CHERNOBYL

Monumento às vítimas

Monumento às vítimas de Chernobyl. Ao fundo, o edifício do reator que explodiu, envolto pelo sarcófago

 

SIGNIFICADOS DE CHERNOBYL

“Chernobyl se converteu no mais grave desastre tecnológico do século XX”, declara a jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksievitch, autora do livro Vozes de Chernobyl – a história oral do desastre nuclear. O tocante e vasto trabalho de entrevistas e depoimentos com as vítimas do mais desastroso acidente nuclear ocorrido até hoje lhe valeu um Prêmio Nobel de Literatura em 2015.

 A explosão do reator da Unidade IV da usina de Chernobyl, na Ucrânia, foi tão forte que rachou os pilares do que parecia até então ser o inabalável Estado Soviético. Mikhail Gorbachev, o responsável pelas reformas que conduziriam ao fim do Estado comunista, constatou: “Chernobyl mudou tudo”.  

Desde as bombas de Hiroshima e Nagasaki, lançadas sobre as duas cidades japonesas em 6 e 9 de agosto de 1945, a humanidade adentrou a era da energia nuclear e avançou um novo patamar em poder de destruição. Com a nova ordem mundial baseada na Guerra Fria, tornou-se impossível não pensar em uma nova guerra – a Terceira – capaz de exterminar a vida humana. A doutrina MAD (Mutual Assured Destruction), compartilhada pelas duas superpotências, prometia a destruição da vida humana caso alguém iniciasse a guerra nuclear.  

Nas décadas de 1970 e 1980, com mais estudos sobre a nova energia e seus efeitos, constatou-se que a radiação lançada na atmosfera pelos testes nucleares já era suficiente para causar problemas de saúde. As sociedades civis passaram a se mobilizar em torno desses novos problemas, resultando no surgimento do “movimento verde”, que uniu ecologia e militância política. Não por acaso, seu berço foi a Alemanha Ocidental, a metade do país dividido, que simbolizava a disputa bipolar entre as superpotências.

manifestação green party

Manifestação do Partido Verde, em Bonn, então capital da Alemanha Ocidental, em protesto contra a instalação de mísseis atômicos no país, em 1983

A energia nuclear, contudo, também se desenvolvia para fins pacíficos. Ela tanto ajuda a revolucionar a medicina quanto oferece uma alternativa à produção de eletricidade, até então dependente da poluente economia baseada na queima de combustíveis fósseis, como o carvão mineral e o petróleo.

Foi essa abordagem benéfica que justificou a criação das primeiras agências destinadas a estudar, regular e fiscalizar os usos da energia nuclear. A Euratom (ou CEEA, Comunidade Europeia de Energia Atômica) nasceu com os primeiros esforços de integração da Europa, em 1957. Nesse mesmo ano formou-se a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), associada à ONU. A catástrofe de Chernobyl comprovou o papel vital desses organismos e da cooperação internacional em horas críticas.

Hoje, 35 anos depois, observamos o descrédito do conhecimento científico e acadêmico e tentamos compreender o que está acontecendo. Svetlana Aleksievitch nos fornece uma pista. Ela considera que uma “herança nefasta” do acidente foi a prática dos porta-vozes soviéticos fazerem anúncios sem fundamento, enchendo a opinião pública de dúvidas e ceticismo. E conclui: “a explosão contaminou não apenas o solo e o ar, mas também a atmosfera política e a fé pública na ciência”.

