O JORNALISTA, “INIMIGO DO POVO”

 

Carlos Eduardo Lins da Silva

(Jornalista e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP)

 

A instituição da imprensa, como diversas outras estabelecidas e consolidadas nos séculos XIX e XX, vem enfrentando há pelo menos 30 anos desafios imensos, aos quais ela ainda não soube responder eficientemente para manter-se relevante na sociedade contemporânea. Neste início de século XXI, a liberdade de imprensa está, globalmente, em risco.

O ambiente em que mídias sociais e serviços disruptivos da ordem anterior são hegemônicos tem provocado turbilhões em sistemas políticos de democracia representativa e em diversas formas de prestação de serviços que se baseiam em confiança.

No mundo atual, a intermediação e a expertise estão em xeque. Cada pessoa se considera competente para tratar de seus assuntos e prefere negociá-los diretamente com outros indivíduos, o que coloca em crise parlamentos, sindicatos, escolas, bancos, hotéis e muitas atividades.

No entanto, a imprensa independente, além de enfrentar os problemas decorrentes desta era, ainda tem sido alvo de agressões simbólicas e físicas, que muitas vezes resultam em morte, em proporção inédita na história.

Esses ataques se intensificaram muito desde o início nos EUA do governo de Donald Trump, que classifica o jornalismo como “inimigo do povo” e incita seus seguidores a hostilizarem os profissionais da indústria em seus comícios.

Como os EUA são considerados o país em que o respeito à liberdade de expressão atingiu o seu nível mais alto, e como no passado, com alguma frequência (embora com viés ideológico), presidentes americanos denunciavam violações a ela em outros países, Trump tem dado o aval de seu cargo para líderes autoritários em diversas nações para ações liberticidas.

Mas o processo não começou com Trump. Em quase todas as guerras do século XX, usar um colete com a palavra “Press” estampada com destaque dava ao portador status similar ao concedido pelas partes beligerantes a integrantes da Cruz Vermelha ou a portadores de bandeira branca.

Na Guerra do Iraque, em 2003, isso mudou, e jornalistas passaram a ser alvo de forças em combate, inclusive dos EUA. Na Guerra do Vietnã, em que tropas americanas estiveram envolvidas de 1960 a 1974, oito jornalistas morreram. No Iraque, entre 2003 e 2012, foram 136, 15 dos quais vítimas de militares dos EUA, em ao menos alguns casos intencionalmente.

Na segunda década do século XXI, a situação é diferente, mais grave e mais disseminada. O mais recente índice de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras mostra apenas 17 nações, entre 180 examinadas, em que a garantia ao exercício da profissão é plena, ou quase plena.

Neste ano de 2018, pelo menos 43 jornalistas foram assassinados, segundo a entidade Committee to Protect Journalists. Esses casos são aqueles em que comprovadamente o crime ocorreu por causa do exercício da profissão. Outros 17 em que a relação da morte com a atividade profissional do jornalista não ficou absolutamente provada não foram incluídos.

 

Liberdade de imprensa

Fonte: Comitê para a Proteção de Jornalistas

 

O relatório do Repórteres Sem Fronteiras mostra que, mesmo em países nórdicos, como Noruega e Suécia, que lideram a lista, têm sido registrados ataques a jornalistas ou veículos de comunicação por parte de políticos ou organizações, com variados níveis de agressividade.

Nações também conhecidas pela devoção à liberdade vêem a situação se deteriorar. As agressões verbais e ameaças a jornalistas na França, por exemplo, chegaram ao seu ápice na polarizada campanha eleitoral de 2017, e a levaram ao 33º lugar no índice.

Em países onde líderes populistas e autoritários chegaram ao governo ou ampliaram sua margem de poder, como Áustria, Itália, Hungria, Polônia, Filipinas, Turquia, as coisas vêm se agravando muito e rapidamente.

O Brasil poderá se incluir nesta lista se o candidato Jair Bolsonaro, que já vem chamando publicamente a imprensa de “lixo” e instigando seus seguidores, à moda Trump, eleger-se presidente da república.

O país aparece em 102º lugar, com a legenda “mais inseguro do que nunca” no relatório da RSF, que destaca no Brasil ataques físicos contra repórteres em manifestações de rua, assassinatos, impunidade generalizada e ameaças à confidencialidade de fontes.

Segundo a Sociedade Interamericana de Imprensa, nas Américas entre janeiro e outubro deste ano houve 29 homicídios de jornalistas em crimes motivados pelo seu trabalho, quatro deles brasileiros: Marlon de Carvalho Araújo (jornalista independente de Riachão do Jacuípe, BA), Jairo Sousa (Rádio Pérola, de Bragança, PA), Jefferson Pureza Lopes (Beira Rio FM, de Edealina, GO) e Ueliton Bayer Brizon (Jornal de Rondônia, de Cacoal, RO).

De acordo com levantamento feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), jornalistas que fazem a cobertura eleitoral foram alvo de 137 casos de agressões neste ano, 75 ataques por meios digitais e outros 62 por violência física.

No mês de outubro dois episódios internacionais chamaram a atenção do público para o tema: o desaparecimento de Jamal Khashoggi, jornalista saudita crítico do regime de seu país e colunista do “Washington Post”, após ter ido ao consulado de seu país em Istambul; e o estupro e assassinato de Viktoria Marinova, âncora de um programa de TV na Bulgária, que investigava casos de corrupção no governo local.

Arábia Saudita e Bulgária estão entre as nações em que esse tipo de acontecimento não é novidade. O que assusta é que isso agora ocorra em diversos outros países onde líderes populistas conseguiram chegar ao poder por meio do voto. Especialmente porque três das principais potências do mundo, EUA, China e Rússia, são lideradas por políticos que não se incomodam e até promovem a hostilidade contra a imprensa independente.

A China está se especializando em exportar tecnologia de vigilância para controlar atividades de cidadãos, principalmente jornalistas, que se opõem ao governo. Tal expertise chinesa já está sendo usada por Tailândia, Vietnã, Sri Lanka, Irã, Zâmbia, Zimbábue. A Rússia produz e dissemina notícias fraudulentas em outros países, o que ajuda a minar a credibilidade da imprensa, além de reprimir violentamente repórteres que questionam seu governo. E Trump faz a apologia da mentira e das agressões ao jornalismo de verdade, o que mina ainda mais a credibilidade da instituição.

Sem imprensa independente, a democracia não prospera. Preservar uma é defender a outra. A sociedade precisa se opor ao clima tóxico contra o jornalismo, inclusive no Brasil.

 

 

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