PUTIN USA HOMOFOBIA COMO ARMA POLÍTICA (25/6/2018)

 

Demétrio Magnoli

 

Às vésperas da Copa do Mundo, gangues ultranacionalistas russas ameaçaram atacar os indivíduos LGBT que se atrevessem a comparecer aos estádios. As autoridades nada fizeram para conter a campanha intimidatória. Mesmo assim, durante o discurso de Vladimir Putin, antes do jogo inaugural, Alexander Agapov ergueu, no estádio Luznhiki, em Moscou, a bandeira do arco-íris. “Acredito que se deve praticar aquilo que se prega e, se estou dizendo para os fãs de futebol LGBT se fazerem visíveis, devo fazê-lo eu mesmo”, explicou Agapov, o presidente da Federação Esportiva LGBT da Rússia, uma organização privada.

Uma lei russa de 2013 proíbe o que denomina “propaganda da homossexualidade” para menores de idade. A lei serve à finalidade de silenciar generalizadamente o debate sobre os direitos LGBT. Apesar dela, temendo desgastar a imagem internacional da Rússia na hora do evento de prestígio tão aguardado por Putin,  o governo decidiu não banir os símbolos LGBT durante a Copa do Mundo.

 

O meme Putingay é proibido com rigor pelas autoridades russas. Putin cultua a imagem máscula, militarista

 

Putin foi eleito para um quarto mandato presidencial em março, após uma campanha farsesca, marcada pelo veto à candidatura do principal opositor, Alexei Navalny. O tema dos LGBT praticamente não apareceu no seu discurso – nem no dos demais candidatos. Mas, abaixo da superfície, o discurso homofóbico pontilhou toda a cena política russa. Putin prefere falar sobre o assunto por meio de vozes terceirizadas e, de modo geral, anônimas.

A estratégia do Kremlin era garantir o maior comparecimento possível às urnas, pois o triunfo estava assegurado de antemão. Semanas antes do pleito, começou a circular um video oficioso conclamando as pessoas a votarem. A peça de propaganda exibia aos eleitores uma realidade alternativa, supostamente derivada de altas taxas de abstenção. Nela, um governo minoritário consagrava os direitos LGBT e autorizava negros a servirem nas forças armadas.

A propaganda subterrânea putinista cola-se a inclinações conservadoras disseminadas em amplos setores da sociedade russa, especialmente entre os idosos e nas cidades do interior. O site Lenta.ru, bastante popular, publicou um jogo no qual os internautas eram chamados a eleger celebridades “suficientemente sortudas” para serem “estupradas e tornadas famosas” por Harvey Weinstein. Um game online, muito disseminado, leva o nome de “Jogue pelo Presidente: ajude Putin a matar homens nus que erguem a bandeira do arco-íris”. O participante assume a identidade de um ex-agente da KGB e lança-se à caça de “inimigos do Estado”.

Putin conhece bem os pilares culturais profundos que sustentam seu regime. No Yandex, principal mecanismo de busca na Rússia, uma pesquisa em língua russa por notícias sobre os LGBT desvenda resultados deploráveis. No topo da lista, surgem notícias como “Berlinale-2018: pervertidos e russofóbicos dominam o cinema moderno”, “Ator russo é demitido por seu apoio aos gays” ou “Usuários escandalizam-se pela nova propaganda pró-LGBT do iPhone”.

Nas eleições de março, só uma candidatura presidencial, de Ksenia Sobchak, da Iniciativa Cívica, ousou denunciar a homofobia. Atriz e âncora de TV, filha de Anatoly Sobchak, primeiro prefeito democraticamente eleito de São Petersburgo, Ksenia protestou contra a peça de propaganda que chamava a votar: “Exibir os indivíduos LGBT como ameaças num país homofóbico não é uma brincadeira”. A prova mais trágica de que ela tem razão encontra-se na Chechênia.

A república do norte do Cáucaso (veja no mapa) atravessou duas cruéis guerras separatistas, entre 1994 e 1996 e em 1999-2000. A “era Putin” instalou-se efetivamente com o sangrento esmagamento dos nacionalistas chechenos e a consolidação de um governo local completamente subordinado ao Kremlin. Ramzan Kadyrov, chefe do governo checheno desde 2007, é um putinista incondicional. A perseguição à comunidade LGBT na república é antiga, mas alcançou um ápice com a campanha de repressão contra homens gays entre março e maio de 2017.

Naqueles meses, milhares de pessoas foram vítimas de sequestros e detenções extra-judiciais, torturas, desaparecimentos e assassinatos. As autoridades locais manifestaram apoio quase oficial às violações em massa de direitos humanos cometidas por gangues paralimitares. Cinicamente, um porta-voz do Kremlin recomendou aos que, “na opinião deles”, sofreram abusos dirigirem queixas às autoridades chechenas.

A Copa da FIFA e de Putin é um intervalo de fantasia. Durante seus 31 dias, os símbolos LGBT serão tolerados. Depois, tudo volta ao “normal”.

 

 

Parceiros

Receba informativos por e-mail