 

O Armagedon

“Tudo o que foi escrito na Bíblia está se cumprindo. Até sobre o nosso kolkoz está escrito lá… E sobre Gorbachev… Que chegará um grande chefe com uma mancha na testa e que a grande potência se desmanchará. E logo chegará o juízo final.” (Vozes de Chernobyl, p. 76)

Chernobyl no mapa da Europa

Fonte: AIEA

Um artigo produzido pela ONU para marcar o dia do acidente de Chernobyl oferece os seguintes números: “quase 8,4 milhões de pessoas na Belarus, Ucrânia e Rússia foram expostas à radiação, o que é mais do que a população da Áustria. Cerca de 155 mil quilômetros quadrados de territórios nos três países foram contaminados, que é quase metade do território da Itália. Áreas agrícolas cobrindo quase 52 mil quilômetros quadrados, o que é mais do que o tamanho da Dinamarca, foram contaminadas com césio-137 e estrôncio-90, com meia-vida de 30 e 28 anos, respectivamente. Quase 404 mil pessoas foram reassentadas, mas milhões continuaram a viver em um ambiente onde a exposição residual contínua criou uma série de efeitos adversos.”

Já a historiadora Kate Brown, especializada no tema, descreveu o acidente de Chernobyl como o “réquiem do século XX”. Ela observou a seguinte consequência, no período soviético: aquela região fronteiriça, habitada por ucranianos, russos, poloneses, alemães e judeus em convívio relativamente pacífico, foi condenada e esvaziada de vida pelo acidente, num silêncio tão grande capaz de condensar toda a dor provocada por Holodomor, Gulag e extermínio

Chernobyl é símbolo de múltiplas catástrofes.

 

A explosão do reator n. IV

Na madrugada de 26 de abril de 1986, à 1:23, o reator e teto da Unidade IV da Central Elétrica Atômica de Chernobyl explodiram durante a realização de testes de segurança, deixando o núcleo do reator exposto, o que jamais deveria acontecer.

Danos no reator que explodiu

Uma nuvem carregada de detritos e partículas radioativas subiu ao céu, até a altura de um quilômetro. O incêndio se espalhou para o teto da Unidade III. Em cinco minutos, os 14 bombeiros da brigada local entraram em ação. Os bombeiros da vizinha cidade de Pripyat foram convocados. Dos 250 bombeiros disponíveis, 69 atuaram diretamente no controle do fogo, tendo sido expostos a doses mortais de radiação. Os engenheiros conseguiram desligar a Unidade III durante a madrugada; as Unidades I e II foram desligadas pela manhã.

Helicópteros foram utilizados para lançar produtos químicos sobre o reator carboneto de boro, dolomita, chumbo, argila e areia que deveriam absorver as partículas radioativas e ajudar a apagar o incêndio. Para poupar os pilotos de brutais doses de radiação, decidiu-se despejar os materiais durante o sobrevoo do reator. Mais tarde, investigações sobre o acidente concluíram que essa ação foi desastrosa, pois ajudou a danificar ainda mais algumas estruturas.  

 

Chuva ácida

Estudos sobre o impacto de bombas nucleares sugerem que a distância é o fator mais importante, do ponto de vista dos efeitos da radioatividade. Entre outras coisas, a distância torna maiores ou menores os efeitos da temível “chuva negra” ou “chuva ácida”. Assim é descrita a precipitação provocada pela explosão, que gera condensação e faz cair uma chuva repleta de moléculas radioativas, levando para o solo o que estava suspenso no ar.

A explosão em Chernobyl provocou chuvas no norte da Ucrânia, onde ficava a usina, e no sul da vizinha Belarus. Essas terras se transformaram em hotspots de contaminação, mas nem tudo foi acidental.

O responsável por acompanhar a radioatividade expelida pelo reator recebeu, após o acidente, um relatório mostrando um “rio aéreo” de dez milhas de largura. Ele cruzava pelo sul da Belarus e seguia em direção à Rússia. Se aquela massa de nuvens chegasse a Moscou, onde começavam a se formar as tempestades de primavera, milhões de pessoas seriam afetadas. O centro do poder soviético estaria ameaçado.

A solução para evitar tamanho desastre era fazer chover. Aviões da Força Aérea carregaram iodeto de prata e foram bombardear as nuvens. A chuva ácida veio como um dilúvio, até o amanhecer do dia 29. Para proteger os grandes centros urbanos da Rússia, como Voronezh, Yaroslavl e Moscou, foram sacrificadas vastas porções de terra e vidas na Ucrânia e na Belarus.

