CUBA OUVE O RAP DA DISCÓRDIA (19/4/2021)

 

Elaine Senise Barbosa

 

Cuba vibra com música, mas não são mais canções de louvor à revolução ou baladas românticas. É o som desafiador do rap que ocupa corações e mentes.  

Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl Castro à frente do Estado-Partido em Cuba

Termina hoje, 19 de abril, o 8º Congresso do Partido Comunista Cubano, com duas novidades. A primeira é a aposentadoria de Raúl Castro, que passa definitivamente o comando da ilha para Miguel Díaz-Canel, a quem já havia entregue a presidência do país desde 2018. O cargo de secretário-geral do partido, órgão de poder mais importante em qualquer estrutura de governo comunista, não estará mais com alguém que fez a Revolução de 1959.

A saída de cena dessa geração não é uma mudança menor. Pela primeira vez não haverá um Castro no poder.  Contudo, a considerar o lema que Díaz-Canel adotou (“somos continuidade”), o lema deste 8º Congresso (“unidade e continuidade”) e a reforma constitucional de 2019, parecem baixas as expectativas de grandes mudanças.

Mas é aí que entra a segunda novidade, cuja senha foi dada pelo jornal Granma, a voz oficial do Estado-Partido, semanas atrás, de acordo com reportagem da Deutsche Welle:“Convencido que de pensamento é a guerra maior que nos fazem, o Partido incluiu em seu sistema de trabalho o acompanhamento e enfrentamento à subversão político-ideológica que tem na internet e nas redes sociais um cenário permanente de confrontação com o inimigo”. Por isso, o Congresso focará sua atenção em como alcançar uma efetividade superior em todos os âmbitos e formas, utilizando os meios disponíveis para assumir a batalha comunicacional com maior criatividade e inteligência”.

Esse discurso, típico de ditaduras que precisam permanentemente fabricar inimigos da pátria, foi provocado pelo aparecimento de jovens artistas alheios ao circuito oficial da cultura, na esteira da difusão dos celulares na ilha nos últimos anos. Muitos deles são cantores de rap que fazem da poesia ritmada o seu depoimento e o seu manifesto, para denunciar a pobreza cada vez maior em que vivem os cubanos e como ela só tem aumentado, assim como a desigualdade social. O alvo das críticas? O Partido.

Propgando do governo contra MSI

Montagem feita pelo jornal Granma, apresenta “os peões do império”. Até quando se repetirá a mais velha e surrada das acusações?

 

O rap da discórdia

O acúmulo de tensões resultou no lançamento do rap “Pátria y Vida”, um claro desafio ao famoso lema proferido por Fidel Castro, “Pátria ou Morte”. Composto por Yotuel Romero, Descemer Bueno, a dupla Gente de Zona e os rappers Maykel Castillo Perez (Osorbo) e El Funky, o rap teve mais de um milhão de visualizações no YouTube em apenas 72 horas e viralizou nas redes sociais cubanas.

No refrão, eles cantam: “Não há mais mentiras, meu povo pede liberdade, não há mais doutrinas. Não gritamos mais pátria ou morte, mas pátria e vida.”

Ao que o presidente Díaz-Canel respondeu com um tuíte: “Vivo em um país livre, no qual se pode ser livre, nesta terra, neste instante e estou feliz porque sou um gigante”, citando a conhecida canção dos tempos em que a revolução cubana ainda fazia sonhar. Talvez o presidente e o Partido sintam mesmo toda essa liberdade, mas certamente a opinião não é compartilhada por um grande número de cubanos, sobretudo quando ousam criticar o regime.

De celulares em punho, jovens periféricos e invisíveis pelo mundo têm demonstrado entender perfeitamente o poder do pequeno aparelho. Na Cuba onde a arte sempre foi valorizada e estimulada, os jovens se lançam como músicos, poetas, artistas plásticos, performers, vários deles com grande sucesso e carreiras internacionais. E embora alguns sejam rapidamente integrados aos círculos oficiais da cultura, outros têm se unido para desafiar as restrições à liberdade de expressão e pensamento. É o caso dos autores e intérpretes de “Pátria y Vida”, quase todos integrantes do Movimento San Isidro (nome de um bairro de Havana Velha).   

