LEICA NA CHINA: QUAL O VALOR DE UMA FOTOGRAFIA? (29/4/2019)

 

Elaine Senise Barbosa

 

Há pouco, foi postada na web chinesa uma propaganda de quase cinco minutos da Leica, a gigante alemã de equipamentos fotográficos. Na peça publicitária, o filme The Hunt, aparecem diferentes histórias de fotógrafos e uma história principal, que termina com a foto do tank man, uma das imagens icônicas do século XX. É a foto (feita com uma câmera Leica) do chinês solitário que deteve uma coluna de tanques na Praça Tiananmen, em Pequim, dia 5 de junho de 1989. Na última cena, a frase “Esse filme é dedicado a todos aqueles que nos emprestam os olhos para poder ver”. Nesse ano, a foto do tank man – e tudo o que ela representa – completa seu 30º aniversário (Veja o filme The Hunt).

LEICA NA CHINA: QUAL O VALOR DE UMA FOTOGRAFIA?

O que parecia uma ideia ousada, no entanto, despertou reações bastante negativas entre parcela dos internautas chineses, manifestas na rede social local, o Weibo, sob a hashtag #LeicainsultingChina. Na indignação nacionalista expressa pelos internautas, muitos mandavam a empresa alemã ir embora. O governo chinês, em questão de horas, bloqueou filme, comentários, palavras correlatas, tudo para evitar que a polêmica levasse cada vez mais gente a assisti-lo e, por extensão, a querer saber mais daquela história e daquela foto – hoje, o maior tabu político do país, proibido de ser lembrado. Desde então, se alguém busca a palavra Leica, surgem alertas de que o assunto é proibido e passível de punição legal!

A Leica alemã, a matriz, ao ver sua marca envolvida negativamente na polêmica emitiu um comunicado oficial declarando que o comercial em questão não foi “oficialmente sancionado” pela empresa – que, portanto, não teria nenhuma responsabilidade sobre conteúdo veiculado. No fim, a Leica pede “desculpas pelo mal entendido”! Ficou interessante quando a agência de publicidade responsável pelo comercial, a brasileira F/Nazca Saatchi & Saatchi, que detém a conta da Leica no Brasil decidiu se pronunciar sobre o comunicado oficial da cliente alemã. Eles lembraram que a parceria é antiga, que há poucos anos outra campanha nessa linha foi super premiada e, sobretudo, que a agência não agiria sem anuência da empresa. 

Se desvencilhar da criança não é bonito, mas é um exemplo claro do quanto as empresas ocidentais estão dispostas a ceder para ter acesso ao mercado chinês. A Leica se associou à gigante das comunicações Huawei para fornecer as lentes das câmeras de celulares fabricados pela chinesa, cujas ambições no mercado mundial são conhecidas. Atualmente, a Huawei detêm e dissemina internacionalmente seu padrão de tecnologia 5G, o que causa pesadelos geopolíticos nos Estados Unidos. Para a Leica, sem dúvida, essa associação é estratégica. Mas até que ponto as empresas vão continuar com essa dupla moral, uma para o mundo e outra para a China? 

O país que cresce sem parar e se tornou uma das locomotivas da economia mundial exige concessões cada vez maiores das empresas que ali operam. A fim de evitar represálias, a Delta Airlines retirou do ar uma propaganda na qual a ilha de Taiwan era apresentada de forma positiva. A Mercedes Benz apagou uma postagem no Instagram que trazia a figura do Dalai Lama, do Tibete, um inimigo jurado do regime chinês. Já o presidente da Volkswagen alegou “não estar ciente” de que na província de Xinjiang, onde a empresa tem uma fábrica, existem inúmeros campos de detenção para mais de um milhão uigures, os muçulmanos chineses. Em artigo anterior, esse site já registrou a cumplicidade de grandes grupos econômicos ocidentais com a exploração do trabalho infantil por empresas chinesas nas minas do Congo.

 

Palavras proibidas

Mas o que aconteceu há 30 anos?  Qual a mensagem associada ao comercial da Leica que o governo chinês censurou?  

Em 1989, o mundo foi chacoalhado pelo terremoto que pôs abaixo quase todos os países governados por regimes comunistas. Na União Soviética, Mikhail Gorbachev, o Secretário Geral do PCUS, conduzia desde 1985 o governo soviético para a abertura política e econômica por meio da Perestroika e da Glasnost. O ano começou com eleições livres para o legislativo russo e logo no primeiro dia do novo parlamento um deputado pediu a extinção da KGB, a temível polícia política soviética. E ele não desapareceu! A plateia mundial, que acompanhava estupefata, nem imaginava que em novembro o maior símbolo da Guerra Fria, o Muro de Berlim, seria derrubado pelos alemães a picaretadas, sob o olhar confuso dos guardas de Berlim Oriental. Entre esses dois eventos, acontecimentos na China pareceram confirmar a inevitabilidade do colapso de todos os regimes comunistas. 

