NA ETIÓPIA, UMA GUERRA DE NARRATIVAS (22/11/2021)

 

Elaine Senise Barbosa

 

Na guerra atual, narrativas políticas são armas tão decisivas quanto aviões.

 Haile Selassie

A Etiópia, como o Egito, é um lugar mítico. Terra da Rainha de Sabá; reino cristão de Prestes João;  Império de Haile Selassié (foto). Entre mitos e fatos, um país cuja história é marcada pela independência frente às potências externas

O conflito que eclodiu na Etiópia há um ano opõe as forças do governo central, capitaneado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed, à Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF). O conflito contabiliza chacinas com traços de limpeza étnica e estupros, além de crimes de guerra praticados por todos os envolvidos. O fenômeno sociológico recente, do qual a guerra na Etiópia é mais uma prova, é o papel das postagens de grupos políticos e suas milícias digitais incitando a violência étnica para a eclosão do conflito, conforme recentemente divulgado nos Facebook Papers.

Analistas africanos alertam para a existência de uma narrativa dominante na mídia ocidental, na qual Abiy é o vilão exclusivo enquanto as forças do TPLF aparecem basicamente como vítimas. Existem violações de direitos humanos sendo cometidas pelas forças tigrenses e há violações ocorrendo em outras partes do país, mas esses fatos não recebem uma fração da visibilidade dada aos acontecimentos na área de Tigré.

Existem questões relacionadas à geopolítica africana e a interesses externos na região que influenciam as avaliações sobre o que está acontecendo no país, inclusive para justificar um “imperialismo humanitário”. No caso, o dilema ao qual os países democráticos devem responder é o que fazer quando um governo bloqueia o acesso a uma parte do país e impõe a fome a quase 400 mil pessoas como arma de guerra?

 

A geopolítica no Chifre da África

 

Batalha de adowa 1896

Batalha de Adowa, em 1896. A derrota do exército italiano frente ao etíopes deve muito ao Reino Unido, a quem não interessava um novo concorrente europeu ocupando o Chifre da África

 

Há 125 anos o povo da Etiópia obteve um feito histórico e derrotou o exército italiano na Batalha de Adowa, evitando a colonização. Foi o único reino capaz de resistir: a Etiópia cristã resiste há séculos a impérios poderosos. A vitória fez da Etiópia um símbolo para o movimento panafricanista internacional e alimentou ambições imperiais no plano regional. Essa história ecoa no conflito atual.

Sob a perspectiva dos Estados Unidos, a Etiópia era um aliado confiável no Chifre da África, que ajudou a sustentar a luta contra militantes islâmicos na Somália e cedeu o seu espaço aéreo durante a invasão do Iraque, em 2003. Em troca desse apoio, a potência ocidental transferiu US$ 4,2 bilhões em ajuda financeira ao aliado africano, entre 2016 e 2020. Do ponto de vista da União Europeia, conta também a localização estratégica da Etiópia em relação ao Mar Vermelho, por onde passam rotas de imigrantes em sentido à Europa.

Nesses anos, o TPLF não apenas integrava o governo federal como exercia papel hegemônico, estabelecendo estreita parceria com os Estados Unidos. Mas Abiy Ahmed tem grandes ambições e a Etiópia tem uma história com a Eritreia… O homem que recebeu o Nobel da Paz por encerrar o conflito com o país vizinho agora estende a mão e busca uma aliança diplomática com o ditador da Eritreia capaz de redesenhar o equilíbrio de poderes na região. Para o governante etíope, que corre o risco de terminar no banco dos réus do TPI pelos crimes no Tigré, massacrar o TPLF faz parte dessa estratégia maior e ajuda a consolidar seu poder pessoal.

Mapa Quênia

Sanções e armas. O governo de Joe Biden lança sanções contra a Etiópia e a Eritreia, em defesa do Tigré, irritando ainda mais o ex-aliado. Enquanto isso, Vladimir Putin sorri de canto de boca, vende dezenas de milhões de dólares em armas para o governo etíope e, ao lado da China, bloqueia no Conselho de Segurança da ONU qualquer intervenção na região. “O governo etíope sente que pode fazer sem o Ocidente – que pode obter armas do Irã, Turquia e China, empréstimos brandos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos e proteção política da Rússia e da China”, avalia Kjetil Tronvoll, professor de estudos de conflito na Oslo New University College, em entrevista à BBC.  

Esse realinhamento, entretanto, encontra resistência mesmo na base política do governo, especialmente no Exército, responsável por sustentar a guerra com a Eritreia por anos. Um coronel declarou em entrevista ao The New York Times: “Eles (soldados eritreus) saqueiam propriedades, estupram mulheres, cometem atrocidades. Todo o exército está descontente com este casamento.” A observação permite concluir que forças eritreias estão sendo enviadas para o Tigré para atacar a população e o TPLF.

