Maria Corina Machado foi representada por sua filha, Ana Corina Sosa, na premiação do Nobel da Paz 2025
Maria Corina Machado, a principal rival política de Nicolas Maduro, que passou o último ano vivendo clandestinamente na Venezuela após ser impedida de disputar a eleição presidencial de julho de 2024, conseguiu sair do país na semana passada para participar – mesmo chegando atrasada – da entrega do Prêmio Nobel da Paz-2025, para o qual ela foi escolhida. As notícias dão conta de que, para sair da Venezuela, Corina Machado contou com o apoio dos EUA, nesse momento focado em derrubar o regime chavista.
Na América Latina, nas correntes políticas de esquerda e em suas áreas de influência, faz tempo que Corina Machado foi rotulada como representante da “direita” ou “extrema-direita” por liderar um partido político que se opõe ao “socialismo bolivariano” e defende outras políticas para o país, incluindo abertura ao capital estrangeiro e aproximação com os Estados Unidos. Como essas propostas fazem parte do decálogo dos pecados que a esquerda não pode cometer, mesmo tendo sido impedida de concorrer à disputa presidencial e aceitado ser substituída pelo desconhecido Edmundo González Urrutia; mesmo depois do anúncio da reeleição de Maduro, cujo resultado continua a ser questionado por observadores internacionais; mesmo sem nunca ter chamado qualquer tipo de ação violenta contra o governo, Maria Corina é tratada como “fascista” pelos ditos “progressistas” e a comissão do Nobel foi duramente criticada por sua escolha.
A atribuição do Nobel da Paz à líder da oposição venezuelana, contudo, visa a aumentar a pressão internacional sobre a ditadura de Nicolás Maduro, já condenada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU em mais de uma oportunidade. Porque enquanto se discute se Maria Corina merece ou não o Prêmio Nobel, milhares de pessoas foram presas na Venezuela por cobrarem as atas eleitorais que deram vitória a Maduro, nunca apresentadas pela Comissão Eleitoral Nacional, ou por tentarem defender os que já foram presos.
“Maduro se converteu numa catástrofe para os direitos humanos”, declara a organização Programa Venezuelano de Educação Ação em Direitos Humanos.
A ONG venezuelana Foro Penal, que trabalha com assistência jurídica gratuita, documentou mais de 1.900 “presos políticos” detidos nos dias seguintes à eleição em 28 de julho de 2024, incluindo 42 adolescentes, entre 14 e 17 anos. No final de 2025, pelo menos 887 deles seguem encarcerados, muitos no temível Helicoide, o edifício que abriga a polícia política do regime, o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). Nesses quase 18 meses, pelo menos seis desses presos políticos morreram sob custódia do Estado. Lembrando que no Estado de Direito, a vida e a saúde de uma pessoa detida são responsabilidade de quem exerce a custódia.
Alfredo Díaz foi mais um preso político morto sob custódia do Estado. Quem será responsabilizado?
Dessa vez, a vítima foi Alfredo Díaz, ex-governador do estado de Nova Esparta, preso em novembro de 2024 após acusar o regime de fraude eleitoral. Processado, foi condenado por “terrorismo” e “incitação ao ódio” – termos bastante arbitrários aplicados à grande maioria dos presos.
Díaz estava preso no Helicóide e morreu em 6 de dezembro, quatro dias antes da premiação do Nobel, na Noruega. De acordo com as autoridades penitenciárias foi infarto. Pode ter sido, mas os problemas de saúde do preso eram conhecidos e sua família vinha denunciando a falta de atenção médica. Negar assistência médica tem sido um dos instrumentos do governo para atormentar os presos e seus familiares e manter o clima de medo junto à população.
Em nota coassinada por Edmundo Urrutia, o candidato oficialmente derrotado, Maria Corina Machado declarou que a morte de Díaz “se soma a uma alarmante e dolorosa cadeia de falecimentos de presos políticos detidos no contexto da repressão pós-eleições”. “As circunstâncias dessas mortes – que incluem a negação de atendimento médico, condições desumanas, isolamento e torturas, tratamento cruel, desumano e degradante – revela um padrão consistente de repressão estatal” [e violação dos direitos humanos].
