A SEGUNDA GERAÇÃO DO FEMINISMO

 

Elaine Senise Barbosa 

(Historiadora; autora de obras didáticas e paradidáticas; editora-executiva deste site)

 

 

A luta das mulheres para conquistar a igualdade civil ganhou força no século XIX, como consequência lógica das premissas iluministas. Ela se tornou uma causa política na virada para o século XX e o voto foi o seu alvo. Após a Primeira Guerra Mundial, conquistou-se a igualdade civil e a “primeira geração” do feminismo refluiu. Nos anos 1960, uma segunda geração do feminismo retomou e aprofundou a lutas pelos direitos civis das mulheres.

Nos difíceis anos do entre-guerras, entre a reação conservadora e fascista e a depressão econômica, as mulheres foram chamadas de volta ao lar. Lembremos do kinder, küche, kirche (“criança, cozinha, igreja”) utilizado pelos nazistas para doutrinar as alemãs.  Nos Estados Unidos, em 1920, as companhias de propaganda criaram o Dia das Mães: dia da mulher que só existe em função do outro; dia da oferta de eletrodomésticos para a “rainha do lar”, servidora da família. Era uma resposta ao Dia Internacional da Mulher criado no começo do século para marcar a luta desses sujeitos históricos que começavam a ganhar voz própria. Na União Soviética, o Partido Comunista decretou que as mulheres haviam conquistado a igualdade – de fato, como proletárias – e vetou debates nessa direção, denunciando preocupações “pequeno-burguesas”.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a condição da mulher na Europa e nos Estados Unidos seguiu rumos distintos. Do lado devastado do Atlântico Norte, as mulheres participaram ativamente da reconstrução de seus países, com serviços braçais, universitários e políticos. Não havia outra saída depois do cataclismo demográfico da guerra. Já do lado opulento do oceano, onde a guerra tivera o condão de reativar a economia, uma avalanche de inovações revolucionava o setor de bens de consumo. A exaltação dos papéis tradicionais da mulher refletia as necessidades econômicas e profundas tendências sociais. Significativamente, os dois livros que marcaram o surgimento da segunda onda do feminismo foram escritos na França e nos Estados Unidos.

 

“NINGUÉM NASCE MULHER”

As feministas da segunda geração começaram por observar que, ainda nos anos sessenta, os homens eram os principais responsáveis pela produção de escritos sobre as mulheres. É o que hoje se chama “lugar de fala”. Nessa lógica, a conseqüência seria uma literatura incapaz de compreender todos os problemas femininos, além do desejo oculto de melhor subordiná-la à ordem patriarcal. Além de teólogos e políticos, destacavam-se nas décadas de 1960 e 1970 os psicólogos – tratados então como celebridades – que explicariam “pelo inconsciente” todos os nossos problemas. As novas feministas pretendiam mudar o cenário derrubando a ponte e os seus pilares.

O segundo sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, de 1949, e A mística feminina, da jornalista americana Betty Friedan, de 1963, tornaram-se marcos da nova fase do feminismo. Eram livros sobre mulheres, escritos por mulheres, mas não eram apenas impressões das autoras: literatura, relatos, pesquisas de opinião, conteúdo de revistas e jornais – foi a partir de um vasto material que as duas analisaram a condição feminina.

Simone de Beauvoir

O estudo de Simone de Beauvoir tem dois volumes. No primeiro, o foco está na construção do mito do eterno feminino, com longas descrições de situações biológicas, psicológicas e sociais que transformam as mulheres em seres castrados. A primeira frase do segundo volume tornou-se um dístico do feminismo: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A afirmação surpreendente tem dois significados. O primeiro é analítico: o “eterno feminino” representa um molde essencialista, que serve para anular a individualidade das mulheres e mantê-las “passivas”, “alienadas”, “narcisistas”. O segundo é político: uma proposta existencialista, que chamava a mulher a assumir a condução de sua vida, aceitando todas as implicações da liberdade.

Vivendo intensamente o meio intelectual parisiense, Beauvoir estava imersa em um ambiente no qual o marxismo constituía o ponto de partida dos debates. Sob esse enfoque, ela identificava no desenvolvimento tecnológico uma fonte de progresso para as mulheres, em virtude da ruptura da diferença física que historicamente justificou o poder masculino. No entanto, ela constatava, ainda, o impasse vigente nos países comunistas, onde as mulheres ingressaram no mundo do trabalho mas continuaram presas às mesmas tarefas domésticas e maternas de sempre. A conclusão: o marxismo, com seu viés econômico, não tinha solução filosófica adequada para as questões do ser feminino.

