Não é errado dizer que Trump tenta transformar o ICE numa força paramilitar, que não respeita as leis e busca se impor pelo medo e intimidar seus opositores políticos. No último mês, em Minneápolis todos viram até que ponto esses agentes mascarados e sem identificação visível estão dispostos a chegar, e até que ponto o governo federal pretende justificar os excessos contando as mentiras mais infames contra dois cidadãos que exerciam seu direito constitucional à liberdade de expressão e foram simplesmente fuzilados pelos supostos defensores da lei.
Renee Nicole Good, uma jovem mãe de três filhos, a primeira vítima do ICE em Minneapolis
O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos ou ICE (Immigration and Customs Enforcement) é um órgão federal subordinado ao Departamento de Segurança Interna ou DHS (Department Homeland Security). O ICE dispõe de amplos poderes legais para combater a imigração ilegal. Recentemente seu contingente foi ampliado de 10 para 22 mil integrantes e seu orçamento prevê 76 bilhões de dólares nos próximos quatro anos, podendo aumentar em mais 10 bilhões se o Senado aprovar a lei orçamentária que está prestes a ser votada. Se a lei passar sem ajustes, Trump aumentará ainda mais o número de agentes do ICE.
A política adotada pela Casa Branca é invocar distúrbios em larga escala e a presença de “imigrantes criminosos” e “terroristas domésticos” para justificar operações do ICE em diferentes cidades, especialmente as “cidades santuários”, onde imigrantes indocumentados não são discriminados. O problema é que todas elas aconteceram em cidades governadas pelo Partido Democrata. É escandaloso que um presidente possa perseguir tão abertamente os cidadãos de unidades da federação nas quais tenha sido derrotado nas urnas. Isso enquanto se acumulam denúncias de que os agentes do ICE, em suas investidas, tentam ter acesso a cadastros públicos com dados pessoais e registro eleitoral. É gravíssimo.
No dia seguinte ao assassinato de Alex Pretti, o governador republicano do estado de Vermont, Phil Scott, apelou ao presidente pela retirada das forças do ICE do estado de Minnesota: “…trata-se de uma intimidação e incitação deliberada por parte do governo federal contra cidadãos americanos, resultando no assassinato de americanos. Repito, já chega. O Presidente deveria suspender essas operações, reduzir a tensão e redirecionar o foco do governo federal para imigrantes ilegais que realmente cometeram crimes.”
O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira é filho da “guerra ao terror”, lançada pelo presidente George W. Bush em resposta aos atentados terroristas do 11 de setembro de 2001. Militantes da Al-Qaeda que viviam nos Estados Unidos sem levantar suspeitas, sequestraram aviões de passageiros e os transformaram em armas para atingir as Torres Gêmeas e o Pentágono naquele dia fatídico. Na política doméstica, ganhou força a associação entre o imigrante e uma rede de ilegalidades que escondia criminosos.
O presidente George W. Bush anuncia as novas competências do Departamento de Segurança Interna
O ICE, responsável pelo controle de fronteiras, foi promovido a departamento com amplos poderes de investigação (muitos em clara violação de privacidade, como o Patriot Act) e parceria imediata com o FBI em casos de suspeita de terrorismo. O objetivo era descobrir outros “terroristas disfarçados” e proteger os cidadãos do país.
O “imigrante indesejado”, um estereótipo permanente no discurso nativista dos Estados Unidos, já havia sido transformado em ameaça à segurança nacional por outra “guerra”, aquela “contra as drogas”, lançada duas décadas antes por outro presidente republicano, Ronald Reagan (1981-1989). Nesse caso, o imigrante irregular era “latino” e diretamente ligado ao tráfico de drogas e à criminalidade que explodia no país no início dos anos 1980. Mas, depois do 11 de setembro, os imigrantes se tornaram muito mais perigos, “lobos em pele de cordeiro”… A ideia de um país sob ataque é o bumbo que Trump e sua turma do MAGA tocam.
Renee Nicole Good e Alex Pretti, ambos com 37 anos e moradores de Minneápolis, mortos pelo ICE à vista de todos, com três semanas de intervalo, enquanto exerciam pacificamente o direito de se manifestarem, foram rotulados pelos responsáveis da Casa Branca como “terroristas domésticos” e responsabilizados por suas tragédias. Confrontados com as imagens capturadas por muitos celulares, de diferentes ângulos, e amplamente verificadas, pode-se ver claramente a gratuidade do recurso extremo à morte. Trump teve que recuar dessa narrativa e lamentar o ocorrido.
Mas a estratégia geral é prosseguir alegando riscos à segurança nacional. O que Trump descobriu que o ICE é a única agência federal com “poder de polícia” capaz de atuar como força de ocupação territorial (pelo menos enquanto não houver uma legislação determinando claramente seus poderes e funções).
A escalada da violência dos agentes do ICE, que desencadeou múltiplas analogias com as forças paramilitares nazifascistas, provocou um duplo curto-circuito no campo da direita trumpista. O mais óbvio é aquele com o qual os Estados Unidos periodicamente se deparam enquanto nação, provocado pela contradição entre ser o país que lutou pela democracia e derrotou o Eixo em 1945, ao mesmo tempo em que resistiu a acabar com suas próprias leis de segregação racial até 1964. Agora o racismo e o autoritarismo que orientam a política da Casa Branca é tão descarado que seus agentes já estão parecendo nazistas até mesmo para os aliados!