Múltiplas perspectivas, múltiplas narrativas.

 

Centralização ou secessão?

Até 2018 os inimigos de hoje eram aliados. A TPLF era uma das correntes políticas na coalizão governante Frente Democrática Revolucionária dos Povos da Etiópia (EPRDF). Mas o “federalismo étnico” previsto pela Constituição de 1994, um pacto entre elites regionais para compartilhar o governo, acirrou as disputas, no lugar de acomodá-las, com mais atores armados entrando no conflito e exigindo o controle sobre áreas contestadas.

Foi contra essa crescente fragmentação política, somadas às dificuldades econômicas impostas pela longa guerra contra a Eritreia, que Abiy e seu círculo passaram a apostar em cortar autonomias para assegurar a integridade territorial e consolidar seu controle sobre o aparato estatal. Quando Abiy decretou o fim da coligação de governo, em 2019, os dirigentes da TPLF entraram em rota de colisão com o primeiro-ministro 

A lembrança dos tempos em que o TPLF governou é bastante ruim para os etíopes de outras regiões e etnias. O partido é lembrado como autoritário e discriminatório, o que se traduz em apoio à guerra conduzida por Abiy, que pertence à etnia Oromo. (Na região de Oromia, por sua vez, também existe um movimento separatista aliado às forças do Tigré).

Abiy Ahmed

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, quando era celebrado no Ocidente como pacificador

De 2019 para cá, o TPLF fez alianças com outros grupos armados de oposição para formar a Frente Unida das Forças Federalistas e Confederalistas da Etiópia. Além das forças do Tigré, a aliança inclui o Exército de Libertação de Oromia, a Frente de Unidade Democrática Revolucionária Afar, o Movimento Democrático Agaw, o Movimento de Libertação Popular de Benishagul, o Exército de Libertação Popular de Gambella, o Movimento de Justiça e Direito do Povo Klimant Global, a Libertação Nacional de Sidama, a Frente e Resistência do Estado Somali.

A ampla coalizão de organizações regionais tem o objetivo declarado de preservar a Constituição de 1994, que garante o federalismo e o direito à autodeterminação.

Novos atores, novos conflitos, outras tantas narrativas. 

 

Limpezas étnicas em profusão

No início de 2021, para reagir ao bloco formado pelo TPLF, Abiy se aliou aos chefes da etnia Amhara e implantou milícias na província de mesmo nome. Também obteve apoio do regime da Eritreia e de suas forças militares. A região do Tigré, onde vivem mais de sete milhões, viu-se subitamente isolada do mundo: a internet e linhas telefônicas foram cortadas; os bancos foram fechados e jornalistas, proibidos de entrar. A violenta repressão desencadeada pelo governo central teve como efeito atrair um impressionante número de jovens tigrenses para pegar em armas e juntar-se à TPLF.

No final de junho, em reação surpreendente, a TPLF conseguiu retomar o controle sobre a cidade de Mekelle, capital do Tigré. O revés obrigou Abiy a declarar cessar-fogo unilateralmente. No entanto, a TPLF continuou a lutar, primeiro expulsando as forças etíopes do restante da província e, em seguida, desferindo ataques em direção ao sul. No caminho, praticou incontáveis atrocidades contra civis. Contudo, as violências dos rebeldes do Tigré tendem a ser minimizadas ou mesmo ignoradas, fora da Etiópia.

No dia 2 de novembro, o governo declarou estado de emergência, ordenando a detenção de todas as pessoas de ascendência tigrense, muitas das quais sem qualquer laço com os rebeldes. Ao fundo ouve-se o ruído de programas de rádio e redes sociais com suas narrativas odientas, pedindo vinganças de sangue.

Mulher e crianças em campo refugiado

Novamente o estupro aparece como arma de guerra e atinge também as meninas. Entidades que cuidam desse setor calculam o número de vítimas em mais de 200 mil 

As violações de direitos humanos cometidas por qualquer ator estatal e não estatal, no Tigré ou em outras partes da Etiópia, devem ser investigadas. As vítimas necessitam receber assistência, sobretudo as mulheres, mais uma vez submetidas a estupros generalizados. Todos os culpados por incontáveis crimes contra a humanidade devem ser responsabilizados, num lado e no outro do conflito.

“Mas a luta pelo poder geopolítico em curso não tem interesse neste tipo de agenda de responsabilização. Falar sobre responsabilidade e direitos humanos é apenas um jogo em um campo de batalha geopolítico maior”, explica o professor Hibist Kassa.

A guerra de narrativas, hoje, é tão importante e letal quanto aquela feita com armas de fogo.  

 

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