XENOFOBIA UNIFICA A DIREITA EUROPEIA (15/4/2019)

 

Demétrio Magnoli

 

A direita nacionalista europeia encontrou na xenofobia o caminho para a unidade. Sob a bandeira do combate à imigração, os nacionalistas pretendem revolucionar a Europa por dentro. 

O que hoje se chama União Europeia (UE) nasceu na capital italiana, em 1957, por meio do Tratado de Roma, que estabeleceu a Comunidade Europeia. Matteo Salvini, o co-primeiro-ministro italiano, líder da Liga, partido da direita nacionalista, não escolheu Roma, mas Milão, para anunciar o nascimento de uma “Internacional dos nacionalistas” europeus.

Ao lado de Jorg Meuthen, da Alternativa para a Alemanha (AfD), Olli Kotro, do Finns (Finlândia) e Anders Vistisen, do Partido do Povo Dinamarquês (DPP), Salvini apresentou o núcleo de uma aliança para as eleições do Parlamento Europeu, em maio. A meta comum é encetar uma revolução por dentro, mudando a natureza da UE.

Matteo Salvini, o chefe de fila da direita nacionalista europeia

O plano é congregar, ao redor do núcleo inicial, a extensa coleção de partidos da direita nacionalista que operam nos mais diversos países da UE. Dessa pretendida união surgiria um grupo político no Parlamento Europeu capaz de desafiar a hegemonia dos grupos de centro-direita e centro-esquerda que funcionam como espinha dorsal da UE.

Atualmente, os partidos nacionalistas e eurocéticos, que não constituem um grupo unificado, ocupam cadeiras periféricas no órgão legislativo do bloco. Contudo, a crise migratória de 2015 acelerou o crescimento eleitoral dessas correntes e as pesquisas indicam a possibilidade de um novo salto nas eleições europeias de maio. Se eles conseguirem se unificar, provocarão algo como um terremoto político na Europa.

Por definição, os programas nacionalistas derivam das circunstâncias nacionais. Os partidos da coleção que Salvini almeja reunir têm as mais diferentes posições sobre temas econômicos, sociais e de política externa. Entretanto, o projeto unificador assenta-se sobre duas salientes marcas comuns: a xenofobia e a islamofobia. O inimigo deles é o outro: o estrangeiro, o refugiado, o imigrante, especialmente o muçulmano. “Não estamos interessados em controvérsias locais”, alertou o líder italiano, precavendo seu movimento contra as forças centrífugas atuantes no tabuleiro do jogo nacionalista.

A aliança nacionalista é formada por correntes populistas. Atrás de Salvini, na hora do anúncio, destacava-se um estandarte com o lema “Por uma Europa do senso comum. Povos, levantem-se!”. O grupo, explicou o líder, destina-se a preservar as “fronteiras externas” da UE, para proteger a “história” e a “cultura” europeias. A associação entre os três conceitos descortina uma narrativa, que deve ser decifrada.

“História” refere-se, geralmente, a processos de permanente mudança social. Mas, na linguagem da direita nacionalista, “história” remete a um passado mítico, idealizado, frequentemente inventado, que deve se reproduzir e reiterar ao longo do tempo.

Já “cultura” indica, para a antropologia, o diálogo complexo que as sociedades travam consigo mesmas e com outras sociedades: um intercâmbio criativo de crenças e valores. Mas, na linguagem da direita nacionalista, “cultura” é uma essência imutável que deve ser conservada num frasco impermeável.

A Europa dos nacionalistas define-se por uma identidade branca e cristã. Nessa ordem de ideias, a imigração desempenharia o papel de um veneno: o agente tóxico que ameaça destruir uma civilização.

 

A revolução por dentro

A aliança pretendida não esbarra apenas nas “controvérsias locais”, muito mais relevantes do que admite Salvini, mas também nas diferentes histórias e alinhamentos das correntes nacionalistas. Algumas delas são grandes partidos que estão no poder, como a Liga, um dos dois integrantes da coligação governista italiana, o Partido do Povo da Áustria e seu alaiado mais extremista, que é o Partido da Liberdade (FPO), o Fidesz de Viktor Orban, da Hungria, e o Partido da Lei e da Justiça, da Polônia. Outras são importantes partidos de oposição, como o Finns, o DPP e a Reunião Nacional (antiga Frente Nacional), da França. Há, finalmente, partidos mais ou menos periféricos de diversos países.

O Partido do Povo da Áustria e o Fidesz, participam do grupo tradicional de centro-direita no Parlamento Europeu, embora o segundo tenha sido suspenso em razão de suas inclinações autoritárias. A transição desses partidos para o grupo de Salvini não parece provável.

Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França)

Entretanto, uma dificuldade política crucial está sendo superada. Nas suas origens, a maioria dos partidos nacionalistas definiam-se por uma visceral aversão ao projeto da unidade europeia. Quase todos almejavam destruir a moeda única europeia e, junto com ela, o próprio bloco supranacional europeu. No Reino Unido, um desses partidos, o Ukip, tornou-se o vetor de orientação ideológica da campanha vitoriosa pela saída britânica do bloco (Brexit). Hoje, porém, entre os nacionalistas, a meta de destruição da UE vai dando lugar à da mudança da natureza do bloco. Uma fortaleza europeia cristã, conservadora e xenófoba: eis o futuro que o grupo de Salvini projeta para a UE.

Desde o Tratado de Roma, o projeto da unidade europeia é uma obra conjunta do liberalismo progressista e da social-democracia. A Comunidade Europeia de 1957 emergiu como resposta política tanto à exacerbação nacionalista dos fascismos e do nazismo quanto à sombra totalitária do comunismo soviético. A direita nacionalista atual quer sequestrar esse projeto democrático, virando-o pelo avesso.

 

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