CABO DELGADO, EM MOÇAMBIQUE, VAI EXPLODIR (5/4/2021)

 

Elaine Senise Barbosa

 

Forças do grupo jihadista Al-Shabaab deram mais um passo rumo ao controle de posições estratégicas na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Após um ataque pesado à cidade de Palma, em 24 de março, a organização demonstrou ter ganho musculatura em comparação com abril do ano passado, quando atacou a vila de Mocimboa da Praia, na mesma província, um pouco mais ao sul.  

soldados do Al-Shabaab

Soldados do Al-Shabaab, grupo que também é conhecido em Moçambique como Ansar al-Sunna

Se daquela vez a ação terminou com a retirada dos invasores, incapazes de sustentar militarmente a posição, de lá para cá eles aprenderam a aterrorizar os civis destruindo suas casas, matando e violentando mulheres. Agora, surgem relatos de decapitação de meninos na faixa dos 12 anos.

Os homens do al-Shabaab preveem que será mais fácil controlar a região com essas áreas esvaziadas. Civis fogem desesperados para outras províncias, enquanto é pífia a capacidade do governo em fornecer assistência às vítimas – se é que de fato existe vontade de ajudar uma região historicamente discriminada pelos donos do poder instalados na capital, Maputo.    

Segundo artigo publicado no site Voanews.com, “as Nações Unidas estimam que 1,3 milhão de pessoas precisam urgentemente de assistência humanitária na área. Quase 950 mil pessoas estão lidando com fome severa. Em 2020, quase 580 mil pessoas foram forçadas a fugir de suas casas em meio à violência que viu insurgentes matando membros do alto escalão das forças de segurança nacional. A violência destruiu meios de subsistência, perturbou os mercados e fez subir os preços de bens essenciais. O cólera está aumentando e a violência destruiu 36% das instalações de saúde da região.”

A violência em Cabo Delgado vem aumentando desde 2017 e os ataques do Al-Shabaab são apenas a face mais visível do problema, porque conecta os eventos em Moçambique ao fenômeno do jihadismo internacional.

Estudiosos do tema e consultores de grandes empresas parecem estar de acordo com duas coisas. Primeiro: não se sabe exatamente como a organização se formou ali, mas tudo indica que, na origem, eram pequenos grupos radicalizados, formados por jovens, em desafio à corrente islâmica predominante em Cabo Delgado.  Segundo: depois de perder o controle sobre os territórios conquistados no Iraque e na Síria, o Estado Islâmico parece ter mudado sua estratégia, para se concentrar em grupos de organização local, mas que juraram lealdade à organização terrorista e seu líder Abu Bakr al-Baghdadi. É o caso do Al-Shabaab.

 

A armadilha da economia monoexportadora

O jihadismo nunca deitou raízes profundas na África Subsaariana. A grande questão africana na era pós-colonial tem sido como escapar da armadilha do subdesenvolvimento com uma economia monoexportadora baseada em produtos primários?  Como trazer um mínimo de benefícios duradouros para as suas sociedades, impedindo que a riqueza gerada seja desviada para guerras fratricidas ou para níveis vergonhosos de corrupção?

MozambiqueMap

Fonte: The Economist, 4 de abril de 2020

Porque é disso que se trata. Guarde esse nome: Cabo Delgado. A província, que faz fronteira com a Tanzânia, será cada vez mais conhecida. Um projeto multinacional e multibilionário destinado a explorar imensas bacias de gás em alto mar tem capacidade para induzir grandes mudanças. A escala de investimentos é da ordem de US$ 60 bilhões e gigantes do setor petrolífero como a americana ExxonMobil e a francesa Total são alguns dos parceiros da iniciativa.

Palma fica a apenas 10 quilômetros da área a ser explorada. A Total anunciou, após o ataque da semana retrasada, a suspensão de todas as atividades na região, já semiparalisadas desde janeiro.

A implantação do jihadismo reflete as crescentes tensões sociais em Cabo Delgado. O valor do projeto é um convite à alta corrupção, um fenômeno marcante em Moçambique. A riqueza surge em uma região tradicionalmente pobre e ignorada pelos governantes, que continuam na miséria, excluídos das oportunidades de emprego nos novos empreendimentos bilionários. 

