O RETORNO DO ANTISSEMITISMO

 

Elaine Senise Barbosa

27 de janeiro de 2020

 

O 27 de janeiro assinala o 75º aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, onde um milhão de judeus foram sistematicamente mortos pelo antissemitismo nazista, entre maio de 1940 e janeiro de 1945. Um milhão de seres humanos mortos apenas nesse local, onde a ciência e a técnica mais modernas serviram de instrumento para uma ideologia racista, nacionalista e belicista. Auschwitz, o maior ícone do genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial ficava na Polônia, na parte do território ocupada pelos alemães desde setembro de 1939.

Roberto Alvim, demitido há pouco do cargo de secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro por imitar Joseph Goebbels, o infame Ministro da Cultura e Propaganda do Terceiro Reich sabia perfeitamente o significado histórico implícito naquela pantomima. Ao público embasbacado com tamanha desfaçatez, restou a pergunta: o que está acontecendo? Por que as pessoas simplesmente deixaram de se preocupar com a experiência passada, com a História, em nome do “direito” de cada um “narrar” (a palavra da moda, que descreve perfeitamente o fenômeno) a sua própria verdade, incluindo a reabilitação dos regimes totalitários?

Dias antes do 75º aniversário da libertação de Auschwitz, Jerusalém sediou o maior encontro de chefes de Estado e líderes políticos já visto na cidade, reunidos para o Fórum Mundial do Holocausto, no centro de memória Yad Vashem. A surpreendente presença de 45 altos representantes de nações, incluindo os presidentes da França e da Rússia, o herdeiro do trono britânico e o vice-presidente dos Estados Unidos, explica-se pelo próprio tema proposto para o evento: “Lembrando o Holocausto, Combatendo o Antissemitismo”. O rápido avanço de grupos antissemitas, neonazistas e de extrema-direita está no radar da política internacional.

Fórum Mundial do Holocausto, em 23 de janeiro de 2020, no Yad Vashem

Fórum Mundial do Holocausto, em 23 de janeiro de 2020, no Yad Vashem

É louvável que em um momento de fragilidade política de Israel, provocado pela combalida liderança do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tenha havido inteligência das chancelarias para a separação dos temas: o Estado de Israel e os judeus, governos e povos. Prestou-se toda a reverência às vítimas do Holocausto e à sua memória, mas alguns fizeram questão de reservar tempo para se reunir com lideranças palestinas.    

Só no Brasil não se ouviu palavra do presidente da República condenando a pantomima filo-nazista de seu secretário da Cultura. A demissão decorreu do custo político intolerável de mantê-lo. Mas Jair Bolsonaro não fez nenhuma admoestação pública, o mínimo esperado de um chefe de Estado preocupado com os valores políticos transmitidos à sociedade.

 

O antissemitismo ressurge

Sinais multiplicam-se pelo Ocidente, instituições universitárias ou centros de estudo têm realizado pesquisas sobre o avanço do discurso antissemita e sua forte relação com o quadro de polarização ideológica que atravessamos. Não que o antissemitismo tivesse desaparecido, mas até o final do século XX era impensável que ele voltasse a ganhar tamanha força.

A Universidade de Tel Aviv aponta quase 400 ataques contra judeus pelo mundo apenas em 2018, especialmente na Europa Ocidental e na América do Norte. Na França e na Alemanha, desde 2016, houve um aumento de 70%. Nos Estados Unidos, os judeus entraram literalmente na mira dos supremacistas brancos. As redes sociais – Facebook, Twitter e Instagram à frente – vêm sendo acusadas de funcionarem como veículos preferenciais para a difusão de discursos de ódio.

Esses eventos são o resultado da soma de muitos fatores: o distanciamento temporal em relação aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial; a quantidade gigantesca de pessoas que nasceu nos últimos 40 anos e mal ouviu falar em Holocausto; o avanço da estratégia política do “revisionismo histórico”, que se associa ao recurso às fake news, utilizado  por lideranças populistas e autoritárias interessadas em desacreditar as instituições democráticas e a imprensa profissional.