Stephen Miller não se desculpou pelas acusações levianas que disparou contra as vítimas
Mas outro conflito de valores importantíssimo se instalou no campo da direita. Trata-se do direito ao porte de armas, posto pelas circunstâncias da execução de Alex Pettri. Porque ele portava uma arma e tinha licença para isso, e apesar de não tê-la tocado em momento algum, recebeu dez tiros quase simultaneamente quando um dos agentes descobriu-a. O assessor especial da Casa Branca, Stephen Miller, e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, acusaram a vítima de “terrorista doméstico” e afirmaram que ele queria “matar muita gente”.
Confrontados com as gravações dos celulares, Trump falou em “incidente triste” mas condenou o fato de Pretti estar armado na manifestação. Só que agora a Associação Nacional do Rifle (NRA), a mais poderosa associação pró-armas dos EUA, entrou na briga contra a Casa Branca e passou a cobrar uma “investigação completa” sobre a morte do jovem enfermeiro. Eles questionam: desde quando portar armas tornou-se passível de execução sumária, se esse é considerado um direito tão inalienável quanto a liberdade de expressão?
Na argumentação constitucional na qual a NRA sempre se apoiou, as armas dos cidadãos servem, inclusive, para a defesa do indivíduo contra o Estado opressor.
A violência dos agentes do ICE não é casual, é orientada. O recorte racial é claro, o que já configura quebra do princípio de tratamento igual perante a lei. Podem falar em criminosos e prender alguns para as fotos, mas o que se avolumam são casos de pessoas, incluindo crianças muito pequenas, presas pelos homens do ICE nas portas dos tribunais de processamento dos vistos, gente que fez tudo certo e foi presa logo antes de falar com os juízes e concluírem seus processos.
O governo federal diz que o objetivo é capturar “imigrantes criminosos”, mas os agentes do ICE preferem capturar mães e pais buscando crianças nas escolas, quando escolhem os de “aparência latina” ou “não-branca”. O tratamento que está sendo dispensado aos filhos dos imigrantes, levados para mini presídios é de uma brutalidade que o futuro não vai esquecer.
E tudo isso está acontecendo porque a Suprema Corte, em setembro de 2025, autorizou o ICE a deter temporariamente pessoas sem mandados de prisão, se existirem “suspeitas razoáveis”. Como isso é lido: todos os não brancos e que falarem outra língua ou tiverem sotaque são suspeitos. O princípio de que o agente tem “fé pública” oferece um espaço de subjetividade que é preenchido pelos preconceitos do agente, no caso, toda a comunicação presidencial é bastante explícita sobre quem são os alvos.
Homenagem a Alex Pretti, numa vigília realizada no sábado em Minneapolis
Tem acontecido nessas operações do ICE de, mediante decisões judiciais, elas serem encerradas. Mas uma decisão da Suprema Corte estabeleceu que os poderes estaduais não podem impedir forças federais de fazerem seu trabalho e isso tem inúmeras implicações. Por exemplo, se o prefeito ou governador chamarem a polícia estadual para proteger os cidadãos numa passeata contra a presença do ICE pode-se falar em “rebelião”? Porque a violência do ICE é uma provocação para que a população se irrite, os ânimos se acirrem, a violência exploda e a Casa Branca recorra à Lei de Insurreição em nome de conter uma rebelião que será apresentada como ameaça à segurança nacional.
Moradores de Minneapolis fazem uma vigília em memória de Alex Pretti
Tim Waltz, o governador de Minnesota, e Jacob Frey, prefeito de Minneapolis, entenderam o risco político e chamaram a população a agir pacificamente na defesa de seus vizinhos e de seu direito à manifestação. E numa incrível aula de organização cívica e consciência política sobre a gravidade do momento, os habitantes da cidade permaneceram nas ruas, não abandonaram seus vizinhos imigrantes e não jogaram uma bola de papel contra os invasores federais.
Graças a esse autocontrole, as cenas dos assassinatos de Rene Good e Alex Pretti são incontestáveis e certamente tiveram um peso enorme no fato de muitos políticos do Partido Republicano terem vindo a público manifestar seu repúdio ao que está acontecendo, incluindo a renúncia do candidato a governador de Minnesota, Chris Madel.
Mediante a péssima repercussão provocada pela morte de Pettri, o governo federal começou a semana passada demitindo Gregory Bovino, chefe da operação em Minneápolis, que um dia antes brilhara nas páginas dos jornais e sites de notícia com seu visual inspirado na Alemanha de 1939.
Os deputados democratas querem que o ICE esteja sujeito a regras de conduta claras antes de conceder mais recursos. A pressão que pode ser feita, nesse momento, é a não aprovação do orçamento relacionado a um significativo aumento de verbas para o ICE. Trump por outro lado, já disse mais de uma vez em sua rede social que os deputados democratas que não aprovam o que o seu governo propõe devem ser tratados como inimigos.
Desde a última sexta-feira, paralisações, marchas e protestos em diversas cidades pelo país pedem o fim do ICE. Trump pode até recuar momentaneamente, mas ele não vai desistir de calar os opositores e garantir poderes cada vez mais amplos para si e os seus. Nesses próximos dias, as ações e decisões definirão o futuro do projeto segregacionista encarnado pelo trumpismo. A união da população contra essa ameaça à democracia será decisiva.
Por hora, Trump, que adora prêmios, está ganhando homenagens musicais do velho rock’n roll ao jovem rap.
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