CRISE ECONÔMICA, CRISE HUMANITÁRIA E O AVANÇO DA EXTREMA-DIREITA

 

A análise das tabelas abaixo revela que os partidos de extrema direita não obtinham apoio eleitoral significativo entre 1980 e 2011, mantendo-se na faixa dos 5% dos votos. Houve, porém, exceções importantes, como Bélgica, Dinamarca, França e Itália, aonde chegaram a até 15% da preferência dos eleitores, e a números ainda maiores na Áustria e na Suíça. Já na última década, mudanças no cenário político, econômico e social da Europa têm resultado em um rápido crescimento da direita radical e na multiplicação de grupos de inspiração abertamente fascista. Foi chocante ver a extrema-direita chegar ao segundo turno na eleição presidencial francesa, em 2017, bem como ter um primeiro-ministro na Hungria que discrimina imigrantes e judeus em nome dos interesses do povo.

I – Apoio a partidos de extrema direita em eleições parlamentares na Europa Ocidental (1980-2011)

II – Apoio a partidos de extrema direita em eleições parlamentares na Europa Oriental (1980-2011)

A análise das causas dessa mudança de humores políticos é complexa e deve levar em conta as particularidades de cada país, pois é dessas nuances que se obtém uma compreensão matizada do fenômeno. Mas existem questões comuns, históricas e geográficas, que demonstram também não se tratar de casos isolados, mas do surgimento de um novo cenário político no qual a direita radical não pode mais ser ignorada.

Entre as causas comuns, destacamos:

  • O fim da Guerra Fria e a desintegração dos regimes comunistas, no início dos anos 1990, impondo a reorganização do sistema de poder europeu;
  • a crise financeira de 2008 e as fissuras na União Europeia ameaçando a sobrevivência do bloco e da moeda única;
  • o surgimento de um novo tipo de fundamentalismo religioso, notadamente islâmico, baseado em ações terroristas;
  • a crise migratória decorrente das reviravoltas na Primavera Árabe e na guerra civil da Síria.

Anti-globalismo

A crise de 2008 foi deflagrada no mercado imobiliário dos Estados Unidos e depois se espalhou para a Europa, onde adquiriu características próprias relacionadas aos problemas da União Europeia como, por exemplo, o custo da incorporação dos antigos países comunistas, cujas condições sócio-econômicas eram muito distintas das do bloco original. A necessidade de ajustes para equilibrar as contas imposta pela detestada “burocracia de Bruxelas” – ou seja, o Parlamento Europeu – trouxe desemprego (bem alto em alguns países), cortes ainda maiores de benefícios sociais e recessão. A crise da Grécia, em 2011, deixou para as nações mais dependentes do bloco a suspeita de que, em caso de crise, eles poderão ser jogados para fora do barco europeu, o que só fez aumentar o tom dos críticos da integração.

O efeito político tem sido o aumento da rejeição à União Europeia. Para os nacionalistas radicais, se os países recuperarem plenamente sua soberania financeira os governos estarão livres de orçamentos e regras (sobretudo o controle na emissão de moedas) impostos de fora para dentro, podendo então agir verdadeiramente em benefício do povo. Sim, o populismo econômico é um traço comum à nova direita. Explorar a oposição entre a “elite estrangeira” (no caso, a burocracia da União Europeia) e os “interesses nacionais” tem forte resposta política, porque é generalizada a percepção de que a riqueza vai mal distribuída – e, eles concluem, isso deve ser fruto de alguma “conspiração”.

Um dos partidos mais importantes para a construção do novo discurso da direita, a Frente Nacional Francesa, de Jean e Marine Le Pen, elegeu desde o princípio a “Europa” como inimiga, sobretudo a “Europa” pós-reunificação da Alemanha, que seria contrária aos interesses do povo francês. Tal sentimento é traduzido pela palavra  ‘eurocéticos” (eurosceptic). Observamos  a transformação do velho discurso nacionalista e racista (mais ou menos escondido atrás do biombo, dependendo das intenções eleitorais do grupo), em um discurso anti-“Europa” – que, de fato, é um discurso anti-globalização.

 

E, como no jogo de símbolos da linguagem e da política tudo se mistura, lembremos que na Europa, desde o século XIX, os judeus são acusados de orquestrarem uma conspiração universal para dominar o mundo e destruir a civilização cristã. O discurso antissemita também está de volta. A direita ultra-nacionalista o evoca facilmente. Ver o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, perseguir o judeu e financista George Soros por conta da universidade que ele criou na sua Hungria natal, acusando-o de “interesses escusos” traz um preocupante dejá vú. No último 15/05/18, a Fundação Soros anunciou o encerramento das atividades no país por falta de segurança para seus membros e funcionários!

