombros do massacre de seis milhões de judeus nas mãos do nazifascismo, tem hoje quase nove milhões de habitantes. Desses, 62% são judeus, 20% são cidadãos árabes e há cerca de 200 mil beduínos e cem mil drusos.

Em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou as Colinas do Golã e as fazendas de Sheba (Golã, da Síria), a Faixa de Gaza (do Egito), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (da Jordânia). O Golã foi anexado e Israel considera Jerusalém sua capital “una e indivisível”. As tropas israelenses deixaram a Faixa de Gaza em 2005; o território é comandado pelo movimento fundamentalista sunita Hamas, mas sofre com um sério bloqueio econômico israelense – o desemprego na região supera 40% da força de trabalho.

No que se refere à Cisjordânia, onde vivem mais de 2,5 milhões de árabes palestinos, a situação é bem mais complexa. Os governos trabalhistas – hegemônicos em Israel até meados da década de 1970 – implantaram uma política de construção de “assentamentos” judaicos, que deveriam funcionar como postos militares avançados para prevenir ataques árabes.

Ocorre que os governos de direita que vieram a seguir transformaram os “assentamentos” em política de ocupação e exploração econômica. Essa tendência foi acelerada após o fracasso dos acordos de paz de Oslo, assinados entre palestinos e israelenses em 1993. Assim, hoje os assentamentos superam os 600 mil habitantes judeus, 208 mil dos quais vivem nas áreas próximas a Jerusalém, anexadas por Israel. A Organização pela Libertação da Palestina (OLP), fundada por Yasser Arafat (1929-2004) é a força política hegemônica entre os palestinos da Cisjordânia e mantém relações tensas com o Hamas.

 

 

Duas políticas

Do ponto de vista dos direitos humanos, Israel – hoje governado por uma coalizão de direita, extrema-direita e grupos ultrarreligiosos – aplica duas políticas. Em seu território, gaba-se de ser a única democracia da região. Há eleições, partidos livres, respeito à diversidade religiosa e sexual. Sim e não. Desde seu nascimento, Israel é definido com Estado Judeu. Embora com direitos certamente mais amplos do que em países como Egito ou Síria, os árabes com cidadania israelense vivem como cidadãos de segunda classe. Votam, rezam, têm suas escolas e entidades, e não são obrigados a servir o Exército, é certo. Mas o orçamento para suas cidades e instituições não é proporcional à sua participação demográfica. São “hóspedes”, não cidadãos plenos.

Já nos territórios ocupados e em Gaza, impera a manu militari. Assim, apenas no primeiro semestre de 2018, um protesto convocado pelo Hamas na cerca que separa Gaza de Israel terminou com dezenas de palestinos mortos e milhares, feridos. Bem, temos então uma clara lógica do “Combate”: Israel viola os direitos humanos, os palestinos são as vítimas. Vermelhos e azuis, bons e maus, certo?

Sim e não. O sim, no caso, é dado pelo número de vítimas – quase não as houve do lado israelense – e, no limite, pela ocupação de um território que não é seu. Mas o Hamas, de forma irresponsável, convocou mulheres e crianças para atravessarem a fronteira. Só que o que poderia ser detido com força policial foi enfrentado com munição viva – daí o numero enorme de vítimas, muitas delas, menores de idade.

Na sequência, o Hamas orquestrou uma ofensiva com pipas incendiárias, que destruíram bosques e cultivos, afetando civis inocentes.

A complexidade do tema fica evidente no cotidiano da organização B’Tselem (em hebraico, “à sua imagem”, em alusão ao versículo da Bíblia que diz que Deus criou o homem à sua imagem), que fiscaliza o respeito – ou desrespeito – aos Direitos Humanos entre os palestinos. O B’Tselem reúne ativistas judeus e palestinos e é perseguido pelos governos israelenses, que o consideram uma organização traidora. E também pelo Hamas e pela OLP, em cujos domínios os direitos humanos são violados com frequência.

De acordo com o B’Tselem, apenas entre 2009 e maio de 2018, nada menos que 71 palestinos foram mortos por palestinos por motivos políticos. A tortura e a repressão são fartamente utilizadas tanto por Hamas como pela OLP, que também reprimem com dureza a homossexualidade.

 

Fonte: B’Tselem

 

Muros e guetos

A situação piorou quando Israel decidiu construir um imenso muro para dividir a Cisjordânia, em princípios da década de 2000. Com quase 800 quilômetros de extensão, o muro teve como objetivo reduzir os ataques terroristas de palestinos a civis israelenses – também, em si, violações de direitos humanos. Acontece que o muro que melhorou a segurança dos judeus israelenses transformou a vida dos palestinos em um verdadeiro inferno. Há pontos em que ele divide aldeias ao meio, fazendo com que palestinos tenham que desviar até 30 quilômetros para visitar um primo do outro lado da muralha.

De acordo com o B’Tselem, há nada menos que 98 checkpoints na Cisjordânia. Imagine-se o tormento diário das dezenas de milhares de palestinos que precisam se deslocar para seu trabalho em Israel, a maior fonte local de empregos – com remunerações mais baixas do que aquelas pagas aos judeus.

Um novo muro, agora subterrâneo, está em construção para impedir terroristas vindos da Faixa de Gaza de se infiltrarem em Israel.

A lógica da direita israelense é de criar um gueto às avessas. Uma ilha de prosperidade e segurança para judeus (que têm cidadania imediata e direitos plenos quando emigram para lá), mantida pela mais sólida economia e pelo mais poderoso exército do Oriente Médio.

O processo de construção desse “gueto dourado” ganhou força este ano, por conta de uma nova legislação que reforça o caráter “judeu” do Estado de Israel. A língua árabe, que era oficial no país, ao lado do hebraico, foi rebaixada a “idioma especial”. Aldeias drusas e beduínas têm sido removidas em nome de “interesses de Estado”. Lembrando que os drusos são tradicionalmente leais ao país em que vivem e que os beduínos são, desde a criação de Israel, aliados fieis do Estado. Ambas as minorias servem o exército, galgam posições importantes na economia e na sociedade, e agora estão em pé de guerra com o governo de Israel.

Assim, a dicotomia de Israel – democrática e expansionista – ruma para uma triste definição. Quanto mais “judeu”, menos democrático o Estado se constitui. Isso vale também para os dissidentes judeus da “política oficial”. Manifestações de esquerda e pela paz são frequentemente atacadas por milícias de direita. E a nova legislação “guetizante” inclui o veto ao financiamento internacional de organizações classificadas como “hostis”. Como o B’Tselem, é claro.

No que tange à relação Israel/Palestinos, a lógica do “Combate” na verdade dá lugar a outro jogo de tabuleiro: o pega-varetas. Se você remover a varinha certa, pode abrir caminho para a vitória. Mas, pelo andar da carruagem, qualquer movimento em falso pode mexer todas as peças – e aí, os direitos humanos, de todos os humanos, serão os grandes derrotados.

 

 

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