RESENHA: O PROGRESSISTA DE ONTEM E O DO AMANHÃ

 

Por Elaine Senise Barbosa

 

 

 

O progressista de ontem e o do amanhã – desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias
Mark Lilla

Companhia das Letras, 2018

 

Desde o choque com a eleição de Donald Trump, os liberais dos Estados Unidos tentam entender o que ocorreu e se esforçam para recuperar os espaços perdidos no Congresso e na Casa Branca. Mark Lilla, nosso autor, é professor da Universidade de Columbia, ensaísta da New York Review of Books e um intelectual ligado à tradição do pensamento liberal progressista abrigado no Partido Democrata. Nesse pequeno ensaio, Lilla faz a crítica das políticas identitárias que dominaram o partido nas últimas décadas.

Nos Estados Unidos o termo “liberal” se aproxima mais da social-democracia europeia, especialmente após a reconfiguração do pacto social alcançada por Franklin Roosevelt e o New Deal, na década de 1930. O que nós, aqui no Brasil, classificamos como “liberal” aproxima-se mais do pensamento conservador – e lá, nos Estados Unidos, essa corrente se organiza no Partido Republicano. Desde a década de 1980, os republicanos conseguiram deter a hegemonia do discurso político nacional apoiados no pensamento econômico ultraliberal da Era Reagan e seu “Estado-problema”. O que não estava previsto era a ressaca que o discurso reaganista provocaria ao partido e que agora atende pelo nome de Trump.

Mark Lilla não está interessado nos dramas dos republicanos. Ele analisa o problema do ponto de vista dos liberais progressistas, preocupado em sugerir outra abordagem política ao Partido Democrata, capaz de restabelecer o esgarçado pacto social norte-americano, ou o que ele chama de uma nova “dispensação” – ou seja, uma nova plataforma de ação. Isso porque o que se descobriu na eleição presidencial de 2016 é que o liberalismo progressista ficou em terceiro lugar no páreo político, tendo sido suplantado por essa corrente mais ou menos subterrânea de blogs e mídias alternativas especializadas em meias verdades e mentiras escabrosas. A razão, segundo Lilla, para esse recuo tão significativo do Partido Democrata junto ao eleitorado, a ponto de provocar a eleição de um outsider como Trump: os liberais progressistas abdicaram da disputa pelo imaginário americano.

A história dos EUA no século XX pode ser dividida em duas “dispensações” (termo de origem bíblica, que no caso identifica os dois presidentes como líderes portadores de novas “verdades” para a coletividade): com Franklin Roosevelt e o Partido Democrata e com Ronald Reagan e o Partido Republicano. Na primeira prevaleceram solidariedade, oportunidade e dever público; na segunda, autoconfiança e governo mínimo. A primeira era política; a segunda, antipolítica.

Desde Reagan, os liberais perderam-se no debate político, deixando-se seduzir pelas políticas identitárias, já bem conhecidas pela direita, e se esqueceram de desafiar o princípio fundamental do reaganismo que é o individualismo. O resultado foi que os republicanos convenceram a maior parte do público de que eles falam pelos trabalhadores assalariados, enquanto o “liberalismo” é visto como “uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas instruídas, sem contato com o resto do país, que vêem os problemas atuais sobretudo pelas lentes da identidade…que dissipam em vez de concentrar as energias do que resta da esquerda”. (p. 15)

O liberalismo identitário esqueceu a política porque vive hipnotizado por simbolismos, como conquistar uma diversidade superficial nas organizações; recontar a história destacando grupos marginais, às vezes minúsculos; inventar eufemismos; proteger os jovens do contato com pontos de vista alternativos. O liberalismo identitário virou um projeto de evangelização.

Nos anos 80, os liberais defendiam os sindicatos de modo intransigente e recorriam cada vez mais aos tribunais para contornar o processo legislativo sempre que este deixava de produzir os resultados que desejavam. Assim, perderam o hábito de consultar a temperatura da opinião pública, de buscar o consenso e de dar pequenos passos de cada vez. E o Judiciário passou a ser visto como reserva dessas elites liberais. Por isso, as indicações para a Corte Suprema se tornaram ultrapolitizadas e disputadas.