Islamofobia

            Quando as Torres Gêmeas caíram em Nova York, no dia 11/09/2001, o mundo foi apresentado a um novo modo de ação “política” que, antes de mais nada, partia da negação de qualquer regra básica de civilidade e guerra, atacando indistintamente a população civil e fazendo do medo do inimigo a sua força. A ação terrorista de inspiração religiosa é um fenômeno pós-moderno, que usa com inteligência as redes sociais e a linguagem visual para produzir impactos de alcance global. Mas o radicalismo religioso apocalíptico dos atentados esgota-se; não existem levas de muçulmanos seguindo esses fanáticos que pregam a destruição do Ocidente. Nesses quase vinte anos transcorridos, já passamos pela Al-Qaeda e, agora, pelo Estado Islâmico (ainda em atividade na Síria, mas já com poder bem reduzido, valendo-se exatamente dos lobos solitários que cometem atentados e declaram lealdade ao grupo).

A Guerra ao Terror, instaurada por George W. Bush com apoio do Reino Unido,  fustigou o Afeganistão e o Iraque (de onde vêm um número expressivo dos atuais imigrantes e refugiados), mas acabou fazendo de certos países da Europa, como a França, palco de ações terroristas praticadas por muçulmanos radicalizados, geralmente nascidos na Europa e, portanto, mais difíceis de controlar. A frequência com que os atentados passaram a ocorrer nos últimos anos trouxeram as conhecidas discussões sobre segurança e liberdade.

O discurso do medo favorece líderes “fortes”, de perfil autoritário, geralmente com ideias simplórias para problemas complexos. Os políticos que já possuíam um perfil racista, identificando o direito de viver na Europa à cor branca da pele, amalgamaram os imigrantes africanos, geralmente muçulmanos, que já estão na segunda ou terceira geração, aos recém-chegados afegãos, paquistaneses e refugiados sírios – todos muçulmanos -, para declarar que há uma ofensiva do Islã sobre as terras da Europa cristã. O uso da cruz no brasão dos partidos nacionalistas é recorrente.

A arte de Banksy, artista de rua inglês, exposta em seu “museu”, Dismaland, retratando a crise imigratória que aportou na Europa nos últimos anos.

Por fim, a desestabilização dos países do Oriente Médio e Norte da África em decorrência da Primavera Árabe, de 2012, teve como um de seus efeitos mais impactantes provocar um intenso fluxo de migrantes dispostos a arriscarem a vida na travessia do Mediterrâneo para tentar construir um futuro na Europa. O surgimento do Estado Islâmico no Iraque e a guerra civil na Síria deram ao movimento o caráter de crise humanitária internacional. Chegar à Europa e enfrentar o calvário para obter vistos de entrada e permanência; chegar à Europa ilegalmente e conseguir se esconder; chegar à Europa… Um milhão de pessoas chegaram à Europa no ano de 2015. Não se sabe ao certo quantas outras morreram afogadas.

Para os que entram e também para os anfitriões europeus impõe-se um convívio com alguns aspectos bastante difíceis, especialmente no que alguns podem considerar se tratar de diferença de costumes, mas que vão muito além, pois dizem respeito ao conceito de cidadão como ser portador de direitos individuais. É, especialmente, a questão das mulheres e da autonomia e liberdade que possuem. Não por acaso a questão do véu islâmico é tão explorada politicamente. E as notícias sobre casos de perturbação, assédio ou ataque direto de “imigrantes islâmicos” a mulheres foram superdimensionadas, mas não inventadas, e são intensamente explorados pela direita anti-imigração.

Não se deve naturalizar o fato de milhares de imigrantes e refugiados serem genericamente descritos como “muçulmanos”, o que permite agrupá-los (apesar de suas profundas diferenças) e imputar-lhes certas características. Os partidos da ultra direita fazem do Estado laico um traço distintivo – e superior – da cultura ocidental. Quando acusam a “invasão” islâmica, a informação que subjaz é a sharia, a lei religiosa que rege as leis civis em alguns países. Embora isso não seja verdade para a maioria dos Estados muçulmanos.

Por fim, além da cultura, o “estrangeiro” que “rouba nossos empregos” é outro argumento bem conhecido pelos nacionalistas, e não por acaso tem tido maior aceitação nas antigas regiões industrializadas que vivem hoje processos de abandono, com altos índices de desemprego e falta de perspectiva. Para o adulto desempregado, o jovem ressentido e todos os que se sentem prejudicados de alguma forma, odiar o inimigo comum continua a ser um forte elemento agregador; para os políticos, um instrumento conhecido de controle de massas.

 

SAIBA MAIS

  • Filme: Inside Job
    Direção: Charles Ferguson
    (2010) – EUA
    ♠ Baseado em pesquisas feitas com economistas, políticos e jornalistas, “Inside Job – A Verdade da Crise”, o filme constrói uma narrativa que alinhava as muitas formas de relações corruptas existentes na sociedade e como elas desencadearam a crise de 2008. Narração de Matt Damon.
  • On the boat (Duração: 1min)
    Dança e música para falar da crise migratória.

 

Parceiros

Receba informativos por e-mail