Chuva negra

Na Ucrânia, pilotos também fizeram voos para manipular as condições climáticas, mas em vez da precipitação sua missão era afastar as nuvens. Era preciso evitar que as chuvas de verão provocassem o transbordamento do rio Pripyat, um afluente do rio Dnieper, a principal artéria de água doce da Ucrânia. A chuva que não caiu ali nos meses seguintes foi levada pelos ventos para a Belarus, onde os verões são comumente mais chuvosos. A pequena república foi afogada em chuva radioativa.   

 

Liquidantes

Nas semanas e meses que se seguiram ao desastre de Chernobyl, bombeiros, engenheiros, militares, policiais, mineiros, faxineiros e equipes médicas foram enviados para a área. Eles foram os responsáveis pelo controle do fogo e do reator colapsado, e por evitar que o material radioativo se espalhasse ainda mais pelo ambiente. Essas pessoas heróis de muitas formas ficaram conhecidas como liquidantes. O termo surgiu da descrição oficial “participante na liquidação das consequências do acidente da usina nuclear de Chernobyl”.

Liquidadores

“Chegamos à central nuclear. Recebemos um uniforme branco e um capuz branco. E ataduras de gaze. Limpamos o território. Um dia esvaziávamos e raspávamos a parte baixa do reator, outro dia, a parte alta, o teto. Sempre com uma pá. Os que trabalhavam na parte alta eram chamados de ‘cegonhas’. Os robôs não aguentavam o trabalho, as máquinas ficavam loucas. Mas nós trabalhávamos. Às vezes descia sangue dos ouvidos, do nariz. A garganta ficava irritada, os olhos ardiam. Surgia um ruído constante e monótono nos ouvidos. Tínhamos sede, mas nenhum apetite. Os exercícios físicos eram proibidos para que não respirássemos radiação inutilmente. Íamos ao trabalho nas carrocerias abertas dos caminhões. Mas trabalhamos bem. E nos orgulhamos muito disso…” (Vozes de Chernobyl, p. 102)

Os registros oficiais indicam que 600 mil pessoas atuaram como liquidantes. A classificação assegurava um status diferenciado, como a garantia de assistência médica extra e prêmios muito acima de seus ganhos regulares.

Uma parte importante dos militares enviados para a região teve a função de evacuar as vilas, em muitos casos derrubando todas as casas com tratores para depois jogar terra e tentar controlar a radiação, algo tão eficaz como enxugar gelo. A violência simbólica desse ato não passou despercebida para ex-moradores e liquidantes. Mais uma vez, comunidades inteiras eram arrancadas violentamente de seus lares e desterradas, mas agora definitivamente proibidas de retornar porque a terra contaminada havia se tornado mortal.

 

O DIA SEGUINTE

“O mundo se dividiu: há os de Chernobyl, nós; e há vocês, o resto dos homens. Você notou? Nós já não distinguimos: eu sou bielorrusso, eu sou ucraniano, eu sou russo… Todos nos chamamos pessoas de Chernobyl. Nós somos de Chernobyl, eu sou de Chernobyl. É como se fôssemos um povo à parte… Uma nova nação.” (Vozes de Chernobyl, p. 172)

 

Radioatividade e mentiras em escala planetária

Dois dias depois da explosão, altos níveis de radiação foram detectados na Suécia, enquanto Moscou começou a negar qualquer problema. No dia 29, Polônia, Alemanha, Áustria e Romênia também registraram a radiação subitamente elevada, seguidos por Suíça, Itália, França, Bélgica e Reino Unido. No dia 3 a radiação foi detectada em Israel e Turquia; dia 4, na China; dia 5, na Índia; e, finalmente, dia 6, nos EUA e no Canadá. O problema se tornou mundial. 

