16 MUSEUS PARA NÃO ESQUECER

 

A difusão da história dos crimes contra a humanidade, genocídios, massacres e violações massivas de direitos humanos desempenha finalidades educativas e civilizatórias. A cultura dos direitos humanos exige, antes de tudo, a preservação da memória da barbárie. Não esquecer é condição indispensável para não repetir. Esse é o papel dos museus listados a seguir.

As nações que sofreram esses traumas profundos têm a obrigação, política e moral, de alertar as gerações futuras. Esse é o sentido de museus e memoriais que narram o percurso de terríveis tragédias humanas. Aqui, selecionamos 16 entre os mais importantes deles.

 

1.

Yad Vashem (em hebreu, “um monumento e um nome”) é um museu estabelecido em 1953, em Jerusalém Ocidental, dedicado à memória, à documentação e à pesquisa do genocídio de seis milhões de judeus (Shoah) perpetrado pelo nazismo. Sua missão é oferecer uma “história do Holocausto de uma perspectiva judaica”, mas “estimulando cada visitante a considerar as dimensões universais do Holocausto”. A entrada é gratuita e o Yad Vashem ocupa o segundo lugar entre os locais mais visitados de Israel, atrás apenas do Muro Ocidental.

O museu celebra a memória das vítimas e reconhece o papel desempenhado pelos não-judeus que salvaram as vidas de judeus durante a Shoah. As suas galerias mantém uma exposição permanente sobre a história do genocídio. Além disso, o Yad Vashem promove exibições temporárias e mantém um vasto arquivo documental.

 

2.

O edifício do Topografia do Terror, em Berlim, situa-se no lugar antes ocupado pelas sedes da Gestapo (a polícia política nazista) e das SS (a organização paramilitar nazista), que foram destruídas por bombardeios dos Aliados no início de 1945. Quatro décadas depois, escavações descobriram a prisão da sede da Gestapo, onde prisioneiros foram torturados e mortos.

No aniversário de 750 anos de Berlim, em 1987, o local foi palco de uma primeira exibição. O concurso arquitetônico para o museu e centro de documentação aconteceu em 1993, três anos após a reunificação da cidade como capital alemã, mas a inauguração ocorreu apenas em 2010. As exibições permanentes abordam a Gestapo e as SS, instituições centrais no totalitarismo nazista, a história do regime nazista e um tour pelo sítio histórico que inclui uma seção remanescente do Muro de Berlim. Há exibições temporárias, livraria e centro de documentação especializado no uso de trabalho forçado pelo regime.

 

3.

Fundado em 1947, por ato do Sejm (parlamento polonês), o Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau situa-se nos arredores da cidade de Oswiecim, em 191 hectares dos antigos campos de concentração e centros de extermínio de Auschwitz 1 e Auschwitz 2 (Birkenau), separados por três quilômetros. Diversos edifícios e instalações originais dos campos nazistas abrigam as exibições. O sítio foi declarado patrimônio histórico mundial pela Unesco.

A exibição histórica permanente contém objetos pessoais dos prisioneiros e da guarnição das SS, equipamentos dos campos e itens ligados ao processo de extermínio nas câmaras de gás. Os arquivos mantêm extensiva documentação associada aos dois campos e, em escala menor, a outros campos nazistas.

O nome oficial do sítio mudou em 2007, a pedido da Polônia e com aprovação da Unesco. De “Auschwitz Birkenau, campo da morte polonês”, passou a se chamar “Auschwitz Birkenau, campo de concentração e extermínio alemão-nazista”.

 

4.

O Museu do Holocausto dos EUA surgiu de uma Comissão sobre o Holocausto, criada pelo presidente Jimmy Carter em 1978, sob a direção do notável escritor Elie Wiesel, um sobrevivente dos campos de Auschwitz e Buchenwald. Erguido junto ao National Mall, em Washington, o museu foi inaugurado em 1993.