A reeleição de Nicolas Maduro foi marcada pela falta de transparência e provocou uma onda de protestos, com o Ministério Público da Venezuela acusando Edmundo González Urrutia e Maria Corina Machado de organizarem as manifestações para derrubar o governo. Para o Procurador Geral da República, Tarek William Saab, a líder da oposição deveria responder criminalmente por aquelas mortes. Desde as eleições, as autoridades cancelaram passaportes de defensores de direitos humanos, críticos, lideranças políticas e jornalistas independentes, impedindo-os de deixar o país.
Em 2 de setembro, mediante um pedido de prisão contra si por “conspiração” e “incitação à desobediência”, Edmundo Urrutia decidiu se auto-exilar na Espanha. Já Corina Machado decidiu permanecer, mas se esconder para não ser “desaparecida” ou acabar presa durante a madrugada por homens encapuzados.
Os protestos continuaram nos meses seguintes à eleição, com saldo estimado de 28 mortes e 2,4 mil prisões. A Human Rights Watch checou o assassinato de 23 manifestantes e transeuntes e encontrou evidências de que várias dessas mortes se deram na forma de execuções sumárias cometidas pelas já conhecidas forças de segurança chavistas, incluindo os chamados “colectivos”.
Os colectivos são milícias que fundem repressão política e criminalidade
O Judiciário deixou de funcionar como um poder independente desde 2004, quando da reforma judicial aprovada por Hugo Chávez que preencheu o Tribunal Superior de Justiça com seus aliados. O Alto Comissariado da ONU relatou atrasos persistentes nas investigações das mortes ocorridas durante protestos e operações de forças de segurança, e disse que as investigações “não abordaram a cadeia de responsabilidades”.
Em outubro de 2024, documento produzido pela Missão Independente (missão internacional da ONU) concluiu que as pessoas detidas são ameaçadas, inclusive com tortura e violência sexual, para que se incriminem por atos que constituem crimes graves como o terrorismo, e confirma a presença de crianças e adolescentes, além de pessoas com deficiência entre os presos. A falta de provas e a ausência de advogados colocam as vítimas numa posição particularmente vulnerável, uma vez que a autoincriminação pode levar a penas de prisão desproporcionalmente elevadas.
Na lista de presos estava o agora falecido Alfredo Díaz, mas também Jesús Alexander Armas Monasterios, ex-vereador por Caracas e defensor dos direitos humanos. Monasterios foi detido por agentes das forças de segurança em dezembro de 2024, acusado de envolvimento na contratação de pessoas para provocar distúrbios. Não há, até o momento, informações oficiais sobre seu estado de saúde ou as condições de detenção. O mesmo aconteceu com Luis Palocz, a principal figura do partido Vente Venezuela, de Corina Machado, no município de Chacao. A informação é que Palocz desapareceu após ser abordado por indivíduos encapuzados enquanto caminhava por uma avenida em Caracas. Desde então, não se tem mais notícias do opositor.
Juan Pablo Guanipa, político de expressão nacional, preso pela ditadura por “terrorismo”
Em maio de 2025, foi a vez de Juan Pablo Guanipa ser preso, por suposta vinculação a uma “rede terrorista” que atentaria contra as eleições legislativas e de governadores marcadas para o mesmo mês. Guanipa, a quem Corina Machado chama de “irmão”, foi eleito em 2015 para o Parlamento como membro da oposição e foi vice-presidente da Câmara em 2020, quando a casa era presidida por Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino da Venezuela por países como Estados Unidos e Colômbia. Mediante cobranças, em julho, Caracas declarou o chefe do Comitê de Direitos Humanos da ONU como persona non grata.
No discurso da premiação do Nobel da Paz, lido pela filha de Maria Corina Machado, que a representava, a principal líder da oposição venezuelana acusou o regime de Nicolás Maduro de realizar “terrorismo de Estado” e praticar “corrupção obscena”, sustentados por uma “ditadura brutal”.
Enquanto isso, mais de 20 milhões de venezuelanos, para uma população de aproximadamente 28,8 milhões, sofrem de múltiplas carências como falta de acesso a alimentos, medicamentos e serviços públicos. A fome castiga 5,1 milhões de pessoas e a emigração se tornou a opção de mais de 8 milhões de venezuelanos desde 2014, muitas vezes por rotas perigosas como o estreito de Dárien ou sofrendo xenofobia nos países vizinhos.
Se as ameaças de Donald Trump contra a Venezuela se concretizarem, ninguém se surpreenda quando a população sair em massa às ruas para comemorar.
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