Capas de jornais

Jornais britânicos anunciam a catástrofe, negada inicialmente pelas autoridades soviéticas

Mikhail Gorbachev era o líder novato do governo soviético: assumira o cargo de secretário-geral do PCUS em março de 1985, aos 54 anos. O novo líder adotou inicialmente um “modo automático” de governar. Só admitiu publicamente o acidente no dia 14 de maio, quase três semanas depois, porque o Partido decidira só admitir o que fosse irrefutável. E a ideia de uma verificação externa simplesmente não existia, pois Moscou jamais permitiria. Mas a tentativa de ocultar a verdade naqueles dias foi seguidamente desmoralizada, à medida que a radioatividade envolvia o planeta e todos os marcadores mundiais apitavam.

O comportamento burocrático padrão havia se tornado quase homicida. O acidente nuclear, contudo, trazia um novo tipo de dano, não definitivo e contábil, como a morte, mas invisível e perverso, por meio das mais diversas doenças decorrentes dos efeitos da radioatividade sobre o corpo humano. A circunstância de que o número de mortos no acidente foi baixo impediu que se entendesse e dissesse com todas as letras que o que aconteceu com as pessoas afetadas pelo acidente também foi um crime de Estado, como demonstram os relatórios produzidos pelas agências nucleares.

 

Alertar ou esconder?

Pripyat antes

Pripyat foi construída no início dos anos 1970 para servir de base para a usina nuclear a ser construída em Chernobyl

“Toda informação se tornava um segredo guardado a sete chaves para não ‘provocar pânico’. E isso durante as primeiras semanas. Justamente quando os elementos de vida curta emitiam a sua maior radiação, e tudo ‘irradiava’. Nós fazíamos relatórios incessantemente. Incessantemente. Mas não podíamos dar os resultados de forma aberta. Cassavam o seu título universitário e até a carteira do Partido. Mas não era o medo… O medo não era a razão, embora influísse, claro. É que éramos homens do nosso tempo, do nosso país soviético. Acreditávamos nele; toda a questão está na fé. Na nossa fé. Acredite, não era por medo. Não era só por medo.” (Vozes de Chernobyl, p. 254)

Horas após a explosão, as autoridades ordenaram a completa evacuação da cidade de Pripyat, onde vivia a maioria dos trabalhadores da usina nuclear. Eles sabiam que a situação era mortal. O Exército mobilizou 1,2 mil ônibus para transportar quase 50 mil habitantes, mas a operação demorou duas semanas para começar de fato.

Nesse tempo, os evacuados respiraram o iodo radioativo, beberam o leite e enxugaram o suor empoeirado. Crianças, cujos corpos são menores e absorvem minerais mais eficientemente do que adultos, receberam de três a cinco vezes mais iodo radioativo do que adultos.  Os militares disseram à população que não pegasse nada além de documentos e alguma comida, pois seria uma retirada breve. As autoridades sabiam que tudo estava absurdamente contaminado de radiação.

Ao decidir quais áreas seriam evacuadas depois do acidente, os comissários  seguiram a lógica convencional de um plano para casos de bombardeio aéreo, sem levar em conta as especificidades de um acidente nuclear. Eles desenharam um raio de trinta quilômetros ao redor da usina dentro do qual todas as pessoas deveriam ser removidas.

Pripyat depois

A cidade vibrante transformou-se em cidade fantasma

A tragédia vivida pelo “povo de Chernobyl” prosseguiu, pois a maioria foi reassentada em regiões que registravam níveis de radiação ainda maiores do que em Pripyat, por causa do efeito da chuva ácida. Hoje, a cidade que um dia representou o sonho do desenvolvimentismo soviético é oficialmente inabitável.

Apesar das garantias de que a situação em Chernobyl estava sob controle, o Politburo temia a contaminação radioativa se espalhando por Moscou. Assim, decidiram banir a entrada de qualquer alimento proveniente das regiões afetadas pela radiação. Decidiram também que passageiros chegando de trem dessas mesmas áreas deveriam ter sua radioatividade inspecionada.