Existencialista, Beauvoir rejeitou as análises marxistas e liberais que colocavam a mulher na condição de vítima de opressões econômicas, políticas ou sociais. A mulher, insistiu, era cúmplice da sua condição por aceitá-la, mesmo que justificasse de inúmeras formas a própria passividade. Em consonância com a ideia da universalidade dos direitos humanos, que ganhava força na filosofia do Direito, a intelectual francesa propunha uma nova ordem social na qual mulheres e homens fossem considerados de fato indivíduos com iguais capacidades:

“A relação imediata, natural, necessária do homem com o homem é a relação do homem com a mulher”, disse Marx. “Do caráter dessa relação decorre até que ponto o homem se comprometeu como ser genérico, como homem; a relação do homem com a mulher é a relação mais natural do ser humano com o ser humano. Nela se mostra, portanto, até que ponto o comportamento natural do homem se tornou humano ou até que ponto o ser humano se tornou seu ser natural, até que ponto sua natureza humana se tornou sua natureza.” Não há como dizer melhor. É dentro de um mundo dado que cabe ao homem fazer triunfar o reino da liberdade; para alcançar essa suprema vitória é, entre outras coisas, necessário que, para além de suas diferenciações naturais, homens e mulheres afirmem sem equívoco sua fraternidade.[1]

 

E A PROPAGANDA INVENTOU A “CONSUMIDORA”

Enquanto a população europeia se recompunha lentamente após a Segunda Guerra, a dos Estados Unidos crescia depressa, com alto índice de jovens casais e natalidade explodindo. As novas características demográficas e jornalísticas chamaram a atenção da jornalista Betty Friedan, que notou a mudança de notícias ligadas à educação para uma supervalorização da figura da mãe e da dona de casa, e como a participação das mulheres no mercado de trabalho e nas universidades recuava. Friedan também notou que as referências às feministas haviam se tornado jocosas, enquanto expressões de descontentamento das mulheres, filtrados pelo discurso psicanalítico hegemônico, transformavam-se em disfunções sexuais: frigidez, sadomasoquismo, ninfomania. A pergunta era se o sexo era realmente o centro do problema?

Parte significativa de A mística feminina é dedicada às teorias comportamentais e seus usos na construção de uma imagem feminina definida pela utilidade: a felicidade está na família e no lar. Analisando as revistas femininas, Friedan detectou uma nítida mudança editorial nos anos quarenta. Até então, as heroínas dos contos eram expressões da Nova Mulher, emancipada, profissional, segura e amada; depois, deram lugar às eficientes e modernas donas de casa, ignorantes dos assuntos de política internacional (que desapareceram das pautas dessas revistas), mas especialistas em remover manchas nos tecidos e preocupadas com a hipótese de criar “traumas” nos filhos.

A explicação para a radical mudança de paradigma estaria nos estudos destinados a comprovar tanto as diferenças “naturais” entre os sexos quanto os males provocados pela tentativa de negar tais diferenças. Assim reforçava-se o que a autora chamou de “mística feminina”, um conceito paralelo ao “eterno feminino” de Beauvoir:

Contudo, por mais essencial e diferente que seja, de modo algum é inferior à natureza do homem; em certos aspectos pode até ser superior. O erro, diz a mística, a raiz do problema feminino no passado, é que as mulheres invejavam os homens, tentavam ser como eles, em lugar de aceitar sua própria natureza, que só pode encontrar realização na passividade sexual, no domínio do macho, na criação dos filhos, e no amor materno.[2]

A psicologia ajudara a libertar as mulheres de certos pudores herdados da era vitoriana – mas, então, tudo se converteu em “inveja do pênis” ou tinha uma conotação sexual qualquer. “O pensamento freudiano tornou-se o baluarte ideológico da contra-revolução sexual na América”, disparou, causando um pequeno escândalo.[3]

A “mãe”, responsável pela família, a célula-mater da sociedade, coagulava o problema:

(…) recebendo especial atenção, figurava a “mãe”. Descobriu-se de repente que ela podia ser culpada de quase tudo. Em casos de perturbações infantis, ou de adultos alcoólatras, suicidas, esquizofrênicos, psicopatas, neuróticos, impotentes, homossexuais; de mulheres frígidas e promíscuas, vítimas de úlceras e de asma, ou de qualquer outra moléstia, a mãe era a culpada. Frustrada, recalcada, perturbada, martirizada, insatisfeita, infeliz mulher. Esposa exigente, irritante, colérica. Mãe dominadora, superprotetora, ou desnaturada. (…) Era claro que havia algo de errado nesta controvertida figura.[4]

