DO E-MAIL AO NADA

 

“Modelos matemáticos mal concebidos agora controlam os mínimos detalhes da economia, da propaganda às prisões”. – Cathy O’Neill

 

Eugênio Bucci

(Jornalista, Professor Titular da ECA-USP e articulista do jornal O Estado de S. Paulo)
23 de janeiro de 2023

 

Você talvez se lembre da chegada do correio eletrônico na vida da gente. Talvez se recorde do primeiro e-mail que enviou na vida. Eu também tenho as minhas recordações, mas, atenção, muita calma, não se agite: não há risco de enveredarmos aqui por memórias confessionais ou indiscretas. Só o que vou fazer é pedir licença para uma lembrança pessoal, mas contida e, acima disso, pertinente ao tema da liberdade, dos direitos humanos e das disruptivas mutações da política no mundo cada vez mais digitalizado. As reminiscências importam, mas com moderação. As minhas, para começar, mas as suas também serão bem-vindas.

Em julho de 1995, lá se vão quase trinta anos, eu era diretor de redação de uma revista mensal na Editora Abril, a “Superinteressante”. Naquele mês, nossa edição festejava o seu endereço eletrônico: super@embratel.net.br. Era artigo raro. Pouquíssimas redações dispunham de um canal na internet. A gente exultava por ter saído na frente. 

Os mais velhos talvez não tenham esquecido o barulhinho que fazia o modem de linha discada. Demorava, demorava, até que a coisa começava a funcionar. As emoções fluíam. O UOL, criado naquela época, deu seu grande salto quando ofereceu serviços de chat (conversa) para seus assinantes. Mais do que ler entrevistas, artigos e reportagens, mais do que olhar fotografias jornalísticas, os “internautas” queriam falar entre si, queriam bisbilhotar intimidades recíprocas, queriam aproximações virtuais. Um mundo novo estava nascendo, enquanto outro morria. A gente mal se dava conta.

 

As lembranças importam?

A tecnologia do e-mail, que ficou acessível ao público no Brasil na segunda metade da década de 1990, tinha sido descoberta e desenvolvida trinta anos antes. Seu inventor foi o programador americano Ray Tomlinson (1941-2016), do MIT. Em 1971, o serviço já era oferecido na ARPANET, precursora da Internet. Era o SNDMSG (“Send Message”, ou “Enviar Mensagem”, em inglês). Tomlinson também criou a convenção de se usar o símbolo “@” nos endereços eletrônicos. O que houve depois, a gente sabe.

Ray Tomlinson, que criou o e-mail.

Sim, lembranças importam. Sem isso, nós não teríamos referências para dimensionar os contrastes. Hoje, todo mundo olha para o e-mail como velharia, mas, você se lembra, foi um acontecimento. Agora é diferente. Bilhões e bilhões de seres humanos se falam pelo Facebook (os mais velhos), pelo Whatsapp, pelo Telegram. Falam também com robôs, que exploram suas necessidades de consumo, suas predileções políticas, suas carências afetivas, suas misérias amorosas. Algoritmos conhecem de trás para frente os circuitos secretos do desejo de cada habitante do planeta. Crianças de dois anos de idade já são mapeadas. O mundo é outro, totalmente outro.

À semelhança da compressão das máquinas, que foram ficando cada vez menores, como se fossem versões em miniatura da miniatura que já eram antes, os chamados “conteúdos” (não, esse nome não é bom, mas é o que temos) também foram perdendo tamanho e ganhando potência. Um “meme” de cinco segundos pode ajudar a definir um voto para presidente da República. Textos longos são mamutes soterrados pelas geleiras. Ensaios extensos são menos “acessados” (outro termo) do que tesouros de fragatas naufragadas há séculos. 

