INJUSTIÇA: A SAGA DOS REFUGIADOS SÍRIOS

 

Guga Chacra

(Jornalista, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é comentarista da GloboNews e colunista do jornal O Globo em Nova York)

 

Pouco mais de uma década atrás, a Síria era a segunda nação do mundo a mais receber refugiados. Apenas o Irã a superava. Entre um e dois milhões de iraquianos foram recebidos pelos sírios durante a Guerra do Iraque (2003-2011). O regime de Bashar al Assad garantia-lhes saúde e educação gratuitas. Os vizinhos podiam também trabalhar. Para os cristãos vindos de Bagdá e Mossul, cidades sírias como Damasco e Aleppo se tornaram oásis onde podiam praticar sua religião sem problemas, em um país onde os seguidores do cristianismo historicamente eram protegidos.

Refugiados iraquianos no centro do Acnur, em Douma (Síria), novembro de 2008

Damasco, a capital síria, é sede três patriarcados. Os muçulmanos iraquianos também eram acomodados dentro da sociedade alepina e damascena. Não falo de ouvir falar. Vi com meus próprios olhos, em diferentes viagens, e entrevistei alguns destes refugiados. Quando Israel e o partido-milícia libanês Hezbollah entraram em guerra, em 2006, centenas de milhares de libaneses que fugiam do conflito foram recebidos por famílias sírias e tratados como irmãos. Após o cessar-fogo, puderam tranquilamente voltar para suas casas no Vale do Bekaa, nos montes libaneses ou nas cidades mediterrâneas.

A Síria recebia seus vizinhos basicamente sem ajuda internacional. Mesmo o Acnur, agência de refugiados da ONU, tinha um número de funcionários reduzido no país. Nações como os EUA, responsáveis diretos pela Guerra do Iraque, que culminou na saída de milhões de iraquianos, não deram um centavo sequer para ajudar os sírios a receberem os refugiados do país vizinho.

Caso o regime de Assad, junto com o Irã, não tivesse dado refúgio aos iraquianos, a crise dos refugiados desta década teria ocorrido anos antes. Milhões de pessoas fugindo do Iraque possivelmente teriam tentado ir para a Europa. O que impediu este movimento foi o abrigo dado pelos sírios. Puderam ficar em segurança dentro de uma nação árabe.

 

Portas fechadas

Ninguém imaginaria que, a partir de 2011, pouco depois do auge do êxodo iraquiano, seriam os sírios que buscariam refúgio pelo mundo. De segundo país que mais recebia refugiados, a Síria converteu-se no primeiro em número de cidadãos tentando asilo em outras nações. Alguns países da região os receberam bem, como a Jordânia, onde foram montados gigantescos campos de refugiados, como o de Zaatari, onde vivem cerca de 100 mil pessoas. A Turquia também agiu para acomodar o gigantesco número de sírios entrando no país, e parte deles recebeu cidadania.

A guerra civil na Síria começou em 2011. No ano seguinte, registraram-se quase 130 mil refugiados sírios no Líbano. Em 2014, no auge, cerca de 1,15 milhão de vítimas da guerra viviam em terras libanesas. No final de 2018, ainda eram cerca de 950 mil.

Mais de um terço dos refugiados sírios no Líbano vivem no Vale do Bekaa, no oriente do país, limitado pela cadeia montanhosa do Anti-Líbano, que demarca a fronteira com a Síria

O Líbano permitiu a entrada de sírios, mas impôs uma série de restrições. Impede que os vizinhos atuem em dezenas de profissões e os proíbem de viver em campos de refugiados oficiais. O temor dos libaneses é que os sírios se tornem os novos “palestinos” no país. Há décadas, centenas de milhares de palestinos vivem como refugiados no Líbano. O governo libanês não concede cidadania para eles porque teme que isso afete a balança sectária. A quase totalidade dos palestinos é sunita. Os xiitas e os cristãos sírios temem o crescimento desta vertente religiosa, caso eles recebam cidadania.

Os refugiados sírios no Líbano são mais diversos, mas a maioria é sunita. Ao todo, cerca de um milhão de pessoas deslocaram-se para o Líbano – o equivalente a um quarto da população do país. Compreende-se não ser fácil acomodar a todos. Ainda assim, é injustificável e triste a forma como os sírios foram tratados.

Os demais países vizinhos, no entanto, fecharam suas portas. O Iraque até pode ser perdoado porque seguia em conflito com o avanço do grupo Estado Islâmico, que chegou a dominar a cidade de Mossul. Os outros, não. 

Os ricos países do Golfo Pérsico não receberam refugiados sírios. Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes gastaram bilhões em armas para grupos jihadistas da oposição anti-Assad, mas basicamente nada para acolher as vítimas da guerra. O argumento é de que muitos sírios viviam nestes países como trabalhadores. Absurdo: estes sírios imigrantes já estavam nestas nações, não eram refugiados de guerra. Ninguém foi ajudado. Israel, que não recebeu nenhum refugiado sírio, argumenta que ajudou feridos sírios na fronteira. Muito pouco para um país próspero, com níveis de renda de Primeiro Mundo. Poderia ter recebido refugiados.

Por último, nações como EUA e Rússia intervieram abertamente no conflito. Os americanos, armando e treinando grupos anti-Assad; os russos, para proteger o regime sírio. São responsáveis, em parte, pelo colapso do país. Mas pouco ou nada fizeram pelos refugiados. O governo Barack Obama ainda tinha a intenção de acomodar algumas dezenas de milhares, mas Donald Trump quase zerou este volume. Já Vladimir Putin não deu abrigo para nenhum sírio.

É uma pena ver os sírios, que tão bem trataram refugiados na primeira década deste século, serem tão maltratados ao redor do planeta.

 

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