ALEMANHA PROVA ENVENENAMENTO DE NAVALNY

 

Elaine Senise Barbosa

7 de setembro de 2020

 

O envenenamento de Alexei Navalny, o principal opositor de Vladimir Putin, não é mais uma suspeita. Na semana passada, a chanceler alemã Ângela Markel cobrou explicações do Kremlin, após os médicos do hospital que recebeu a vítima, em Berlim, realizarem exames toxicológicos e comprovarem o uso de uma substância já identificada em outros casos de envenenamento nos quais o governo russo aparece como o principal interessado.

Alexei Navalny, o maior opositor de Vladimir Putin

Navalny, que já foi preso diversas vezes por organizar a oposição às pretensões autocráticas de Putin, criou uma fundação destinada a combater a corrupção no país e, há poucas semanas, publicou uma investigação sobre a corrupção de membros do alto escalão do governo.

Então, no último dia 20 de agosto, enquanto aguardava um voo para Moscou em Tomsk, na Sibéria, Navalny tomou um chá na cafeteria do aeroporto. De acordo com o assessor que viajava com ele, foi a única coisa que ele ingeriu naquela manhã. Uma hora após a decolagem, Navalny começou a vomitar sem parar, enquanto a tripulação perguntava aos passageiros se havia um médico a bordo para ajudar. Com o quadro cada vez mais grave, o piloto anunciou um pouso de emergência na cidade de Omsk, ainda na Sibéria, onde uma ambulância aguardava na pista para levá-lo ao hospital local.

Segundo reportagem da BBC na Rússia, um advogado que estava no voo e observava a situação, sem se dar conta que o doente em questão era Navalny, achou estranho quando agentes de segurança subiram ao avião e pediram ao passageiros localizados em assentos próximos para deixarem seus contatos, pois não parecia se tratar de uma questão de segurança.

Nas 48 horas seguintes, entre a vida e a morte, o inimigo de Putin foi submetido a exames, enquanto a notícia corria o mundo. O chefe da equipe médica do hospital de Omsk, Alexander Murakhovsky, negou sinais de envenenamento, afirmando tratar-se de um problema estomacal provocado pela hipoglicemia derivada do longo jejum.

A repercussão do caso e a mobilização de seus apoiadores resultou em uma solicitação direta de Ângela Merkel ao governo russo para que fosse permitida a transferência de Navalny para a Alemanha. No dia 22 a vítima foi levada para o Hospital Charité, em Berlim. Segundo a chanceler, o que estava em jogo, além da vida de Navalny, era um valor caro ao Ocidente, a liberdade de expressão, especialmente contra ocupantes de cargos públicos.

A dramática transferência de Navalny para a Alemanha

Um crime e uma assinatura

Tanto os médicos do hospital em Omsk quanto o Kremlin relutaram em aceitar a transferência, mas acabaram cedendo a fim de amenizar as suspeitas cada vez maiores de tentativa de assassinato político. Quando Navalny foi levado para Berlim, o porta-voz do governo russo afirmou que nada pode ser feito até que o paciente esteja completamente restabelecido para prestar depoimento; já os procuradores russos afirmaram não haver encontrado nenhum indício de crime deliberado.

Anna Politkovskaya, jornalista morta em 2006

A pergunta é quem acredita nisso, pois envenenar inimigos era um método recorrente nos tempos da União Soviética e, desde que Vladimir Putin, um ex-dirigente da KGB, se tornou chefe de Estado na Rússia, casos semelhantes ao de Navalny têm ocorrido. Mas existe uma característica que distingue os envenenamentos do passado dos de hoje: se antes o objetivo era ocultar o crime, agora trata-se de enviar um recado muito claro aos opositores. Mais ainda porque a substância encontrada no corpo de Navalny, o novichok, é a mesma encontrada em outras vítimas. Como disse Ivan Zhdanov, o diretor da fundação criada por Navalny, usar o novichok é praticamente como deixar uma assinatura no local do crime.

Alexander Livitnenko, o ex-espião que relacionou a morte da jornalista ao Kremlin, sofreu o mesmo destino

De fato, em um breve retrospecto, foram envenenados a jornalista Anna Politkovskaya, uma importante crítica do governo Putin, em outubro de 2006, aparentemente marcando a retomada do método pelo ocupante do Kremlin. No mês seguinte foi a vez do ex-espião russo Alexander Litvinenko, que vivia em Londres e acusou o Kremlin de estar por trás da morte da jornalista, bem como do magnata russo do petróleo Boris Berezovsky. Em 2018 houve uma crise diplomática entre Moscou e Londres quando, mais uma vez, o país foi palco de outro envenenamento misterioso, o do ex-espião  Sergei Skripal e sua filha, Júlia. Naquela vez, o laboratório britânico que pesquisa armas químicas conseguiu identificar o novichok.

 

Substância banida e internacionalização do crime

Os médico alemães do Hospital Charité encontraram sinais de “inibidores cholinesterase” no corpo de Navalny. A substância, utilizada em pesticidas e presente nas células nervosas, pertence à família química do novichok,  caracterizada por bloquear a ação de outra substância chamada acetilcolina, necessária à realização das sinapses entre as células nervosas.

A questão se torna ainda mais grave porque o novichok e seus derivados foram incluídos no ano passado na lista de armas químicas banidas pelas convenções internacionais, o que torna o fato mais do que uma “questão interna” russa. Ângela Merkel cobrou explicações de Moscou e falou em “tentativa de assassinato” que só o Kremlin poderia explicar; o primeiro-ministro britânico Boris Johnson falou em “ultraje”, também cobrando explicações. Donald Trump, por sua vez, acaba de declarar não haver provas de envenenamento.

Em Moscou, a reação do governo varia entre a negação e o diversionismo. De um lado, o Kremlin fala em colaborar com os alemães, mas ao mesmo tempo, membros do alto escalão põe em dúvida os testes que apontaram a presença da droga, começando pelo diretor do hospital na Sibéria que prestou os primeiros atendimentos.

Navalny segue internado, mas aparentemente não corre mais risco de morte. A pergunta é quem será o próximo?

 

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