Logo após o acidente, em junho, o governo decidiu construir uma “caixa” de concreto capaz de conter parcialmente a radiação emitida pelo núcleo exposto do reator. Essa estrutura ficou conhecida como “sarcófago” e estava pronta em novembro.

Sarcófago

Sarcófago cobre o edifício da Unidade IV, onde fica o reator que explodiu

 

Quantas vítimas?

A energia ionizante liberada pela explosão nuclear altera e mata as células do corpo. Mesmo células não afetadas diretamente pela radiação são danificadas, pois o modo como as células se comunicam determina a forma como se reproduzem e funcionam. A energia radioativa esfacela as cadeias de DNA, complicando o reparo celular. Células danificadas fazem falhar as interações sinápticas dos neurônios. A radiação, em resumo, faz com que o corpo falhe em diversos níveis, de dentro para fora.

Quantas foram as vítimas do acidente nuclear em Chernobyl? A resposta continua sendo objeto de debates. O governo soviético e, depois, russo, considera apenas as mortes provocadas diretamente pelo impacto da explosão. Outros organismos costumam levar em conta o número de afetados indiretamente, sobretudo pela radiação. A cada ano, por conta da radiação recebida, cresce o número de casos de câncer, deficiência mental, disfunções neuropsicológicas e mutações genéticas.

O comitê científico da ONU (Unscear) reconhece oficialmente 30 mortes entre os operários e bombeiros, vítimas da radiação imediatamente após a explosão. O Greenpeace calculou, em 2006, quase 100 mil mortes provocadas pelos efeitos radioativos da catástrofe. Já o Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação estima que quase cinco milhões de cidadãos da URSS, 3 milhões na Ucrânia e 800 mil na Belarus, tenham sido afetados fisicamente pelo desastre de Chernobyl. 

crianças na Belarus

Como explicar-lhes?

No fim do verão de 1986, os hospitais de Moscou já haviam atendido 15 mil pessoas expostas à radiação de Chernobyl. Em Kiev, Gomel, Zhytomyr e Minsk, 40 mil pessoas deram entrada em hospitais pela mesma razão. Metade das 11,6 mil pessoas tratadas em Belarus eram crianças.

Na Ucrânia, as taxas de mortalidade das pessoas atingidas pela radiação aumentaram entre 1988 e 2012, passando de 3,5 para 17,5 mortes por mil. A incapacidade entre os liquidantes também disparou. Em 1988, 68% deles eram considerados saudáveis, enquanto 26 anos depois apenas 5,5% se mantinham com boa saúde. A maioria – 63% – sofria de doenças cardiovasculares e circulatórias, enquanto 13% tinham problemas relacionados ao sistema nervoso.

Em janeiro de 2018, 1,8 milhão de pessoas na Ucrânia, incluindo 377.589 crianças, tinham o status de vítimas do desastre. O governo da Belarus, por sua vez, registrou 99.693 liquidantes. Já os diagnosticados com câncer, até 2008, foram 40.049.

Quando os médicos ucranianos examinaram as mulheres grávidas das áreas contaminadas, logo após o acidente, notaram que estavam anêmicas e com as tireoides inchadas. Eles recomendaram a muitas que abortassem seus filhos. Além desses abortos induzidos, o número de abortos espontâneos, hemorragias, complicações no parto e bebês prematuros oriundos de regiões contaminadas aumentou muito durante o verão de 1986. Os recém-nascidos, por sua vez, eram mais doentes, pequenos e pesavam menos que a média.

Bombeiros vão por conta própria combater um incêndio. Eles aceitaram a natureza arriscada de sua profissão. Os primeiros “heróis” de Chernobyl eram heróis porque eles deram a vida para salvar o mundo do maior desastre de mais explosões na usina. Essa é uma narrativa fácil de vender; difícil são as crianças com feridas radioativas. Crianças não sabem o que é a radiação. Se crianças são expostas, são vítimas de um Estado negligente, nesse caso, o Estado Soviético, que se promovia como protetor de todas as crianças.