O Hall of Remembrance, um espaço hexagonal, é um memorial oficial às vítimas do Holocausto. A exibição permanente principal ocupa três andares, organiza-se em tópicos temáticos, dispostos cronologicamente, que narram a história iniciada com a ascensão de Hitler ao poder e concluída pela liberação dos campos nazistas. A narrativa utiliza mais de 900 artefatos, 70 monitores de vídeos e quatro teatros que exibem filmes da época. O site do museu, dedicado à educação sobre o Holocausto, está disponível em 16 línguas.

O museu é gratuito. Contudo, entre março e agosto, devido à grande afluência de público, o site do museu distribui tickets online, que estabelecem os horários de visita.

 

5.

O Museu do Gulag narra uma parte fundamental da história da antiga URSS. Gulag é o acrônimo formado pelas iniciais, em russo, de Administração Central de Campos e Locais de Detenção, a extensa rede de campos de trabalho forçado que alcançou seu apogeu entre as décadas de 1930 e 1950. O acrônimo celebrizou-se a partir da obra O Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenitsyn.

Fundado em 2001, em Moscou, pelo historiador Anton Antonov-Ovseenko, antigo prisioneiro nos campos do stalinismo, o museu abriu suas exposições em 2004. Em 2015, o Museu do Gulag foi transferido para suas instalações atuais, um edifício de cinco andares. À entrada, os visitantes ouvem o ruído de portas de celas se fechando e o bater de botas nos corredores.

O museu recria o espaço das celas superlotadas e abriga portas originais de campos situados em remotas localidades da Sibéria. A coleção contém documentos, cartas, memórias, objetos pessoais e obras de arte de prisioneiros do Gulag. Além disso, promove conferências e seminários dedicados à interpretação do sistema de detenção em massa do regime stalinista.

 

6.

Dedicado à documentação do bombardeio atômico de Hiroshima, na Segunda Guerra Mundial, o Museu Memorial da Paz de Hiroshima foi estabelecido em agosto de 1955, no décimo aniversário da tragédia e amplamente remodelado em 1991. O seu acervo abrange pertences das vítimas, objetos submetidos ao bombardeio e testemunhos de sobreviventes.

A asa leste do museu, reaberta em 2017, após renovação, oferece experiências sensoriais perturbadoras. Os visitantes podem tocar numa recriação do célebre domo do Hall de Promoção Industrial, antes e depois da catástrofe, e acompanhar a destruição atômica de uma maquete da cidade. A seção histórica contém imagens da cidade de Hiroshima antes e depois da explosão da bomba e narrativas sobre o desenvolvimento das armas nucleares. Num muro de 34 metros, estende-se um panorama da cidade devastada, tal como fotografada por militares americanos no outono de 1945. A mensagem do memorial é simples, direta: “Não mais Hiroshimas”.

 

7.

O Museu-Instituto do Genocídio Armênio foi inaugurado em 1995, no 80º aniversário do genocídio armênio, a partir de decreto governamental, em Erevan, a capital do país, ao lado do Tsitsernakaberd, o memorial às vítimas erguido em 1967. Dos jardins e do terraço do edifício se avista, ao longe, o Monte Ararat. O governo armênio fez da visita às instalações parte do protocolo das recepções de Estado a autoridades estrangeiras.

A renovação do complexo, entre 2011 e 2015, por ocasião do centésimo aniversário da tragédia, ampliou a área de exposições de três para 12 halls, com a adição de enorme quantidade de materiais coletados e produzidos recentemente. A exibição permanente documenta o genocídio e cartografa os locais das matanças nas línguas armênia, russa e inglesa. O instituto contém extenso acervo documental, voltado para pesquisadores e estudantes.

 

8.

O Museu Tuol Sleng do Genocídio, em Phnom Penh, ocupa uma antiga escola secundária transformada na prisão S-21, centro principal de interrogatório, tortura e extermínio usado pelo regime de Pol Pot entre 1975 e sua queda, em 1979. Na língua khmer, Tuol Sleng significa “colina das árvores envenenadas”. No local, foram assassinados mais de 18 mil pessoas. Familiares de prisioneiros eram levados em grupos para interrogatório na S-21 e, em seguida, exterminados no “campo da morte” de Choeung Ek.