Tudo começou em 15 de abril com a morte de Hu Yaobang, um dos líderes do Partido Comunista Chinês (PCC) que, junto com Deng Xiao Ping, conduziu a abertura econômica da China e tinha postura mais favorável à abertura política. Seu enterro acabou catalisando as vozes que pediam liberdade. No final do mês, uma passeata de cem mil estudantes em Pequim pediu o aprofundamento das reformas que o governo vinha fazendo desde o início da década de 1990, focadas apenas em crescimento econômico. O povo queria comida, diversão e arte. O movimento dos chineses tinha sua própria história, mas pegava carona na onda de reformas em curso na irmã-inimiga URSS, demonstrando aos dirigentes do país que, no fim, todos queriam mais liberdade. Por coincidência, Gorbachev visitou Pequim em 14 de maio de 1989. Discretamente, o líder soviético fez gestos de apoio aos que ocupavam as ruas. 

O que foi chamado inicialmente de “Primavera da Praça Tiananmen” (Praça da Paz Celestial) foi um movimento de estudantes e de um número cada vez maior de trabalhadores. Durante as seis semanas de sua existência, entre 15 de abril e 5 de junho, chegou a reunir mais de um milhão de pessoas. Pego de surpresa em um momento particularmente instável para o PCC, pois Deng Xiao Ping, o líder daqueles anos, estava velho e relativamente afastado do comando direto do país, o Politburo demorou semanas discutindo a situação e esperando a ordem para a repressão – um gesto que cabia a Deng. 

Um estudante da faculdade de artes completa a estátua da "deusa da democracia", em 30 de maio de 1989, durante os protestos na Praça da Paz Celestial

Um estudante da faculdade de artes completa a estátua da “deusa da democracia”, em 30 de maio de 1989, durante os protestos na Praça da Paz Celestial

Enquanto um clima de euforia se instalava na Praça, tropas eram deslocadas para a capital e arredores do Palácio Imperial. Na madrugada do 4 de junho veio a resposta: no escuro, forças do Exército cercaram a Praça da Paz Celestial e entraram atirando. Foi um massacre. Oficialmente, duas mil pessoas foram mortas; até hoje não se sabe ao certo o número de vítimas fatais, que muitos afirmam ser bem maior. A foto tank man foi tirada no 5 de junho, já com a Praça tomada pelos tanques. Foi a cena final daquela primavera, o gesto de quem não desistia de acreditar no sonho da liberdade e da paz: um homem só detém uma coluna de canhões e, por uma única vida humana, a “guerra” congela… No mundo real, a coluna de tanques avançou e o paradeiro do tal jovem permanece envolto em mistério.

Ao contrário da URSS, o regime comunista conseguiu manter-se na China graças à invenção do “socialismo de mercado”. Nele assistimos à transmutação das lideranças do PCC em elite econômica e empresarial, detentores da chave que abre a porta para a economia chinesa. Para que o poder absoluto do PCC não seja ameaçado, é muito importante bloquear qualquer reforma democratizante. E, por isso, é crucial apagar a “Primavera” e o “Massacre” da Praça Tiananmen: essas palavras e todas a elas correlacionadas são censuradas em qualquer mídia.

A obsessão do governo chinês pelo controle de todas as formas de comunicação, sobretudo as redes sociais, relaciona-se ao controle sobre a narrativa histórica. Para substituir o Twitter, eles criaram o Weibo. Mark Zuckerberg, do Facebook, aceitou a instalação de mecanismos de rastreamento dos usuários, a fim de garantir a continuidade de seus negócios no país. Vergonhosamente, o Yahoo forneceu ao regime chinês informações sobre um jornalista dissidente… Grande Irmão, é você? 

Sob um silêncio sólido dos governos ocidentais, mais de 20 mil pessoas acabam de protestar em Hong Kong contra as penas de prisão aplicadas a quatro importantes personalidades do movimento pela democracia. Nos últimos 20 anos, grande parte dos países parou de denunciar o dumping social chinês em troca de acesso ao imenso mercado interno da China. As empresas ocidentais não têm dramas de consciência quando ignoram os “valores” que dizem defender em suas plataformas institucionais, em troca de um naco da última grande fronteira do capitalismo. 

Esse filme é dedicado a todos aqueles que nos emprestam os olhos para poder ver”. É a história da fotografia e de inúmeros profissionais que já morreram para que soubéssemos das mazelas e das belezas do mundo. A Leica negocia com Mefisto e vende  a própria alma quando nega sua relação com aquela foto. 

 

 

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