A “dispensação” Reagan usou a velha imagem do pioneiro da fronteira para trazer esse sonho antipolítico e individualista de sucesso. Até o Exército, símbolo maior da cidadania, foi transformado em mercadoria, e no lugar da experiência de camaradagem e sacrifício entrou a oportunidade de qualificação e emprego. Mas os republicanos colheriam o que semearam: uma nova direita radical, manifesta, por exemplo, pelo movimento Tea Party e pela nova postura editorial da Fox News: ultranacionalismo econômico e isolacionismo são seus mantras.

Enquanto isso acontecia, os liberais não tinham nada a oferecer à sociedade, pois estavam muito envolvidos com as políticas identitárias e seu discurso ressentido e desagregador. Os liberais se afastaram do demos, ao invés de reagirem ao individualismo econômico reaganista. Deveriam ter usado suas posições nas universidades para ensinar aos jovens que havia um destino comum com os compatriotas e obrigações recíprocas derivadas da cidadania. Mas o que ocorreu foi o mergulho na caverna da identidade, tirando dos jovens qualquer curiosidade pelo mundo que há fora de suas cabeças.

Como se explica essa mudança no discurso liberal progressista?

Até os anos 1960, a base militante do Partido Democrata era oriunda do operariado, do campesinato, do “chão da fábrica”. Com as transformações na economia, esse mundo deixou de existir e hoje os militantes e líderes saem essencialmente dos ambientes universitários e de profissões liberais (advogados, professores, jornalistas, escritores). Isso significa uma formação política – se ela existe – distante da realidade do país e do antigo eleitor democrata.

Identidade sempre foi um tema da política americana, mas com outro sentido. Na origem, os cristãos foragidos das perseguições europeias se identificaram com o novo Estado porque ele se baseava na tolerância religiosa e, portanto, no direito de cada um ter a fé que quisesse. Depois, com a imigração do século XIX, veio o nativismo e o debate em torno da hegemonia anglo-protestante. No fim, os imigrantes identificavam-se com o país exatamente por poderem preservar traços de suas culturas originais, sendo assimilados gradualmente.

A situação da população negra é um caso à parte. A escravidão criou uma marca racial usada para discriminar. Os negros americanos compartilham uma história de dor, humilhação e resistência – como podem se identificar emocionalmente com esse país? Essa foi a lição do movimento pelos Direitos Civis nos anos sessenta: a população negra exigiu que os Estados Unidos fossem fiéis aos seus princípios democráticos. Os líderes dos movimentos civis não negavam a existência de diferenças na sociedade, o que eles desejavam era torná-las politicamente irrelevantes. Eles falavam em cidadania.

O movimento negro forneceu o modelo para feministas e LGBTs, que nos anos 60/70 também lutavam por igualdade e dignidade para todos os cidadãos. Na década seguinte, porém, operou-se uma mudança: a cidadania desapareceu do mapa e as pessoas passaram a falar em identidades de grupo.

 

Do “nós” para o “eu”

Slogan liberal dos anos 80: “O pessoal é político”.

O romantismo político teve pouca expressão nos EUA no XIX, manifestando-se mais ativamente na poesia e na ação de evangelização. E ganhou força a partir do anos 1960, no mesmo lugar onde nasceu o reaganismo: os subúrbios abastados, onde a dubiedade “família de comercial de margarina” e o alcoolismo sem freios trouxe a pergunta: o que é uma vida autêntica e significativa para a geração da abundância do pós-guerra?

Para o romantismo político, a sociedade tolhe o indivíduo. Quando essa sensibilidade romântica começou a se manifestar, os velhos liberais e conservadores não entenderam nada. O que a Guerra do Vietnã ou o colonialismo tinham a ver com sexo livre e não pentear os cabelos?! Eles não compreendiam que, para aquela geração, não havia ação política legítima se ela não estivesse ligada às questões de liberdade e autenticidade do indivíduo, implicando em formas de ação também polimorfas. E mediante tão grandes ambições, o que era uma eleição legislativa local?