Um pouco mais de memorialística. Pensemos sobre o que aconteceu com a utopia digital. Ainda nos anos 1990, o psicólogo e professor de Harvard Timothy Leary (1920-1996) tinha se convertido com fervor às maravilhas prometidas no Vale do Silício. Ele já era uma celebridade contestatória. Na década de 1960, quando os hippies estavam na moda e jovens como Janes Joplin e Jimmy Hendrix expandiam as sonoridades do blues, virou um ídolo da contracultura ao proclamar o que entendia como efeito benéfico do LSD. Hoje o uso terapêutico de alucinógenos tem resultados positivos comprovados, mas, sessenta anos atrás, ou um pouquinho menos, a bula era outra. A pedra de toque do excêntrico professor de Harvard era menos tratar patologias mentais e mais desprogramar a caretice, que seria a patologia mestra. É possível que ele tivesse razão, mas o sonho de “paz e amor”, lisérgico ou não, acabou não vingando.

No Vale do Silício, décadas mais tarde, Leary voltou ao sucesso. Seu maior legado foi ter morrido on-line, no dia 31 de maio de 1996, na cidade de Los Angeles. Contam que milhões de espectadores acompanharam seus momentos finais na sua página na Internet. Ele morreu em consequência de um câncer de próstata. Foi um bom começo para a era digital. Poético, fantasioso, feliz.

 

As (des)ilusões da tecnologia digital

Para muita gente, as tecnologias digitais trariam a superação pacífica das deformações capitalistas. As redes sociais com a sua – lá vai outra palavra controversa – “horizontalidade” deixariam na poeira as hierarquias rígidas, excessivamente “verticalizadas”. As relações colaborativas ganhariam terreno, a ganância refluiria. Um pensador respeitável, Yochai Benkler, fez concessões ao otimismo. Em “The Wealth of Networks”, já no comecinho do século XXI, ele afirmou (a tradução é minha):

“A Riqueza das Redes: Como a Produção Social Transforma os Mercados e a Liberdade” ajuda a entender o lugar do cidadão conectado na era do capitalismo e tecnologia: consumidor e produto, ao mesmo tempo.

“A esfera pública interconectada permite a muito mais indivíduos comunicar suas observações e seus pontos de vista para muitos outros, e a fazer isso de tal maneira que não pode ser controlada pelos proprietários dos meios de comunicação e não é fácil de ser corrompida pelo dinheiro como nos tempos dos meios de comunicação de massa” (BENKLER, Yochai. The Wealth of Networks. New Heaven, Conn: Yale University Press. 2006, p. 11).

Mais tarde, Benkler repensaria o seu entusiasmo, é verdade, mas o fato incontestável é que, nos primeiros anos, um sonho cibernético de “paz, amor e socialismo light” andou frequentando as garagens da Califórnia. O poderio dos conglomerados capitalistas entraria em refluxo sem chiar. Uma “brotherhood of men” (John Lennon idolatrava Timothy Leary e falou dele na letra de “Come Together”) se espalharia como as cores em campos floridos. A tecnologia faria a revolução zen.

Foi uma ilusão de muitos bits. Você sabe, eu sei, Yochai Benkler também sabe. O que é que a era digital nos trouxe? Um anabolizante para o capitalismo. Fundamentalmente foi isso: um mega-anabolizante para o capitalismo.

Vamos lá. Tivemos mais agilidade nas comunicações? Sem dúvida. Isso foi bom. Veio também uma conectividade (ah, o vocabulário) sem paralelos na história. Ótimo. A automação bancária, o waze, os telefones celulares, o currículo Lattes, a urna eletrônica. Uns gostam mais, outros gostam menos. Pelo sim, pelo não, palmas para a tomografia computadorizada, para a telemedicina, para o georreferenciamento, para todos os instrumentistas e para os DJs. Mas o que a revolução digital nos trouxe de realmente substancioso foi a maior concentração de capital (e de poderio do capital) de toda a história da modernidade. Quem ficou de bem com a vida (e com a morte) depois da afluência hippie para o Vale do Silício foram os capitalistas. Uns poucos capitalistas, sim, mas como ficaram bem. O resto da moçada simpática que gostava de fazer o “V” com os dedos indicador e médio ficou para depois. De novo.

A repaginação das relações de mercado (e das relações de produção e consumo) teve um impacto definitivo na política e na democracia, e não se pode dizer que tenha sido bacana. Para que possamos enxergá-lo, precisamos, antes, passar a limpo alguns aspectos da mutação do capital. Em poucas linhas.