O local foi descoberto por um fotógrafo militar vietnamita que acompanhava as forças invasoras, em 1979. O museu nasceu em 1980, como memorial do genocídio que vitimou cerca de 1,5 milhão de cambojanos. Phnom Penh foi praticamente evacuada pelo regime em 1975. A prisão S-21 figurou como núcleo do sistema de campos da morte espalhados pelo país. A exibição permanente narra a história do regime e esclarece os mecanismos do genocídio. O arquivo, aberto a familiares das vítimas, pesquisadores e estudantes, mantém documentos sobre as vítimas.

 

9.

O site do Centro Memorial do Genocídio em Kigale informa que o local é o descanso final de mais de 250 mil, entre os mais de um milhão, de tutsis exterminados no genocídio de Ruanda (1994). A decisão de erguer o memorial foi adotada em 2000, pela prefeitura de Kigali, a capital do país. O projeto desenvolveu-se graças à cooperação com o Aegis Trust, uma ONG britânica dedicada à prevenção global de genocídios. A inauguração deu-se quatro anos depois, no décimo aniversário do genocídio.

A principal exposição permanente documenta o genocídio e o inscreve na história de Ruanda. Ela inclui histórias pessoais de vítimas, sobreviventes e dos que tentaram impedir a carnificina. A Sala das Crianças é dedicada às vítimas infantis dos crimes contra a humanidade. Uma exibição complementar documenta genocídios e massacres em outros lugares do mundo. Sepulturas coletivas estão situadas nos jardins. Os restos mortais das vítimas foram transferidas de diferentes lugares, na capital, para o memorial. No muro dos nomes, uma obra em progresso, estão eternizadas as identidades das vítimas.

 

10.

O Museu do Apartheid nasceu em 2001, sete anos após as primeiras eleições multirraciais na África do Sul, marco do encerramento do sistema de segregação racial oficial. Situa-se em Johannesburgo, mantém direção independente do governo e sustenta-se com base em doações, contribuições e patrocínios.

São 22 exibições singulares permanente que, juntas, proporcionam uma jornada histórica e temática pela África do Sul do regime de minoria branca. Entre elas, destacam-se as exposições sobre a nova Constituição democrática, sobre a classificação racial do apartheid e as jornadas pela história do país, desde a “corrida do ouro” do final do século XIX até as lutas sociais de resistência à opressão racial. Uma exibição separada está dedicada à trajetória política e pessoal de Nelson Mandela.

No site do museu, as informações para visitantes aparecem num simulacro de uma carteira de identidade dos tempos do apartheid, que registrava a classificação racial dos “nativos”.

 

11.

Inaugurado em 2002, em Budapeste, o House of Terror é uma iniciativa da Fundação Pública de Pesquisa da História e Sociedades da Europa Central e Oriental. Sua missão é conservar a memória dos regimes nazifascista e comunista que dominaram a Hungria entre 1944 e 1989 e prestar homenagem a suas vítimas. No edifício renovado funcionou a polícia política do regime comunista.

A exposição permanente narra a história dos dois regimes, recria ambientes da repressão política e lança luz sobre a Revolução Húngara de 1956, esmagada pela invasão das forças do Pacto de Varsóvia. No andar subterrâneo, os visitantes percorrem celas utilizadas pela polícia política.

 

12.

O Museu do Aljube revisita meio século da história portuguesa. Portugal viveu sob ditadura entre 1926 e 1974. O ditador António de Oliveira Salazar governou o país entre 1932 e 1968. O regime salazarista perdurou, ainda, até a Revolução Portuguesa de 25 de abril de 1974. A exibição permanente, organizada em três andares do edifício, narra a história desse longo período por meio de notícias de imprensa, documentos, fotografia, gráficos, textos e objetos. O piso térreo é dedicado a exposições temporárias e à história do edifício.

O edifício do Aljube (palavra de raiz árabe que significa “poço sem água” ou “masmorra”), no centro histórico de Lisboa, hoje ocupado pelo museu, remonta aos períodos romano e islâmico. Funcionou como cárcere eclesiástico, prisão de mulheres e, desde 1928 até 1965, prisão política salazarista.

 

13.