 

Belarus, vítima involuntária

As medidas de emergência focaram largamente a Ucrânia, onde se situa Chernobyl, enquanto a república vizinha da Belarus, cuja parte sul é bastante próxima da usina nuclear e sofreu contaminação muito maior, foi deixada em segundo plano. Para se ter uma ideia, enquanto a Belarus teve 23% de seu território contaminado pela radiação, a Ucrânia teve 4,8% e, a Rússia, apenas 0,5%.

No terceiro aniversário do acidente, em abril de 1989, mais de 2 milhões de bielorrussos continuavam a viver em áreas contaminadas. Naquele ano, uma incipiente oposição bielorrussa tentou organizar uma manifestação na capital, Minsk, para lembrar as vítimas esquecidas de seu país. O governo comunista, em resposta, encheu a cidade de bandeiras vermelhas e instalou tendas nas ruas com produtos que estavam em falta, como frios defumados, bombons de chocolate, pacotes de café solúvel.

Manifestação em Minsk, 1990

Manifestação em Minsk contra Moscou – Chernobyl ajudou a fortalecer discurso separatista

A velha KGB circulava entre a multidão, enquanto agentes à paisana fotografavam os presentes em claro ato de intimidação. As pessoas, contudo, já não os temiam mais. Centenas, depois milhares – 20 a 30 mil, segundo cifras dos informes policiais, logo transmitidas pela televisão – se reuniram no parque Tcheliuskintsev, na primeira manifestação espontânea da sociedade civil bielorussa, naquele marcante ano de 1989 que terminaria com a queda do Muro de Berlim.

 

A LUZ QUE CEGA E A TRANSPARÊNCIA

Logo após o acidente, o parlamento soviético instituiu uma comissão parlamentar para investigar as causas do acidente de Chernobyl. Chefiada pela parlamentar Alla Yaroshinskaya, durante dois anos a comissão teve acesso especial aos arquivos do Partido Comunista. O relatório comprovava um longo rastro de negligência criminosa no alto da hierarquia soviética. Contudo, aquelas informações eram segredo de Estado, compartilhado apenas pela cúpula do Partido.

Até que, em 1989, um Gorbachev já plenamente comprometido com a reforma do sistema político soviético levantou o sigilo. O primeiro documento consultado por todos foi o relatório parlamentar. Yaroshinskaya passou a escrever artigos sobre o acidente e suas consequências e chegou a se eleger deputada, em 1991, prometendo defender as vítimas. Foi a partir daí que a mídia internacional soube o que realmente havia acontecido em Chernobyl, embora o governo soviético continuasse a minimizar sua própria negligência.

Esse aspecto fundamental foi confirmado por investigações posteriores sobre o acidente: o regime comunista soviético, com seu gigantismo burocrático e sistema policialesco era o maior responsável pela tragédia. Havia ordens superiores mas, principalmente, a tendência generalizada das pessoas ocultarem os problemas de seus chefes, temendo punições. A Sibéria, afinal, não era um lugar tão distante. 

Em depoimento posterior, o ministro da energia, Anatoly Mayorets declarou: “O reator não prestava. Teve outro acidente similar na usina de Leningrado, em 1975. Ninguém nunca tentou lidar com o problema. Mesmo em Chernobyl já tinha ocorrido, em 1982, mas não houve vazamento de material radioativo naquela ocasião. Nós não aprendemos nada com aquele acidente também. As fontes estrangeiras mostram que o Ocidente já tinha simulado o acidente de Chernobyl. O que nós fizemos? Continuamos mentindo para a AIEA.”

Gorbatchev visita Chernobyl

Mikhail Gorbatchev e sua esposa, Raíssa, visitam Chernobyl em 1989

A irrupção de um evento tão drástico como o acidente nuclear na usina de Chernobyl teve um papel importantíssimo na decisão de Gorbachev em lançar a Glasnost, que significa “transparência”. O líder soviético não apenas compreendeu as implicações do antigo modelo de governo, como, sobretudo, entendeu que a incredulidade da população frente às autoridades não poderia ser controlada por mais tempo na base da manipulação da informação e do medo.