O antissemitismo não é um “problema dos judeus”, mas uma encruzilhada para toda a humanidade. Como explica a professora Deborah Lipstadt, conhecida por ter sustentado e vencido a primeira disputa judicial em torno da negação do Holocausto:  “Nenhuma sociedade democrática saudável pode tolerar o antissemitismo. Se as pessoas acreditam nessas coisas irracionais sobre os judeus, elas acreditam em coisas irracionais sobre seu governo. Elas vão acreditar em coisas irracionais sobre a economia. E vão acreditar em coisas irracionais sobre seus vizinhos. As teorias da conspiração dentro de uma sociedade são muito perigosas. ”

Nas ruas de Itajaí (SC), cartazes parabenizando Hitler apareceram em 2014

Nas ruas de Itajaí (SC), cartazes parabenizando Hitler apareceram em 2014

 

Unindo esquerda e direita

Há teorias da conspiração para todos os gostos: cada um pode escolher a sua. Contudo, nesse campo, quase nenhum tema é tão universal quanto o antissemitismo e as correntes políticas mais radicais de esquerda e direita compartilham uma especial atração pela figura lendária do judeu usurário e errante. É mais que triste, é assustador que histórias tão velhas e tantas vezes desmascaradas ressurjam, no século XXI, e ainda sejam capazes de angariar tamanha adesão.  

Na França existe um antissemitismo enraizado e nunca enfrentado, reforçado agora pelos discursos de radicais islamitas. No início de 2019, quando o movimento dos gilets jaunes (coletes amarelos) estava no auge e os analistas ainda tentavam interpretá-lo, declarações antissemitas começaram a chamar a atenção. A natureza heterogênea e anárquica do movimento, assim como o uso das mídias sociais para organizar suas ações, tornou-o vulnerável à infiltração de extremistas – e dos tradicionais discursos antissemitas. Enquanto isso, lápides de cemitérios judaicos são vilipendiadas e judeus são atacados por serem judeus. Metade dos judeus franceses disseram temer o novo cenário e muitos revelaram que poderiam partir.

Nos Estados Unidos, a passeata de Charlottesville, em agosto de 2017, contou com manifestantes da banda supremacista portando cartazes escritos “judeus não nos substituirão”, que remetem à acusação de que os judeus ajudam a levar imigrantes ilegais para os Estados Unidos, contribuindo para a “degradação racial” da nação. Em outubro de 2018 foi a vez do ataque à sinagoga em Pittsburgh, que deixou 11 mortos e seis feridos.

O retorno do antissemitismo

No dia do Fórum Mundial do Holocausto, o governo alemão realizou uma grande operação policial em diferentes partes do país contra o grupo Combat 18 Deutschland. O chefe da operação explicou que, por meio dela, enviava-se uma clara mensagem contra os extremistas da direita

 No Reino Unido, o debate das eleições gerais de dezembro de 2019 foi marcado pelas cobranças sobre o antissemitismo (mal) disfarçado no interior do Partido Trabalhista. Vezes sem conta, nos últimos anos, lideranças da esquerda do partido  produziram associações entre as supostas maldades das altas finanças e o lendário poder mundial dos judeus. O boneco de fantoche do judeu usurário, o velho Shylock, uma criação da direita conservadora cristã, tem lugar assegurado no palco do teatro político da esquerda radical.

Por que separar o sistema financeiro dos judeus, não é mesmo?

Na França, numa manifestação dos gilets jaunes, um cartaz classificava o presidente Emmanuel Macron de “puta dos judeus” e um outro veiculava a seguinte equação: “Macron=Bancos=Mídia=Sião”. Mais fácil que desenhar.

No Brasil, o Observatório Judaico dos Direitos Humanos repudiou a encenação filo-nazista de Roberto Alvim, reafirmando seu compromisso com a memória das vítimas do Holocausto e a defesa maior dos direitos humanos. Por outro lado, certas redes sociais (à esquerda e à direita) explicaram a demissão do secretário pela “pressão dos judeus”, enveredando quase instintivamente no labirinto do antissemitismo. O monstro está entre nós.

 

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