O alvo do mercado seriam as mulheres inseguras – as adolescentes que se tornavam relapsas nos estudos por saber que eles não as levariam a nenhum lugar, exceto talvez para longe do casamento sonhado; as jovens de vinte e poucos anos com dois ou mais filhos bombardeadas por novas “descobertas científicas” na área de saúde e educação. Ao visitar o dono de uma empresa de consultoria que trabalhava com orientação motivacional, Friedan vislumbrou a chave do problema:

Em termos muito francos, este simpático persuasor oculto mostrou-me as vantagens de manter a americana como doméstica: o reservatório criado pela falta de personalidade e de objetivos é transformado em dólares nos pontos de venda de todo o país. Corretamente manobradas (“se é que não teme a palavra”, disse ele), as donas de casa são capazes de obter senso de identidade, objetivos, criatividade, auto-realização e até satisfação sexual por meio da aquisição de objetos. Compreendi de repente o significado da frase: as mulheres controlam 75% do poder aquisitivo na América. E vi a americana como vítima de um terrível dom, o poder aquisitivo.[5]

O futuro estava no passado, concluiu Friedan. Um novo movimento deveria romper com a mística feminina, retomando as lutas das primeiras feministas pelo direito de se desenvolver plenamente como indivíduo, sem submissão a papéis pré-definidos.

 

DE VOLTA À ARENA POLÍTICA

No pleito presidencial de 1960, nos Estados Unidos, para ganhar o apoio de Eleanor Roosevelt, o candidato John Kennedy prometeu criar uma comissão para analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho. Era uma forma de contrabalançar o trunfo dos republicanos, que haviam incluído a Emenda dos Direitos Iguais em seu programa, em 1944.

Eleito, Kennedy criou a Comissão Presidencial sobre a Condição das Mulheres, inicialmente presidida pela senhora Roosevelt. O relatório, apresentado em 1963, comprovava a discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho, relacionando-a às leis de proteção oriundas do século XIX. Em resposta, criaram-se  grupos para estudar as condições das mulheres na esfera pública. Um dos primeiros efeitos desse novo olhar resultou na lei de 1963 que impôs o pagamento de salários iguais para trabalhos iguais.

Betty Friedan é a primeira da fila

Em junho de 1966, em Washington, um grupo de mulheres, entre as quais Betty Friedan, decidiram criar uma organização para falar em nome das mulheres, “como o movimento negro tinha a NAACP”. Nascia a Organização Nacional para as Mulheres (NOW). Foi nessa época que Friedan falou no ressurgimento do movimento feminista, posteriormente identificada à “segunda onda” da história do feminismo e que se espalhou para o mundo todo. Em 1969, o NOW organizou a primeira campanha pela derrubada das leis anti-aborto convocando uma Semana pela Liberdade das Mulheres sob o slogan Rights, not roses¸a ser iniciada em pleno Dia das Mães.

 

HOJE, A “TERCEIRA GERAÇÃO”

Nos Estados Unidos, no início dos anos 1990, após um período de acomodação, novas críticas e impasses surgidos no interior dos movimentos feministas e lésbicos, e também das mulheres negras que apontavam para o caráter “branco e classe média” dos discursos vigentes, houve uma reorganização das feministas e suas pautas. Já a globalização econômica e o multiculturalismo político, na virada do milênio, trouxeram para o debate as questões da diversidade de etnias, valores e culturas, rompendo o monopólio da visão de mundo do “homem branco ocidental”. O feminismo dito de “terceira geração” é a expressão desses novos olhares que o movimento incorporou, ao mesmo tempo em que ajudou a criar tais discussões, transformando-se em uma poderosa força política nesse início de século XXI. Por outro lado, o novo feminismo também já foi assimilado pela indústria cultural e transformado em hit da moda: ser feminista hoje é um ótimo negócio.

 

Milhares de mulheres participaram dos protestos contra Donald Trump, em 21 de janeiro de 2017

 

Este texto é uma versão resumida e parcialmente modificada do capítulo “As mulheres e o feminismo”, publicado originalmente no livro O Leviatã desafiado [1946-2001] (Liberdade versus Igualdade v.2), Rio de Janeiro; Record; 2013. 

 

[1] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. São Paulo, Difel, 1967, vol. 2, p. 500.

[2] FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Petrópolis, Vozes, 1971, p. 40.

[3] FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Op. cit., p. 92.

[4] FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Op. cit., p.165.

[5] FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Op. cit., p. 182.

 

 

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