SUÁSTICAS AMARELAS MANCHAM A FRANÇA (4/3/2019)

 

Demétrio Magnoli

 

Novamente, suásticas mancharam cemitérios e outros lugares públicos na França.

Tornou-se quase uma tradição francesa. Aos sábados, nas principais cidades do país, milhares de manifestantes em coletes amarelos protestam contra o “sistema” – ou seja, praticamente contra tudo. Frequentemente, as marchas derivam para violentos confrontos com a polícia. E, notoriamente, saltam do movimento fagulhas de antissemitismo. São slogans odientos, agressões verbais a judeus conhecidos e suásticas pintadas em lápides de cemitérios.

Suásticas amarelas mancham a França

“A história repete a si mesma”?

Sábado passado, 2 de março, um tuíte de Alain Fontanel, secretário de Cultura da prefeitura de Estrasburgo, revelou a vandalização da lápide de mármore da sinagoga da cidade, que marca o incêndio provocado por nazistas em setembro de 1940. “A história repete a si mesma”, diagnosticou Fontanel. Um mês antes, no cemitério judaico próximo, os vândalos haviam coberto as tumbas com suásticas e sentenças antissemitas.

O célebre filósofo Alain Finkielkraut experimentou uma gota do ódio durante os protestos de 16 de fevereiro. No caminho para casa, após o almoço, Finkielkraut passou perto da manifestação. Ao ser reconhecido, converteu-se em alvo de uma barragem de insultos: “sionista imundo, vá para Tel Aviv”, bradava uma pequena multidão. A presença da polícia evitou o pior.

A relação entre o fenômeno dos coletes amarelos e a onda de ódio aos judeus já pode ser captada estatisticamente. Ano passado, segundo informações oficiais, registrou-se aumento de 74% nos ataques antissemitas. Mesmo assim, não é certo pregar genericamente no movimento dos coletes amarelos o rótulo do antissemitismo.

Jason Herbert, um dos incontáveis porta-vozes dos coletes amarelos, qualificou como “escândalo” o incidente com o filósofo e disse que ele não é representativo do conjunto do movimento. Nos protestos daquele mesmo sábado, um manifestante idoso, a cabeça coberta com um chapéu, portava um cartaz com os dizeres: “Antissemitismo. Islamofobia. Racismo. Não em nosso nome.” O problema é que ele empregou o pronome “nosso”, em lugar do mais preciso “meu”.

O movimento dos coletes amarelos nasceu da indignação da classe média-baixa, especialmente das pequenas cidades, diante de uma “taxa verde” que elevou os preços dos combustíveis. Daí, espalhou-se em rastilho de pólvora, concentrando as insatisfações contra as reformas econômicas e sociais do governo de Emmanuel Macron. Nesse percurso, atraiu correntes extremistas de direita e esquerda, que estabeleceram uma aliança tácita inédita na história francesa. Os coletes amarelos rejeitam as ideias de uma direção unificada e de um nítido programa de reivindicações. De fato, pretendem obter nada menos que a renúncia do presidente e a revogação dos atos reformistas votados pela Assembleia Nacional.

Segundo Herbert, as eclosões de ódio aos judeus evidenciam “a fraqueza inerente a um movimento que dá a palavra às pessoas”. A explicação auto-congratulatória investe no mito da espontaneidade absoluta. Contudo, nos domínios da política, não existe nada puramente espontâneo.

A invocação de espontaneidade serve aos líderes de movimentos para cobri-los com o verniz da autenticidade: eles seriam os arautos de uma imaculada vontade popular. Especialmente no caso do antissemitismo, nunca se pode falar em espontaneidade. O ódio aos judeus tem longa história – e sempre funcionou como ferramenta de fins políticos bastante definidos. Na Europa de hoje, é utilizado quase abertamente pelo governo húngaro de Viktor Orban. As erupções antissemitas dos coletes amarelos não decorrem de sentimentos populares espontâneos, mas da singular natureza política que o movimento adquiriu.

Vincent Duclert, acadêmico especializado em antissemitismo, oferece diagnóstico mais realista que o de Herbert. Ele aponta o papel das correntes extremistas no movimento e o estímulo geral à transgressão das leis que o anima. Jean-Yves Camus, um pesquisador das franjas do espectro político francês, vai na mesma direção. Ele observa que o movimento transformou-se “num viveiro de atividades radicais dos dois lados do espectro político” e prevê mais ataques antissemitas, “pois os auto-proclamados líderes não parecem se preocupar muito com isso”.

Os coletes amarelos, "viveiro de atividades radicais dos dois lados do espectro político"

Os coletes amarelos, “viveiro de atividades radicais dos dois lados do espectro político”

Duclert e Camus olham para o interior do movimento, mas uma análise mais acurada exige que se leve em conta a paisagem circundante. Marine Le Pen, líder do partido da direita nacionalista francesa, e Jean-Luc Mélenchon, líder do partido da esquerda radical, flertam com os coletes amarelos e, na campanha para as eleições europeias de maio, disputam o apoio dos manifestantes.

Os dois divulgam condenações protocolares das explosões de ódio aos judeus, mas recusam-se a atribuir responsabilidades às correntes extremistas. A primeira sugere que o antissemitismo só existe “porque o islamismo radical está crescendo na França”. Já o segundo, desafiando as evidências, culpa exclusivamente os radicais de direita pelos ataques antissemitas.

Macron prometeu “combater o antissemitismo em todas as suas formas”. Na sua mensagem, disse que “isso não é o que a França é”. Cuidado, presidente: a lápide da sinagoga de Estrasburgo rememora não só a agressão nazista mas, também, a ativa colaboração de parcela significativa da elite francesa com o regime hitlerista durante a Segunda Guerra Mundial. A França é muitas coisas diferentes – e, entre elas, como mostram os coletes amarelos, inclusive o ódio aos judeus.

 

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