IRÃ: TEOCRACIA MASSACRA O POVO (19/1/2026)

 

Elaine Senise Barbosa

 

A mais recente onda de protestos no Irã ganhou força a partir do final de dezembro de 2025 motivada pela alta acelerada do custo de vida e atingiu suas 31 províncias, alcançando grandes cidades e vilarejos. O regime teocrático comandado pelos aiatolás desencadeou feroz repressão e grupos de direitos humanos estimam em dezenas de milhares o número de mortos e em centenas de milhares de presos, embora os números sejam imprecisos devido à ausência de imprensa livre no país e ao total controle da informação pelo governo, incluindo o desligamento da internet e da eletricidade desde 8 de janeiro.

Mas alguma informação chegou via antenas parabólicas clandestinas (que os agentes da repressão estão agora caçando pelas casas).  Imagens mostrando multidões nas ruas usando seus celulares como fonte de iluminação, alguns prédios públicos incendiados e centenas de sacos pretos contendo os corpos das vítimas enfileirados do lado de fora dos hospitais, enquanto familiares tentavam reconhecer os seus antes que agentes governamentais desapareçam com as provas do massacre. Há relatos de centenas de pessoas sendo enterradas em valas comuns. 

2026-01-13-Irã protestos (foto: ONU)

Protesto em Teerã, 13 de janeiro

 

O governo iraniano acusa os manifestantes de serem “terroristas” e “agentes estrangeiros” que buscam desestabilizar o país. Essas palavras mágicas têm servido de justificativa para governos autoritários ultrapassarem limites legais e usarem todos os recursos para combaterem esses “inimigos da nação”. O presidente Masoud Pezeshkian acusou Estados Unidos e Israel – o “grande Satã” e o “pequeno Satã” – de estarem por trás dessas ações, o que não é de todo incorreto, mas está longe de explicar o que vem acontecendo, sobretudo quando se sabe que os protestos ganharam força a partir dos comerciantes do Grande Bazar, apoiadores tradicionais do regime xiita.  

É previsível que a insatisfação popular seja explorada politicamente por Washington e Tel Aviv. Mas esse fato não desmerece a luta do povo iraniano pelo fim da autocracia que comanda o país com mão de ferro, censura a liberdade de expressão e assassina mulheres por usarem o lenço islâmico (hijab) incorretamente ou as condena a sucessivas penas de prisão pelo simples fato de contestarem que o Islã se baseia na opressão feminina, como aconteceu com Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz em 2023.

Condenar o regime iraniano não significa apoiar EUA ou Israel e tem sido lamentável a percepção de que a indignação pública internacional, especialmente entre os setores ditos “progressistas” não se baseia mais em valores como “direitos humanos universais”, mas sim nas conveniências que isso trará ou não para o espectro político de estimação.

 

O desgaste da República Islâmica

Bandeira da República Islâmica do Irã, instituída em 1979

Criada em 1979 a partir da “revolução xiita” liderada pelo aiatolá Khomeini, a República Islâmica do Irã elegeu desde o início os Estados Unidos como o grande inimigo e Israel, seu principal aliado na região, como um Estado a ser destruído. O movimento, bastante popular na origem, reafirmava não só a especificidade do mundo persa em relação aos árabes, mas também a oposição histórica entre os ramos sunita e xiita do Islã.

Diretamente confrontado, os EUA impuseram uma série de sanções econômicas ao país, que foram sendo ampliadas com o passar dos anos. O desenvolvimento de armas nucleares especialmente destinadas a um confronto com Israel deram grande poder ao governo de Teerã e atraíram aliados como Rússia e China, mas provocaram ainda mais sanções externas, especialmente quando o regime negou visitas de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em 2023. 

Para a população iraniana as sanções trouxeram escassez e desemprego, ao mesmo tempo em que seus líderes se vangloriavam por financiarem grupos armados no exterior como o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e o Hamas na Palestina. O nacionalismo, que inicialmente se fortaleceu com essa política de “eixo da resistência ao Ocidente”, tornou-se insuficiente para justificar a destinação de vultosos recursos a grupos externos enquanto a massa da população sofria com a falta de liberdade e de bens.

Em 2009, pela primeira vez houve maciça mobilização popular provocada pelo resultado das eleições presidenciais, contestada por muitos. Os protestos foram duramente reprimidos. Depois, em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini provocada pela Polícia de Costumes desencadeou nova onda de protestos sob o lema “Mulher, Vida, Liberdade”, que também expressavam a insatisfação com o elevado desemprego e alto do custo de vida. Novamente a população foi submetida à repressão impiedosa, com milhares de presos e centenas de condenados à morte. Mas o descontentamento não desapareceu, apenas refluiu para a clandestinidade.     

Manifestantes iranianos em Estocolmo, 2025

Há um imenso contingente de iranianos vivendo no exterior desde 1979 e eles são uma voz ativa na oposição política ao regime. Acima, apoiadores do MEK, o movimento que defende a restauração da monarquia no país, reunidos em Estocolmo para homenagear o levante de 2022.

 

O que mudou nos últimos três anos?

Fatores externos e internos fizeram crescer a insatisfação com o regime dos aiatolás. 

Internamente, o Irã, que já é um país árido, enfrenta há seis anos a mais grave crise hídrica dos últimos sessenta anos, com impacto direto sobre a produção de alimentos e a inflação.

Vista aérea de Teerã

A paisagem normalmente árida do Irã tem visto se agravarem as condições ambientais no país devido à crise hídrica. Na imagem, a capital, Teerã.