Durante os anos 70, os movimentos sociais operavam mais na margem do que no interior do Partido Democrata. Isso é importante, porque partidos reúnem forças centrípetas que se aglutinam para discutir, planejar e compartilhar. Na política dos movimentos as forças são centrífugas, incentivando a divisão em facções cada vez menores. Ocorreram avanços importantes no campo dos direitos individuais; sem dúvida, o país hoje é muito melhor do que há meio século. Mas essa Nova Esquerda não ajudou a unir o Partido Democrata. Pelo contrário, a Nova Esquerda transformou as universidades em um teatro pseudopolítico de guerras culturais, do chamado “politicamente correto”.

A juventude educada pela geração dos anos 60 aprendeu duas lições: que a atividade política precisava ter um significado autêntico para o indivíduo – diferente de ser só “uma peça na engrenagem”; e que os partidos e instituições eram lentos demais e só a política de movimento de fato podia transformar o mundo. Mas os movimentos dos anos sessenta diziam respeito ao desarmamento nuclear, ao combate à pobreza, ao meio ambiente – questões relacionadas ao mundo exterior e que exigiam algum tipo de conhecimento concreto sobre economia, biologia, sociologia, etc…

Mas, nos anos 70 houve uma mudança de perspectiva dos movimentos baseada na crença de que a verdadeira transformação política era aquela que o indivíduo realizava em si mesmo, muito mais do que luta para ajudar um terceiro genérico. E assim o marxismo perdeu apelo, enquanto pesquisar identidades tornou-se prioridade.

Agora o estudante aprende que deve moldar a si mesmo; que deve explorar diferentes aspectos de sua identidade e sexualidade (em uma idade na qual a sexualidade é um tema candente, é previsível que as questões de gênero tornem-se centrais) e, provavelmente, esse jovem se sentirá impelido a participar de algum movimento. É uma pessoa interessada genuinamente em política, mas só no que lhe toca diretamente, para o que pode ser intransigente. Mas não percebe e não se preocupa com temas que não lhe afetam. (p. 157)

O estudante aprendeu a desconfiar do “nós”, que lhe ensinam ser uma palavra que oculta as diferenças e mantém velhos privilégios. As mulheres, por exemplo, foram da descoberta sobre suas necessidades comuns, nos anos 60/70, para um discurso que, hoje, nega qualquer generalização uma vez que cada pessoa apresenta distintas visões de mundo em função de raça, classe, capacidades físicas, gênero, etc…

Nessas décadas, o pensamento de esquerda foi influenciado pela escola francesa, que afirma que o individuo é a interação de forças de poder invisíveis, e a escola americana, para a qual o individuo é o que ele quiser. No fim, tudo é maleável. Esses modismos acadêmicos conferem um verniz intelectual ao que não é nada mais do que individualismo radical.

Na última década, uma locução nova e muito reveladora migrou de nossas universidades para a mídia convencional: “Falando como X” (o que se chama hoje de “lugar de fala”). Não se trata de uma frase inofensiva. (…) significa que não existe espaço imparcial de diálogo. Homens brancos têm uma epistemologia, mulheres negras têm outra. Se é assim, o que resta dizer? O que substitui o argumento é o tabu.” (p. 74/75)

O marxismo tinha defeitos, mas ele obrigava a olhar para fora, para o tecido das relações sociais. A política identitária liberal voltou-se para dentro.  Entre outras coisas, não se fala de classe para explicar as mudanças ocorridas na economia. O discurso liberal contemporâneo foca na construção social passiva de indivíduos. Valoriza-se a atitude narcisista. Mas identidade não ameaça o neoliberalismo: “Identidade é reaganismo para esquerdistas” (p. 78).

A crise dos EUA hoje é a crise de seus partidos, incapazes de formularem um projeto de nação que aponte um futuro. O que Trump fez, de modo torto, foi dizer que haveria uma grande América novamente, além de dar vazão a todo um ressentimento contra o “politicamente correto”. A eleição de Trump conseguiu unir a esquerda, ok, mas foi reação, não ação. E ser anti-Trump não é fazer política.

 

De volta à política

Mark Lilla define três prioridades para os liberais progressistas:

– valorização da política institucional, mais do que a política de movimentos;

– insistir na persuasão democrática em detrimento da autoexpressão vitimista;

– dar mais peso à cidadania do que a grupos identitários.