O Memorial da Resistência, na região central de São Paulo, ocupa o edifício que serviu como sede, entre 1940 e 1983, do antigo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), uma das mais truculentas polícias políticas do Brasil. As celas do edifício foram utilizadas como locais de tortura durante os “anos de chumbo” da ditadura militar.

O museu é gerido pela Secretaria da Cultura do estado de São Paulo. A exposição permanente narra a história do edifício e preserva as memórias de repressão e resistência políticas no Brasil republicano, com destaque para o período da ditadura militar, entre 1964 e 1985. O museu articula suas iniciativas com o Programa Lugares da Memória, que identifica e reconstitui as histórias de locais de repressão política no estado de São Paulo.

 

14.

O Museu da Memória, criado em 1998 por decisão do governo municipal da cidade de Rosário, revê o período da “guerra suja” na região e na Argentina. A “guerra suja”, terrorismo de Estado conduzido pela ditadura argentina entre 1974 e 1983, deixou cerca de 30 mil “desaparecidos”. Os crimes contra a humanidade extermínios em massa, precedidos por torturas e concluídos pela eliminação de cadáveres marcaram uma geração inteira de argentinos. Também contém material sobre violações de direitos humanos cometidas em outros países da América Latina.

No final de 2010, o museu transferiu-se para sua sede definitiva, um edifício ocupado, no passado, pelo Comando do II Corpo do Exército, bem próximo de um antigo centro clandestino de detenção que funcionou como cárcere e local de interrogatório, tortura e assassinatos de milhares de pessoas. Nos anos da “guerra suja”, o edifício que abriga o museu foi local de peregrinação de familiares e amigos, em busca de informações sobre os “desaparecidos”.

A exposição permanente é formada por obras de artistas de Rosário. Além dela, o museu promove exposições temporárias e conta com um centro de documentação, uma biblioteca especializada e um auditório com finalidades educativas.

 

15.

O Museu da Memória e dos Direitos Humanos, situado na região central de Santiago, destina-se a difundir informações e educar sobre o período da ditadura militar de Augusto Pinochet, entre 1973 e 1990. Foi inaugurado em 2010, como parte do projeto do Bicentenário da independência. Suas raízes encontram-se nas recomendações da Comissão da Verdade e da Reconciliação, que investigou e registrou os crimes contra a humanidade e as sistemáticas violações de direitos humanos cometidos pelo Estado ao longo do regime pinochetista.

A ditadura chilena deixou um saldo de mais de 28 mil vítimas de prisões arbitrárias e torturas, quase 2,3 mil executados e mais de 1,2 mil “desaparecidos” políticos. Os documentos, arquivos imagens e objetos, expostos em diferentes plataformas visuais e sonoras, narram a história do golpe de 1973, da repressão política do regime, da resistência e da solidariedade internacional aos perseguidos. Uma exposição permanente ocupa a maior parte do edifício de 5 mil metros quadrados. Diversos espaços abrigam exposições temporárias, com destaque para a Galeria da Memória, uma vasta esplanada na parte externa do conjunto.

 

16.

O Museo da Memória (MUME) situa-se em Montevidéu, na antiga quinta de Máximo Santos, oficial militar, ministro da Guerra e presidente entre 1882 e 1886, um símbolo da corrupção e do militarismo no Uruguai do século XIX. Mas a exposição permanente do MUME aborda a ditadura cívico-militar instalada em 1973 pelo presidente Juan María Bordaberry, que se estenderia até 1985.

A memória do terrorismo de Estado desencadeado pela ditadura, que utilizou esquadrões da morte para exterminar opositores, é a uma das facetas da exposição. Paralelamente, narra-se a história da articulação da resistência semi-legal e clandestina ao regime de força. As cárceres, os processos judiciais farsescos, a vigilância e a censura, os exilados e “desaparecidos” políticos de uma exposição organizada nos planos cronológico e temático.

O MUME é gerido pelo Departamento de Cultura do governo uruguaio. Além da exposição permanente, realiza exposições temporárias, nas salas da mansão e no parque que a rodeia, e exposições itinerantes, que percorrem faculdades, escolas e centros culturais.

 

 

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