 

Externamente, a guerra de Israel contra o Hamas não só enfraqueceu tremendamente esse aliado, como motivou ataques ao sul do Líbano que destruíram a capacidade operacional do Hezbollah. Israel também realizou assassinatos seletivos contra altos perfis militares ligados ao Irã expondo a infiltração de agentes israelenses nos aparatos de segurança do país. Por fim, nesse mesmo contexto, o que tem sido chamado de “guerra de 12 dias” contra Israel, ocorrida em junho de 2025, resultou em grandes avarias às suas instalações nucleares, acabando com o trunfo mais importante da República Islâmica. Depois disso, os EUA de Donald Trump aumentaram ainda mais as sanções contra o país.

O rial, a moeda iraniana, sofreu uma desvalorização de 40% e a inflação subiu para a casa dos 70%. Foi esse o estopim que levou os comerciantes do Grande Bazar de Teerã às ruas no final de dezembro. A tentativa do presidente Pezeshkian de acalmar a situação oferecendo subsídios para os mais pobres e medidas anticorrupção não só não acalmaram os ânimos como fizeram os manifestantes começarem a falar em derrubada do regime. As manifestações de rua escalaram na primeira semana de janeiro. 

 

Duas semanas de fúria

Entre os manifestantes, majoritariamente nascidos depois de 1979 (47% da população), assim como temos observado em outros países, é a falta de perspectiva de futuro que assombra e empurra para as ruas. Muitos tiveram que abandonar os estudos para buscar sustento para suas famílias. São eles que têm sido massacrados pela repressão, com tiros na nuca, entre os olhos, nas costas, tão generalizados que permitem apontar para um padrão de execuções e, portanto, para acusações de crimes contra a humanidade cometidos pela autocracia dos aiatolás.

14-Jan-2026-mortos no Irã - Anistia Internacional

Familiares e amigos procuram notícias em frente aos hospitais para onde de mortos e feridos foram encaminhados

 

Dia 11, o governo, acuado, entendeu que lutava pela sua sobrevivência. Além dos mortos com sinais de execução chegando a hospitais, milhares foram presos e condenados à morte, como o jovem Erfan Soltani, de 26 anos, detido em 8 de janeiro. Além da notícia de que ele seria executado, sua família não recebeu nenhuma informação sobre qual era a acusação ou como transcorreu o “julgamento”.

No dia seguinte (12), o irresponsável Donald Trump conclamou o povo a continuar nas ruas prometendo enviar ajuda sem que houvesse qualquer plano de intervenção ou mesmo o deslocamento de forças navais para o estratégico Estreito de Ormuz. Além disso, prometeu elevar em 25% as tarifas sobre países que mantiverem relações comerciais com o país persa.

Nos bastidores diplomáticos, Teerã avisou os aliados dos EUA na região, que contam com bases militares americanas em seus territórios, que haveria ataques em retaliação. Na prática, agiram para impedir uma operação militar contra o regime. Deu certo. Na quarta-feira (14), data em que Erfan Soltani seria executado, Teerã anunciou que as penas seriam de prisão. Trump, por sua vez, mudou de tom e afirmou que o governo iraniano estaria melhorando seu “comportamento”, logo, nada de operação militar…

 

A teocracia xiita vai cair?

Aiatolá Ali Khamenei (2025)

Aiatolá Ali Khamenei, o Líder Supremo do Irã é um conservador intransigente e disposto a massacrar seu povo para preservar o poder dos xiitas radicais

Com o corte de energia e repressão sanguinária, o movimento popular refluiu desde a semana passada, devidamente consciente de que enfrenta forças que não se preocupam em mergulhar o país em sangue para sobreviver. Ao mesmo tempo, a mídia estatal mostrou manifestações de apoio ao governo em várias cidades, convocadas por mensagens de texto que sutilmente alertavam que a não participação seria entendida como oposição.

Enquanto isso, Moscou e Pequim observam a ameaça direta a seus interesses, uma vez que o Irã lhes fornece drones militares e petróleo barato. O Irã detém a segunda maior reserva de gás natural e a quarta maior reserva de petróleo do mundo. A China é hoje o principal parceiro comercial do país e a ameaça de novas taxas feita por Trump aumentará ainda mais a tensão em Pequim. 

A professora de Relações Internacionais, Fernanda Magnotta, afirma que um Irã alinhado ao Ocidente — ou, no mínimo, não-hostil — reconfiguraria completamente o mercado global de energia, reduzindo a dependência europeia e asiática de fontes russa, estabilizando preços. Afinal, o Irã controla o Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo global e a interrupção desse fluxo seria devastadora para o mercado mundial.

mapa-estreito-de-ormuz

Fonte: National Geographic

Analistas alertam, porém, que não é possível prever uma queda imediata do regime teocrático, uma vez que ao longo dos anos foi criado um aparato repressivo sólido, representado especialmente pela Guarda Revolucionária e por milícias populares baseadas em redes de clientelismo, além de uma forte narrativa de resistência nacional capaz de mobilizar mesmo os setores não-religiosos da população.

Regimes como o do Irã não desmoronam porque perdem popularidade ou porque a economia entra em colapso. Eles caem quando os homens armados se recusam a continuar atirando em nome de um governo ou de um ideal. Essa recusa ainda não se materializou e enquanto não vier, a repressão prosseguirá e a horrível ditadura dos aiatolás, também.

 

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