TERROR NA MESQUITA: ISLAMOFOBIA IMITA JIHADISMO (18/3/2019)

 

Demétrio Magnoli

 

Brenton Tarrant, australiano, 28 anos, o terrorista de Christchurch (Nova Zelândia) praticou seu atentado islamofóbico sob a inspiração dos atos de terror dos jihadistas. O supremacista branco assassinou 50 muçulmanos, em duas mesquitas, em 15 de março, uma sexta-feira, dia de orações. A semelhança com atentados jihadistas que usurpam o nome do Islã não é meramente superficial.

O espetáculo da violência figura como marca registrada dos grupos terroristas ao longo da história, desde os atentados cometidos por social-anarquistas russos do século XIX. Bem antes do advento da televisão e da internet, o terror já se nutria da ideia da “propaganda pela ação”. O ato violento deveria chegar aos olhos e ouvidos de um público tão amplo quanto possível, pois veicularia uma mensagem política. No rastro da bomba, do tiro, da destruição e da morte sempre emergiram os manifestos.

No passado, porém, a violência era a parte secundária do atentado. Os terroristas escolhiam alvos singulares, especialmente governantes, tomando precauções para não produzir vítimas casuais. Como registrou Kathy Gilsinan, em artigo publicado na revista The Atlantic, organizações terroristas europeias de extrema-esquerda ou extrema-direita ativas durante a Guerra Fria costumavam dirigir seus ataques a propriedades, não a pessoas – e, às vezes, chegavam a emitir alertas prévios para evitar mortes. As pessoas comuns deveriam assistir ao espetáculo, não ser as vítimas dele.

O padrão mudou, especialmente a partir dos atentados do 11 de setembro de 2001 em Nova York. Os manifestos não desapareceram da cena, mas a morte em massa converteu-se no objetivo central do ato de terror, tanto das organizações jihadistas quanto dos extremistas islamofóbicos. As degolas promovidas pelo Estado Islâmico foram divulgadas pelas redes sociais, em vídeos de qualidade profissional. Tarrant usou uma câmera presa ao capacete para transmitir, ao vivo, os 17 minutos do massacre na mesquita de Al Noor.

Capa xenófoba do Daily Mail publicada em janeiro de 2013

O Facebook, cujo modelo de negócios baseia-se na negação de responsabilidade editorial pelo conteúdo que veicula, funcionou como arma auxiliar do terrorista. Nenhum órgão de imprensa de destaque prestou-se ao papel de cúmplice, oferecendo as imagens. A exceção notória foi o Mail Online, site do tabloide britânico de direita Daily Mail, que também estimulou os leitores a baixarem o manifesto do terrorista.  

Os terroristas da Al-Qaeda e, depois, do Estado Islâmico, explicaram várias vezes que seus assassinatos indiscriminados tinham a finalidade de forçar as potências ocidentais a retaliar manu militari no mundo muçulmano, exaurindo-as política e socialmente. No seu manifesto, Tarrant invocou o mantra da “invasão” de muçulmanos que ameaçaria a “raça branca”. Mas, sobretudo, explicitou a meta estratégica do seu ato de terror: “provocar os inimigos de meu povo a agir”, a fim de que eles experimentem uma reação. É o avesso simétrico do raciocínio estratégico dos jihadistas.

Os jihadistas almejam acordar os povos muçulmanos. As bombas ocidentais romperiam um suposto estado de dormência, levando-os às ruas e às trincheiras, para derrubar governos muçulmanos “traidores” associados aos “cruzados cristãos”. O terrorista de Christchurch pretende gerar retaliações jihadistas, de modo a acordar a “raça branca” para o perigo existencial e conduzi-la à guerra contra os “invasores”.

Tarrant qualificou Donald Trump como “símbolo da identidade branca renovada” no mundo. Na hora do ataque de Christchurch, Trump tuitou um link para seus seguidores acompanharem o massacre através do Breitbart News, um site da alt-right (direita alternativa) americana que classificou o atentado como “homicídio”, evitando empregar a palavra “terror”. Depois, o presidente dos EUA apagou seu tuíte e enviou “condolências ao povo da Nova Zelândia”, usando o termo “massacre”.

A islamofobia e a xenofobia, que andam de mãos dadas, formam o pano de fundo do atentado. Entre as vítimas de Christchurch, contam-se cidadãos de diversos países, como o Paquistão, o Egito, a Jordânia, a Somália, Bangladesh, o Afeganistão, a Índia, a Indonésia e a própria Nova Zelândia. Vários deles transferiram-se para a Nova Zelândia como refugiados. O ato de terror inscreve-se numa sequência que abrange o lançamento de coquetéis molotov contra uma mesquita de Enschede (Holanda, fevereiro de 2016), o ataque à bomba contra uma mesquita de Dresden (Alemanha, setembro de 2016) e os atentados a tiros no Centro Islâmico de Zurique (Suíça, dezembro de 2016) e na mesquita de Quebec (Canadá, janeiro de 2017), além de inúmeros ataques menores nos EUA e na Europa.

Tributos espontâneos às vítimas de Christchurch diante de mesquita, na Nova Zelândia

Trump minimizou a tragédia, descrevendo-a como fruto da loucura de “um pequeno grupo de pessoas”. De fato, o terrorismo anti-muçulmano e anti-imigrantes não se articulou em organizações como a Al-Qaeda e jamais estabeleceu uma entidade territorial como o califado do Estado Islâmico. A organização e o “território” dos terroristas do supremacismo branco são as redes sociais. Contudo, a centelha de esperança que os move encontra-se na ascensão do nacionalismo xenófobo nos países ocidentais.

“Não ponham a culpa em mim”, tuitou Matteo Salvini, o ministro do Interior italiano e líder da Liga, partido da direita xenófoba, no dia do massacre de Christchurch. Obviamente, Salvini não tem responsabilidades criminais pelo atentado, assim como seria absurdo procurar vínculos diretos entre o terrorista e o americano Trump, o húngaro Orban ou outras lideranças que invocam as tradições cristãs da “civilização ocidental”. Entretanto, é preciso iluminar um núcleo discursivo comum: o tema da “invasão” muçulmana percorre tanto a linguagem de Tarrant quanto a dos chefes de Estado e governo do nacionalismo ascendente.

O terrorista de Christchurch concorda inteiramente com o discurso islamofóbico e xenófobo desses líderes. Ele diverge apenas dos métodos políticos empregados por eles no “choque de civilizações”. Tarrant quer a guerra aberta, sem limites. E acredita que a onda nacionalista oferece uma oportunidade histórica para a sua “solução final”.

 

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