O QUE É NATIVISMO

 

Assim como no caso do populismo, o fenômeno político do nativismo tem crescido junto com os fluxos de imigrantes e refugiados circulando pelo mundo. O nativismo, mais do que o populismo, existe pela oposição direta entre os “nativos” e os “forasteiros”, sendo esses últimos uma ameaça ao “modo de vida” e aos “valores tradicionais” dos autóctones. A princípio, o conceito de nativismo está ligado à história dos Estados Unidos, mas atualmente essa palavra tem aparecido bastante nas análises sobre os partidos políticos de direita, sobretudo na Europa.

Quando um francês, por exemplo, lastreia sua identidade cultural no cristianismo, o imigrante muçulmano torna-se uma ameaça pelo simples fato de ter um modo de vida distinto. Recordemos que no século XIX o governo dos Estados Unidos usou a escola pública para diluir as diferenças entre seus imigrantes, fazendo do inglês a língua comum e do culto à bandeira um símbolo de identidade. Hoje, o multiculturalismo pede respeito às diferenças e tolerância para com o outro, deixando a sensação de que os “nacionais” estão mais constrangidos a se adaptarem aos “recém-chegados” do que o contrário. É nesse espaço que a xenofobia cresce.

 

O que é um nativista? E Donald Trump é um? (abaixo, uma síntese do artigo)

Nas palavras de Cas Mudde (professor da University of Georgia e co-autor de Populism: A Very Short Introduction), nativismo – uma combinação de nacionalismo e xenofobia – é uma ideologia que defende que os Estados devem ser habitados exclusivamente por membros de um dado grupo nativo (a “nação”), e que elementos não-nativos (pessoas e ideias) são fundamentalmente uma ameaça ao Estado-Nação homogêneo. Para Mudde, nativismo é um conceito quase que exclusivamente norte-americano, sendo pouco empregado na Europa.

A origem do termo remonta aos movimentos políticos nos Estados Unidos de meados do século XIX, principalmente ao chamado Know Nothing Party, que considerava a imigração católica (como de alemães ou irlandeses) uma séria ameaça aos americanos nativos protestantes. Eles ignoravam o fato de também serem “imigrantes” e os povos indígenas não eram sequer lembrados. Na história dos Estados Unidos, nação de transplantados, a ideologia nativista acompanha as ondas de imigração fazendo de “nativo” um conceito fluído.

Europeus tendem a falar em ultra-nacionalismo, xenofobia ou racismo, ao invés de nativismo. Mas, no ponto de vista de Mudde, tal linguagem não captura completamente o fenômeno, que segundo ele “não é apenas um preconceito contra não-nativos”, “é também uma concepção de como o Estado deve ser estruturado. Nativismo seria então um “nacionalismo xenófobo”, uma ideologia que pretende “amarrar” o Estado à nação, concebendo-os como algo fixo e buscando unidade política e cultural. Em decorrência disso, promove o ideal de um Estado para cada nação, e uma nação para cada Estado, enxergando pessoas e ideias “não-nativas” como ameaças à unidade que se pretende preservar.

A ideologia nativista parece avançar em períodos nos quais a harmonia entre o Estado e a sociedade se enfraquece e a imagem da “nação” se desfaz. A nova conexão política é estabelecida por meio de uma narrativa polarizada, que opõe “eles” – os não-nativos – e “nós” – os nativos. Nas palavras do professor Mudde: “O outro é bárbaro, o que te torna moderno. O outro é preguiçoso, o que te torna laborioso. O outro é pagão, o que te torna um crente” (“the other is barbarian, which makes you modern. The other is lazy, which makes you hardworking. The other is Godless, which makes you God-fearing.”)

Eric Kaufmann, cientista político e professor da University of London’s Birkbeck College, diferencia o nacionalismo em três vertentes. A primeira baseia-se em ideologia, por exemplo, “América, líder do mundo livre”; a segunda, em status: “América, o país mais poderoso do mundo”; e a terceira, o nativismo propriamente dito, um nacionalismo étnico relacionado à base territorial (“boundary-based nationalism”), que reivindica que os nativos (ou seja, os primeiros a chegar) devem ter prioridade sobre outras culturas e povos.

O nativismo pode ser enquadrado na categoria mais ampla dos populismos de direita. O populismo em si é uma ideologia baseada em representar a “população virtuosa” contra a “elite corrupta”. Cas Mudde considera que outros aspectos do pensamento da direita radical, como o populismo e o autoritarismo, também surgem no nativismo. Do ponto de vista do populismo, ele diz, “a elite é considerada corrupta porque trabalha em favor de interesses não-nativos”. Em termos autoritários, invoca-se o reforço da lei e da ordem associando-se atos criminosos aos estrangeiros. Em particular, Mudde observa que depois do 11 de setembro (de 2001, ataque às Torres Gêmeas em Nova York) a ameaça estrangeira deslocou-se para o campo religioso. O imigrante agora é um “muçulmano”, não um turco ou um marroquino.

Existem estudos relacionando o aumento da imigração ao maior apoio recebido por partidos da direita radical. Mas, em seu estudo, o professor Mudde sugere que essa relação não é automática, para ele, além de um dado numérico é preciso que a imigração se converta em assunto da política para que seja percebido pela maioria da população. E dá como exemplo a onda de imigração afro-asiática para a Europa nos anos 1970, quando o fato não era visto como problema; a reação começou a vir depois, nos anos 1980 e 1990, quando se tornou assunto da política, ao mesmo tempo em que as políticas de integração desses recém-chegados e seus filhos começaram a mostrar falhas. Foi a partir dessa época que partidos como a Frente Nacional Francesa cresceram. Já nos Estados Unidos, Trump chegou ao poder com sua retórica anti-mexicana no momento em que existem mais mexicanos deixando do que chegando aos EUA.

Na visão do professor Eric Kaufmann, se os políticos querem enfraquecer o apelo nativista eles precisam destacar os sucessos das políticas de assimilação de imigrantes, destacando os sinais de continuidade da coletividade, e não apenas as mudanças, e atenuar a conversa sobre a diversidade. Kaufmann acredita que a retórica multiculturalista é em parte responsável pelo fato de as pessoas superestimarem o tamanho das minorias estrangeiras em seus países. Os políticos precisam mostrar às maiorias étnicas que elas têm um futuro e oferecer uma visão do que esse futuro pode ser.

 

 

 

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