 

Das corporações às bigtechs

O centro gravitacional de geração do valor se deslocou das corporações que fabricavam bens corpóreos e aparelhos palpáveis (como a General Eletric, a indústria automobilística ou as petrolíferas) para as companhias dedicadas ao extrativismo de dados pessoais (como Apple ou Amazon). Em 1998, as cinco empresas mais caras do mundo eram a General Eletric, a Microsoft, a Shell, a Glaxo e a Coca-Cola. Dessas, quatro eram fabricantes de coisas palpáveis (motores, eletrodomésticos, gasolina, fármacos, bebidas gasosas), e só uma era uma empresa “de tecnologia”, como já eram chamadas. Há pouco mais de um ano, quando eu estava concluindo o livro “A Superindústria do Imaginário”, fiz uma verificação desses números. Em 2021, os conglomerados mais caros do mundo eram todos ou quase todos ditos “de tecnologia” – e não percamos de vista que esse “de tecnologia” esconde o fato de que o grande negócio desses grupos trilionários é a captura de dados pessoais e sua comercialização.

Mark Zuckerberg, co-fundador do Facebook, prestando depoimento no Senado dos EUA quando investigações revelaram que os dados de mais de 50 milhões de usuários foram usados por empresa ligada à campanha de Donald Trump.

Eu anotei nesse livro, com as fontes devidamente registradas, que, nos sete primeiros meses de 2020, as cinco maiores big techs – a Apple, a Amazon, a Alphgabet (Google), a Microsoft e o Facebook (que mudaria de nome para Meta pouco depois) –tiveram uma valorização de 37%, enquanto todas as outras empresas da S&P 500 (as quinhentas maiores companhias com ações negociadas na Nasdaq) sofreram um declínio médio de 2% no preço de suas ações. Em dezembro de 2020, quando as baixas da pandemia ultrapassavam 1,8 milhão no mundo (195,7 mil no Brasil), o preço da Apple alcançaria os 2,369 trilhões de dólares. Em julho de 2021, as chamadas Big Five (Apple, Amazon, Alphabet, Microsoft e Facebook) bateram, juntas, o valor de 9,3 trilhões de dólares. A Apple, depois disso, ultrapassaria a barreira dos 3 trilhões de dólares. Estamos falando aqui dos maiores valores já alcançados por empresas na história do capitalismo.

Com a era digital, o nível de concentração de mercado subiu. É uma volta a mais no parafuso da acumulação. Quando as empresas de comunicação migraram dos jornais impressos para as redes de rádio e televisão, o número de competidores no mercado diminuiu e a concentração aumentou. Agora, com o avanço da era digital, o fenômeno se repete, com uma carga maior. Se, na época das redes de televisão, a sociedade precisava lidar com monopólios nacionais, agora o monopólio global se tornou uma realidade, operando acima do alcance das legislações nacionais. É por isso que prefiro chamar as big techs de conglomerados monopolistas globais. É o que são. Para enfrentá-los, a democracia terá de recorrer a marcos regulatórios nacionais combinados com acordos multilaterais, como aqueles que adotados para o enfrentamento das mudanças climáticas.

O problema não é a tecnologia – o que precisa sobressair com clareza de tudo o que escrevo aqui. O problema são as relações de propriedade que amarram a tecnologia. O investimento em inovação é apropriado ou mesmo dirigido pelos conglomerados opacos. A mais cristalina expressão dos efeitos perversos dessas relações de propriedade está nos algoritmos que regulam e disciplinam o fluxo das mensagens: eles são fechados, ninguém (que não sejam os donos dos conglomerados e seus assessores mais próximos) sabe como eles operam, com que critérios. É uma loucura o que se passa, e a palavra “loucura” não é exagero. Os algoritmos sabem tudo de nós, reles pessoas físicas – e nós não sabemos quase nada sobre eles. 