Relatório publicado há pouco pela Freemuse, uma organização dinamarquesa que monitora a liberdade artística pelo mundo, constata que o governo cubano é um dos que mais reprime artistas e impede a liberdade de expressão. Não por acaso, Havana recebeu admoestação da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e também da Organização de Estados Americanos (OEA) por violação aos direitos dos cidadãos.

Prisões arbitrárias, atos de intimidação por agentes de segurança e censura são algumas das ações que levaram as entidades a cobrar do governo cubano o cumprimento de seus compromissos em relação a tratados internacionais dos quais o país é signatário. Mas se a própria ONU admite que Cuba seja eleita para mais um mandato de três anos no seu Conselho de Direitos Humanos, por que o regime iria se preocupar?

 

Movimento San Isidro

O grupo ganhou consistência em 2018, em resposta ao Decreto 349, destinado a controlar e impedir a sobrevivência de qualquer expressão artística independente. O decreto do regime proibiu os artistas de realizar qualquer atividade sem aprovação prévia do Ministério da Cultura, sob pretexto de controle de “linguagem sexista, vulgar e obscena” ou do uso de “símbolos nacionais” de modo distinto do previsto pela legislação. As penas variam de multas até o confisco de propriedades.

Como reação, um grupo heterogêneo de artistas, escritores, pintores, atores, curadores e simpatizantes se reuniu no Estádio José Martí para um inédito jogo de futebol intitulado “La plástica cubana se dedica al fútbol”. Ironicamente, eles diziam que só restava o futebol para quem havia sido proibido de criar. A atitude desafiadora e iconoclasta tem sido uma característica do movimento, que de forma alguma apresenta uniformidade de pensamento. Desde aquele momento, os integrantes do San Isidro têm sido sistematicamente perseguidos.

Maykel Castillo de boca costurada

Conhecido como Osorbo, Maykel costurou a própria boca para protestar contra a falta de liberdade de expressão em Cuba

É o caso de Maykel (Osorbo) Castillo Perez, negro e pobre, um dos autores de “Pátria y Vida”, que tem denunciado não só a censura, mas o racismo do Estado cubano e seus agentes de segurança, uma assunto do qual se fala muito pouco.

Osorbo já foi preso mais de uma vez. No ano passado, saindo da própria casa, onde estava reunido com integrantes do MSI, foi detido por estar sem máscara facial, em mais um exemplo de como os governos usam a pandemia para avançar sobre os direitos civis. Dias depois, todos os que se reuniram na casa dele foram presos e informados da acusação de “iniciar uma provocação”. 

As coisas pioraram em novembro, quando o rapper Denis Solís foi preso por desacato após gravar e divulgar a invasão imotivada de sua casa se desacato por um policial. Em 48 horas o músico recebeu uma condenação de oito meses pelo Tribunal Provincial de Havana. No período de 10 a 23 de novembro de 2020, 34 pessoas foram presas por terem ligações com o MSI, em clara tentativa de desarticular o movimento a partir da prisão de seus líderes.

Enquanto isso, os integrantes do MSI, outros artistas e ativistas de direitos humanos iniciaram uma greve de fome para chamar a atenção da comunidade internacional e exigir a libertação dos presos. Em 27 de novembro, o Movimento San Isidro conseguiu fazer uma manifestação em frente ao Ministério da Cultura, em Havana, com 300 pessoas, exigindo o fim do controle do governo sobre o setor cultural. O caso provocou fortes reações nacionais e internacionais, incluindo o rap da discórdia, lançado em fevereiro deste ano.

Dias atrás, em 16 de abril, centenas de intelectuais, artistas e jornalistas cubanos lançaram um manifesto pelas liberdades civis. O texto foi batizado como 27N, em alusão ao protesto de novembro do ano passado diante do Ministério da Cultura. “Desejamos uma nação onde se expressar livremente não seja um ato de coragem, e sim uma consequência natural do pensamento autônomo”, reivindicam. Pensamento autônomo é, porém, tudo que não querem os regimes de partido único. 

São as novas formas de expressão e, por extensão, a nova geração, que hoje geram maiores preocupações para o Partido Comunista Cubano. Não é a passagem de poder de Raúl para Díaz-Canel, nem mesmo a grave crise econômica que assola o país, mas sim o “combate à subversão política e ideológica” nas redes sociais e na internet.

MSI em frente ao ministerio da Cultura

Manifestação de integrantes e apoiadores do Movimento San Isidro em frente ao Ministério da Cultura, em novembro de 2020

 

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