 

Relatórios de organizações especializadas

A primeira comissão de investigação organizada pela AIEA reuniu-se em Viena, ainda em 1986, e contou com a presença de representantes soviéticos. Com base em análises e informações indiretas, a conclusão foi “falha humana”. Os empregados da usina estavam preocupados com a produção de eletricidade, que retornava na forma de bônus salariais, em detrimento da segurança. Eles deliberadamente violaram regras de procedimento e desligaram alguns sistemas de segurança importantes. Um tribunal soviético, ainda em 1986, condenou três funcionários pelo acidente.

Para a World Nuclear Association, o acidente foi produto da falta de cultura de segurança. Seu relatório confirma que o projeto do reator era ruim do ponto de vista da segurança, e que os técnicos, além de não cumprirem procedimentos operacionais padrão, desconheciam a possibilidade do teste realizado naquele dia colocar o reator em condição explosiva.

Valery Legasov

Em 1988, logo após o segundo aniversário do acidente, Valery Legasov, um dos mais renomados cientistas soviéticos, responsável pela elaboração do primeiro relatório sobre as causas do acidente, se suicidou. Ele não suportou a recusa das autoridades em adotar  novos procedimentos de segurança. Deixou gravada uma série de depoimentos contando o que não podia ser escrito nos documentos oficiais.

Legasov: “Depois de visitar Chernobyl (NPP I) chegou-se à conclusão de que o acidente foi a apoteose inevitável do sistema econômico que se desenvolveu na URSS ao longo de muitas décadas. O descaso por parte da gestão científica e dos projetistas estava por toda parte, sem atenção para o estado dos instrumentos ou dos equipamentos… Quando se considera a cadeia de eventos que levaram ao acidente de Chernobyl, por que uma pessoa se comportou dessa maneira e por que outra pessoa se comportou de outra, é impossível encontrar um único culpado, um único iniciador de eventos, porque era como um circuito fechado.”

O fim da União Soviética, em 1991, ensejou um novo relatório da AIEA, publicado em 1992. Ali, o acidente é avaliado como o resultado da simultaneidade dos seguintes fatores principais: características físicas do reator; características do projeto dos equipamentos de controle do reator; o fato do reator ter sido levado a um estado não especificado por procedimentos; a falta de inspeções realizadas por um organismo de segurança independente.  

 

Desativação

A usina nuclear de Chernobyl continuou a funcionar por muito tempo depois do acidente, tendo sido desativada por força dos riscos continuados e da pressão internacional. 

Em 1991, um incêndio de grandes proporções destruiu o reator da Unidade II, interrompendo definitivamente suas atividades. Em 1994, uma comissão da AIEA inspecionou a usina e encontrou várias deficiências de segurança nos dois reatores ainda em funcionamento. Além disso, o sarcófago estava ruindo.

No ano seguinte foi elaborado um protocolo de acordo entre a Ucrânia e as nações mais industrializadas do mundo (G7) para o encerramento das atividades da usina, em troca de assistência econômica. Ainda assim Chernobyl manteve a produção de energia elétrica até dezembro de 2000, quando a Unidade III foi desativada.

Um novo contrato de cooperação internacional foi assinado em 2007, destinado à construção de um novo abrigo para substituir o sarcófago. A gigantesca estrutura de aço, batizada Arca ficou pronta em 2017.  