E uma quarta lição: valorizar a educação cívica num país individualista e atomizado.

O sistema de governo dos Estados Unidos é fortemente ancorado na Constituição e em instituições que filtram lentamente as demandas sociais até que elas sejam incorporadas por meio de leis. Mas os liberais identitários não ligam para ocupar esses espaços tradicionais de poder, o que dificulta a própria viabilidade das políticas que defendem.  Não precisamos de novos militantes, precisamos de novos prefeitos. Não precisamos de datas comemorativas, precisamos eleger governadores que escolham promotores comprometidos com a defesa das minorias.

O que a Nova Direita fez em 2016 foi convencer o eleitorado de que existe uma América subterrânea cuja opinião é sempre desprezada, embora devesse ser valorizada porque ela é “real”. E dizem também que os liberais não gostam de se misturar com quem pensa diferente, pois se acreditam superiores aos demais, preferindo apelar aos tribunais e desqualificar quem deles discorda (o que de fato os livra de terem de se preocupar com o que o povo pensa e como chegar a um consenso). Foi com esse discurso que os republicanos convenceram os eleitores que os liberais são arrogantes e distantes das pessoas comuns.

De fato, a militância liberal hoje está mais para pregação religiosa do que para prática política: todo mundo quer dar sermão e denunciar almas desviantes. Os liberais precisam escutar de fato o que as pessoas estão dizendo, ao invés de achar que tudo aquilo não passa de um discurso da “mídia de direita”. “A politica democrática é persuasão, não autoexpressão”. (p. 94)

A contradição do discurso liberal identitário é afirmar a especificidade de um grupo e denunciar todos os demais como “diferentes”, mas depois vir pedir apoio e ajuda exatamente para esses definidos como “diferentes”. Ora, porquê esses ajudariam aqueles se são tratados como antagonistas? Discutir problemas em termos puramente identitários leva o adversário a fazer o mesmo, e foi esse tipo de “espelho” que Trump explorou durante a campanha eleitoral.

Havia um motivo para que os líderes do movimento de direitos civis não falassem em identidade da maneira como os ativistas negros hoje falam, e esse motivo nada tem a ver com covardia ou não conseguir estar alerta. O movimento forçou o país a agir movido pela vergonha, apelando conscientemente ao que temos em comum, e com isso tornando mais difícil para os americanos brancos manterem dois conjuntos de livros de contabilidade, psicologicamente falando: um para “americanos” e outro para “negros”.” (p. 104)  

Democracias estão sujeitas a entropia se não houver uma cidadania ativa, e ela não nasce com as pessoas, precisa ser inculcada. Nos EUA, as últimas quatro décadas viram tanto a direita quanto a esquerda celebrarem ideologias que desfazem cidadãos. A direita exalta o hiperindividualismo e nega a existência de um bem comum ou a obrigação de ajudar os concidadãos. A esquerda só se interessa pelo eu autocentrado e suspeita de um nós democrático universal.

A eleição de Trump expôs o perigo a que a sociedade está sujeita, de derivar para um regime autoritário. O que ficou claro durante a campanha é que o eleitorado de Trump desconhece o funcionamento das instituições e regras, mas é fascinado por teorias conspiratórias. Educação cívica é importante para a democracia. Imigrantes fazem prova para obterem cidadania, precisam explicar como as instituições funcionam e a história dos Estados Unidos. Se os nascidos no país não precisam de nada disso, como irão desenvolver sentimentos de solidariedade e fraternidade para além dos círculos pessoais cada vez mais restritos?

Curiosidade sobre o que se passa no mundo fora da nossa cabeça e sobre pessoas diferentes de nós. Preocupação com os Estado Unidos e seus cidadãos, todos eles, e disposição para nos sacrificarmos por eles. E ambição de imaginar um bem comum para todos. Qualquer pai ou educador que ensine essas coisas estará engajado numa missão política – a missão de formar cidadãos. Só quando houver cidadãos poderemos ter esperança de que sejam liberais. E só quando houver liberais poderemos ter esperança de colocar o país num caminho melhor. Se quisermos resistir a Donald Trump e a tudo que ele representa, é aí que devemos começar.” (p. 113).

 

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