REINO UNIDO PRODUZ APÁTRIDAS (28/5/2018)

 

Demétrio Magnoli

 

Errol Campbell nasceu em Londres em 1959, mas não foi registrado, pois seu pai não acreditava que ele era seu filho. Cursou a escola primária na capital britânica e, com seis anos, após a separação de seus pais, junto com três irmãos, acompanhou a mãe que retornava à Jamaica. Eventualmente, a mãe e os irmãos mudaram-se novamente para Londres, mas Errol ficou para trás, morando com a avó. Ele não podia acompanhá-los pois faltava-lhe a certidão de nascimento indispensável para a obtenção de um passaporte. Aí começou uma saga que ainda não terminou.

O jovem não era ninguém, em nenhum dos dois lados do Atlântico. Sem uma identidade legal na Jamaica, fez “bicos” durante anos, até juntar dinheiro suficiente para retornar a seu país e comprovar sua cidadania. Em 2001, desesperado, obteve um falso passaporte jamaicano, tomou um voo para Londres e, finalmente, em 2007, após torturantes trâmites burocráticos, conseguiu seu passaporte britânico. Nesse intervalo, estudou matemática por conta própria, concluiu um curso superior de engenharia e trabalhou em testes de helicópteros e do caça Eurofighter Thyphoon na Ametek Aerospace.

O sonho ruiu em 2009, após ser condenado por uma infração de trânsito. No processo, foi falsamente acusado de fraude na obtenção do passaporte britânico, aprisionado por 15 meses e, em 2013, deportado para a Jamaica. De lá para cá, Errol sobrevive como apátrida em Montego Bay graças à ajuda enviada por sua mulher, que trabalha como enfermeira em Londres. Mais uma vez, como três décadas atrás, empenha-se em provar que é britânico, por nascimento e legalmente. Seu caso, porém, é apenas um entre tantos da chamada “geração Windrush”.

Há 70 anos, em junho de 1948, o navio Empire Windrush atracou no porto de Tilbury com cerca de 800 passageiros provenientes do Caribe britânico, a maior parte deles da Jamaica. O Reino Unido acabara de conceder cidadania britânica a todos os nacionais de suas colônias e buscava atrair força de trabalho para o esforço de reconstrução do pós-guerra. A “geração Windrush”, como ficou conhecida, surgiu com a onda de migrantes das colônias britânicas do Caribe que chegou ao Reino Unido entre 1948 e a independência jamaicana, em 1962. Estima-se que, com seus descendentes, somam cerca de 50 mil.

 

Desembarque dos jamaicanos do Empire Windrush em Tilbury, 21 de junho de 1948

A espada da deportação paira sobre parte significativa deles. Como Errol, mais de 60 deportados já se converteram em “ninguéns” na Jamaica. Centenas, talvez milhares, viajaram à Jamaica para rever parentes ou simplesmente em férias e não puderam retornar. A crise imigratória da “geração Windrush” começou a ser exposta numa série de reportagens recentes do The Guardian.

Theresa May, atual primeira-ministra, ocupou o Home Office (ministério do Interior) entre 2010 e 2016, no governo de David Cameron. Naqueles anos, adotou iniciativas destinadas a criar um “ambiente hostil” para imigrantes ilegais, exigindo que empregadores, o serviço nacional de saúde e locadores de imóveis produzissem evidências do estatuto legal de potenciais imigrantes. A pressão crescente atinge não só os imigrantes ilegais mas, também, os cidadãos britânicos oriundos das antigas colônias incapazes de produzir provas burocráticas conclusivas sobre seu estatuto.

Em abril, o governo admitiu tacitamente que classificou cidadãos nascidos nas colônias como imigrantes ilegais e criou uma equipe encarregada de rever os casos. A equipe documentou a existência de mais de 5 mil potenciais afetados. Contudo, mais de um mês depois, demitidos de seus empregos e expulsos dos imóveis que alugavam, a imensa maioria deles continuavam a aguardar entrevistas com o Home Office. “É mais um fracasso, numa litania de abjetos fracassos, que os cidadãos de Windrush tenham sido reduzidos a famintos sem-teto nas ruas”, acusa David Lammy, representante parlamentar pelo distrito londrino de Tottenham.

Não se conhece a exata dimensão da crise. Muitos dos afetados, residentes no Reino Unido, temem que fazer contato com o Home Office os coloque na fila de deportação. Na Jamaica, entre os oficialmente deportados ou os que tiveram o retorno negado, o estigma da humilhação pessoal conduz ao silêncio. Socialmente são vistos como emigrados, pois não têm carteiras de identidade jamaicana e não falam inglês com sotaque caribenho. Ao mesmo tempo, não dispõem de provas incontestes de sua cidadania britânica. Do ponto de vista prático, vivem no limbo dos apátridas.

O drama da “geração Windrush” não é apenas uma história de equívocos burocráticos e assombrosa insensibilidade oficial. As políticas imigratórias implantadas por May têm um cerne nativista. No fundo, veiculam uma mensagem identitária sobre o Reino Unido. A mensagem é a seguinte: são britânicos apenas os “britânicos de sangue”, o que exclui os cidadãos negros das antigas colônias.

O desembarque dos jamaicanos do Windrush foi um evento notável. Alguns dos repórteres que o noticiaram tiveram a perspicácia de registrá-lo como o ato inaugural de um novo Reino Unido – moderno, cosmopolita e diverso. Sete décadas depois, o governo britânico gerado pelo plebiscito do Brexit acalenta a utopia regressiva de restaurar a nação anterior à guerra mundial.

 

 

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