Arca

A superestrutura se estende 1,5 km acima do chão, custou 2 bilhões de euros e está prevista para durar um século

 

Terra de ninguém

Alguns depoimentos de pessoas que permaneceram ou se mudaram para a área de exclusão de Chernobyl retirados do livro Vozes de Chernobyl:

“O país está um bordel, e as pessoas fogem para cá. Fogem dos homens. E da lei. E vivem sozinhas. Gente estranha. De rosto sério, não tem bondade nos olhos. E quando se embriagam, podem pôr fogo na sua casa. À noite, dormimos com facões e machadinhas debaixo da cama. Na cozinha, perto da porta, guardamos um martelo.” (p. 78)

“Por que viemos para cá? Para Chernobyl? Porque daqui já não vão nos expulsar. Dessa terra, não. Porque já não é terra de ninguém. Deus a tomou. As pessoas a abandonaram.”, explicou a senhora russa que viveu boa parte da vida no Tadjiquistão e foi para Chernobyl depois que os conflitos étnicos na Ásia Central levaram sua família a fugir. (p. 91)

Mulheres bielorussas

Mulheres residentes na área de exclusão de Chernobyl. Uma terra de muitos ninguéns

Lena, mãe de cinco crianças: “Nós tínhamos uma pátria, agora não temos mais. Quem sou eu? A minha mãe era ucraniana e o meu pai, russo. Nasci e cresci na Quirguízia, o meu marido é tártaro. Quem são os meus filhos? Qual a nacionalidade deles? (…) Está escrito que somos russos, mas não somos! Nós somos soviéticos! No entanto, a pátria em que nasci não existe mais. (…) Tenho cinco filhos. Eu os trouxe para cá. (…) Um dia, de manhã cedo, escuto batidas de martelo na casa da vizinha, estão retirando as tábuas da janela. Vejo uma mulher e pergunto: ‘De onde vocês são?’. ‘Da Chechênia’. E não diz mais nada. As pessoas que encontro se assustam. Não compreendem. ‘O que você está fazendo com as crianças? Vai matá-las. Isso é suicídio.’ Eu não estou matando as crianças, estou salvando-as. Veja, tenho quarenta anos e os meus cabelos estão totalmente brancos. Quarenta anos! Uma vez, esteve aqui um jornalista alemão e me perguntou: ‘Você levaria seus filhos para um lugar em que houvesse peste ou cólera?’ Que peste, que cólera! Eu não conheço esse medo que existe aqui. Não o vejo. Ele não existe na minha memória… Tenho medo é dos homens… De homens armados…” (p. 95-97)

*****

No total, cerca de 150 mil quilômetros quadrados da Belarus, Rússia e Ucrânia são considerados contaminados, e a zona de exclusão de 4 mil quilômetros quadrados, uma área com mais que o dobro do tamanho de Londres, permanece praticamente desabitada. Estima-se que serão necessários cerca de 24 mil anos para que a terra e a água estejam novamente aptas para o consumo humano.

Em 2013, o governo ucraniano abriu a área confinada à visitação pública. Atualmente, 10 mil turistas visitam Chernobyl a cada ano.

Pé de elefante

Pé de elefante: massa nuclear resultante da explosão do reator de Chernobyl. Também chamada de medusa nuclear, é considerada o objeto mais tóxico do mundo. Será esse tipo de emoção que os visitantes buscam?

 

SABER MAIS

  • BROWN, Kate. “Manual for Survival: A Chernobyl Guide for the Future“. Nova York/Londres: W. W. Norton & Company, 2019. 
  • ALEKSIÉVITCH, Svetlana. “Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear“. Companhia das Letras, 2016.  
  • Cronologia do acidente: linha do tempo com todos os detalhes do acidente
  • Acidente de Chernobyl: artigo sobre os fatos relacionados ao acidente nuclear, enfatizando os aspectos físico-químicos da explosão do reator e o impacto da radiação nos seres humanos    
  • A Arca Timelapse – L’arche de confinement de Tchernobyl em place
  • Chernobyl Heart (2003). Documentário de Maryann DeLeo vencedor de vários prêmios, inclusive um Oscar em 2004. No filme, a diretora viaja pela Ucrânia e Belarus com Adi Roche, fundador do Chernobyl Children’s Project International, e observa os efeitos do desastre nuclear sobre as crianças
  • Site da AIEA – Chernobyl

 

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