Homens jovens estão sendo atraídos para movimentos jihadistas ou para milícias paramilitares que se organizam e se financiam de acordo com a capacidade de controle sobre partes do território. As de maior sucesso operam na zona de investimentos, cobrando pedágios e vendendo “proteção”.

A responsabilidade maior pela crise cabe aos governos da Frelimo, o partido que governa desde a independência e – como, antes, os colonizadores portugueses – sempre discriminou o norte muçulmano. Até hoje o presidente Filipe Nyusi e seus porta-vozes negam a presença de forças islâmicas na região, bem como os ataques, que ocorrem desde 2015. Agora, as forças de segurança estão envolvidas em uma operação para reprimir a “contra-informação”, como o governo trata as notícias sobre as violências. 

 

Quem são os inimigos?       

De modo geral, o governo tem agido de modo muito perigoso do ponto de vista da garantia dos direitos fundamentais dos cidadãos, um conceito pouco enraizado nos aparatos de Estado de todo o continente, onde as ações de repressão policial e militar costumam ser marcadas por violências e arbitrariedades contra a população indefesa. As forças de segurança enviadas para a província de Cabo Delgado tratam a população, de maioria muçulmana, como inimiga, acumulando acusações de abusos contra civis.

As abordagens truculentas não se destinam exatamente a combater “terroristas”. O que está em jogo é o tamanho da fatia do bolo que eles podem abocanhar mantendo o território sob controle.

E piora… Sendo poucos os recursos disponíveis pelo Estado moçambicano, as empresas que investem em Cabo Delgado trataram de organizar suas próprias forças privadas de segurança. Com a conivência governamental à sua atuação e a seus abusos, são mais um componente do jogo político que se desenrola no país.

 

Apoio de Moscou

Coincidentemente, o governo russo está transformando em doutrina diplomática o que eles chamam de “modelo da Síria”, segundo o qual a Rússia deve apoiar regimes ameaçados internamente ou até certo ponto isolados no cenário mundial. Vladimir Putin investe no recuo dos Estados Unidos no continente para explorar oportunidades de reinserção na política africana, como já tem feito no Sudão e na República Centro-Africana.

Logo usado nos uniformes dos mercenários do Grupo Wagner

Ao que tudo indica, o governo moçambicano optou por confiar em mercenários russos para ajudar a conter a violência e proteger as vastas reservas de gás natural. Evidentemente, todos – Moçambique, a Rússia e os investidores em Cabo Delgado – negam a interferência dos mercenários estrangeiros.

Há, contudo, fatos inegáveis. Em outubro de 2019, um ataque rebelde resultou na morte de mais de 20 seguranças, cinco dos quais eram russos, todos a serviço do Grupo Wagner, uma empresa militar privada ligada ao Kremlin. Procurado à época, o governo de Moçambique não quis comentar, enquanto Moscou negou oficialmente que seus soldados estivessem em Moçambique.

“O Grupo Wagner de Yevgeny Prigozhin é quase como um braço oficial da política de Estado na Rússia. Quero dizer, obviamente não é oficialmente reconhecido, mas mesmo assim seus serviços podem ser um proxy para o Kremlin”, disse Michael Carpenter, diretor sênior do Penn Biden Center for Diplomacy and Global Engagement. “Quando Prigozhin entra e fornece serviços de consultoria, sejam serviços de proteção pessoal a um ditador, ou serviços de apoio eleitoral, ou mercenários que podem ser úteis na proteção de certos ativos estratégicos em um determinado país, ele abre o caminho para outras corporações russas… fazerem negócios nesses países”.

 

E tem mais

Situam-se em Cabo Delgado as maiores jazidas mundiais de puríssimo rubi, que também tem sido vorazmente explorado, produzindo disputas e violências ao seu redor.

O rubi, de pequeno porte e altíssimo valor, é mercadoria fácil de ser contrabandeada. Dar suporte a essa atividade altamente lucrativa, bem como ao tráfico de marfim e madeira igualmente comuns na região, pode render o suficiente para financiar ambições maiores, como a recriação do Estado Islâmico. Ou para financiar pequenos chefes de milícias locais, cujas rivalidades impedem a constituição de uma grande força se instalando na área e atrapalhando os negócios.

Nesse momento, Cabo Delgado é o bezerro de ouro prestes a ser destroçado. E a população local, constituída essencialmente por mulheres e crianças, é quem vai ser tingida de sangue.

Cabo Delgado-refugiados

 

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