NA GRÉCIA, O JULGAMENTO DO NEONAZISMO

 

Demétrio Magnoli

12 de outubro de 2020

 

O neonazismo não é um partido, mas uma organização criminosa. Esse é o sentido da sentença pronunciada pela Corte de Apelação de Atenas, na Grécia, que condenou os líderes do Aurora Dourada. Na rua, diante do tribunal, milhares de manifestantes celebraram a decisão de 7 de outubro, erguendo cartazes com os dizeres “Nazistas na prisão” e “O medo não vencerá”.

O inquérito começou em 2013, deflagrado pelo assassinato do rapper antifascista Pavlos Fyssas, na cidade portuária de Pireu. O músico foi perseguido por uma gangue, encurralado e esfaqueado. Giorgos Roupakias, um militante do Aurora Dourada, confessou o crime.

Nikos Michaloliakos, o líder extremista condenado pelo tribunal de Atenas

Mas a investigação foi além, revelando o envolvimento direto da cúpula do partido extremista com aquele e com outros atos criminosos. Cinco militantes foram sentenciados por tentativa de homicídio contra três pescadores egípcios, em 2012, e outros quatro por ataques violentos contra sindicalistas ligados ao Partido Comunista grego. No fim, o tribunal condenou o principal líder do Aurora Dourada, Nikos Michaloliakos, e seis ex-deputados do partido, por dirigirem uma gangue criminosa.

O veredicto é, no fundo, sobre o neonazismo. Magda Fyssa, mãe do músico assassinado, reagiu ao veredicto com um grito: “Meu Pavlos, sozinho, os derrotou”. O primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis declarou que a sentença encerrou “um ciclo traumático na vida pública do país”. De fato, o partido/gangue foi batido duas vezes – a segunda, pelos juízes; a primeira, pelos eleitores.

 

Zero deputados

O Aurora Dourada foi fundado em 1985, como partido da extrema-direita nacionalista que erguia a bandeira do expansionismo pan-helênico. No início da década de 1990, seu programa almejava a incorporação à Grécia da Macedônia (atual Macedônia do Norte), da Albânia meridional e do sul da Bulgária.

O Islã aparecia como inimigo existencial da Grande Grécia sonhada pelos neonazistas. Um objetivo final seria a “reconquista” de Constantinopla (a Istambul turca) para o mundo cristão. O partido recrutou voluntários para a Guarda Grega, uma milícia que operou na Guerra da Bósnia, entre 1993 e 1995, combatendo os muçulmanos ao lado das forças sérvias. Há indícios de que milicianos gregos participaram do Massacre de Srebrenica.

A crise financeira que atingiu a Zona do Euro em 2010 impulsionou o partido extremista. Nas eleições locais de novembro daquele ano, o Aurora Dourada obteve mais de 5% dos votos em Atenas e, em maio de 2012, quando a Grécia atravessava profunda depressão econômica, atingiu 7% dos votos nas eleições nacionais, conseguindo 21 cadeiras parlamentares. Sua plataforma anti-imigração e de repúdio à União Europeia propiciou a conquista de 17 cadeiras nas eleições nacionais de 2015, quando se tornou o terceiro maior partido no Parlamento Helênico.

Manifestação do Aurora Dourada, em Atenas, nos anos áureos do partido neonazista

Foram os anos do zênite do neonazismo, seguidos por célere decadência. Os atos de violência perpetrado por gangues ligadas ao partido afastaram grande parte de seus eleitores. Nessa moldura, alguns dirigentes cindiram para formar um partido nacionalista menos extremista, inspirado pelo italiano Matteo Salvini, líder da Liga. Nas eleições europeias de 2019, o Aurora Dourada não atingiu 5% dos votos na Grécia e, nas eleições parlamentares, menos de 3%.

Zero deputados. Os eleitores enterraram o partido neonazista antes dos juízes o classificarem como organização criminosa. Em julho de 2019, Michaloliakos anunciou que “o Aurora Dourada não acabou” – mas, logo depois, sua sede em Atenas foi fechada e seu site tornou-se inacessível.

O autoritarismo de direita e o ultranacionalismo pan-helênico têm longa história na Grécia. Os fundadores do Aurora Dourada inspiravam-se em Ioannis Metaxas, um aristocrata e oficial militar que combateu na Guerra Greco-Turca de 1897 e nas Guerras Balcânicas de 1912-13 antes de se tornar ditador do chamado Regime de 4 de Agosto, entre 1936 e 1941. Também celebravam o ditador Georgios Papadopoulos, líder do golpe militar de 1967 e do Regime dos Coroneis, que duraria até 1974.

Ao contrário do que proclamou o condenado Michaloliakos, o Aurora Dourada está morto. Mas as sementes do extremismo de direita não foram arrancada do solo grego.

 

 

 

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