Há nessa assimetria abissal um quê de totalitarismo. Como você há de se lembrar, nos regimes totalitários o poder enxerga tudo da intimidade de cada pessoa, mas nenhuma pessoa tem autorização para ver nada do que se passa no núcleo do poder. No totalitarismo, o poder estatal é opaco e a vida pessoal é transparente (para os olhos do poder, bem entendido). Na democracia, aí sim, é que a vida privada poderia ser protegida, de tal forma que o poder não possa violar suas fronteiras, enquanto o Estado arca com a obrigação de prestar contas e de assegurar transparência para os seus negócios. Pois no mundo digital, é como se estivéssemos sob uma ordem totalitária: o poder (não do Estado, mas dos conglomerados) sabe tudo de nós, e nós não sabemos nada dele. 

 

Algoritmos de destruição em massa?

Estado de fanatismo nas ações: rastros da destruição causada por golpistas bolsonaristas no Supremo Tribunal Federal. Movidos por notícias falsas, eles tentaram abolir violentamente o Estado Democrático de Direito. As cadeiras usadas pelos ministros do Supremo foram projetadas pelo arquiteto e designer polonês Jorge Zalszupin, sobrevivente do Holocausto.

Aqui chegamos, enfim, ao impacto definitivo de tudo isso na política e na democracia. Nos tempos dos e-mails, as pessoas aprenderam a trocar pequenas cartas, mais velozes e mais enxutas. À medida que os módulos da comunicação foram se atrofiando, em tijolinhos cada vez mais sumários, as sensações ganharam mais peso. O argumento racional ficou mais e mais leve, até quase se evaporar completamente. As bolhas, tão bem descritas pelos estudos críticos, prevaleceram. Veio o fenômeno da desinformação, tal como Claire Wardle a caracterizou, seguida dos processos de fabricação do fanatismo. Não apenas as comunidades virtuais perderam o contato com os fatos (no sentido que Hannah Arendt se refere a eles em “Verdade e Política”, ensaio escrito nos anos 1960), como se descolaram de modo irreversível dos métodos racionais pelos quais podemos conhecer a verdade factual. Estamos lidando agora com multidões para as quais os fatos, mais do que não importar, não existem.

O que isso tem a ver com o modo de produção da Superindústria do Imaginário? Ou, em outras palavras, qual o nexo entre esse estado de fanatismo que domina a política e ameaça a democracia, de um lado, e o capitalismo, de outro? Muito simples. Em lugar de mercadorias corpóreas, o capitalismo dos nossos tempos desenvolveu formas de fabricar signos, pois é a marca, o significado, a visibilidade e a conotação narrativa que definem o valor de troca. Em lugar de preencher necessidades, o modo de produção interpela o desejo. Por fim, em lugar de explorar a força física de trabalho, explora o olhar. Nessa teia de relações sociais permeadas pelo digital, o desejo pesa mais que a vontade; a sensação, mais que o juízo (de fato ou de valor); o gozo, mais que o pensamento. São esses os nós que determinam o mercado – e, por decorrência, por maiores que sejam os esforços em contrário, eles acabaram por incidir de modo irrecorrível sobre a política. As relações de consumo se divorciaram de qualquer juízo crítico, na mesma medida em que as relações de poder vão se despedindo do espírito. 

Há poucos parágrafos falei aqui sobre totalitarismo. Com o totalitarismo, vou também terminar estas linhas. No nazismo e no stalinismo, os seres humanos passaram a se comportar como se fossem agentes voluntários e gratuitos da polícia política porque sentiam medo. Agora, quando se atiram na sua relação com o capital totalitário, os seres humanos fazem isso por desejo. Para elas deixou de valer o que Freud um dia chamou de Princípio de Realidade. Elas se esqueceram de que existe a realidade. E assim ficou a política.

Se pudermos nos lembrar será melhor. Se puder ao menos nos lembrar do primeiro e-mail que a gente mandou um dia. Se a gente ao menos tivesse memória de como era o mundo – e no que ele se transformou.

A superindústria do imaginário

 

 

Eugênio Bucci

Editora Autêntica, 2021 (Finalista Jabuti 2022)

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