UMA PUNHALADA NAS COSTAS (21/10/2019)

 

Demétrio Magnoli

 

“Uma punhalada nas costas”, disseram os líderes dos curdos sírios quando as colunas de blindados turcos cruzaram a fronteira, em 9 de outubro. Eles não se referiam a Recep Erdogan, o presidente da Turquia, que dias mais tarde prometeria “esmagar os crânios” dos combatentes curdos, mas ao presidente americano Donald Trump.

A definição não poderia ser mais precisa: num ato poucas vezes visto, os EUA abandonaram seus aliados à própria sorte, deixando-os à mercê de forças incomparavelmente superiores. “O que fizemos com os curdos permanecerá como uma mancha de sangue nos anais da história americana”, registrou o senador republicano Mitt Romney, candidato à presidência em 2012. 

As Forças Democráticas Sírias (SDF), cujo núcleo são as Unidades de Proteção Popular curdas (YPG), formaram a infantaria da guerra contra o Estado Islâmico. Os combatentes curdos tiveram o apoio de pequenos grupos de forças especiais dos EUA e dos bombardeios aéreos americanos. Mas foram eles que lutaram em terra e derrotaram a organização jihadista.

Recep Erdogan com Donald Trump

Recep Erdogan com Donald Trump

Sem os curdos, a longa campanha teria cobrado as vidas de soldados americanos. Agora, Trump paga a dívida de guerra com um gesto de abjeta traição.

“Não temos amigos, só as montanhas”, concluiu Azad Cudi, um atirador de elite das YPG. A ofensiva turca foi deflagrada logo após um intempestivo anúncio do governo americano de que retiraria suas forças especiais de território sírio. Há duas interpretações possíveis para os eventos – e nenhuma delas salva a face dos EUA.

Trump pode ter agido simplesmente por motivações domésticas. A retirada de tropas em operação nos teatros de guerra estrangeiros faz parte de sua estratégia de marketing eleitoral e, além disso, obedece a seus impulsos isolacionistas. Nessa hipótese, a ofensiva de Erdogan pegou o presidente americano de surpresa, o que revelaria uma vez mais o primitivismo de sua apreensão dos assuntos internacionais.

A hipótese alternativa é que a retirada americana e a ofensiva turca derivaram de um acerto oculto entre Trump e Erdogan. Há fortes razões para acreditar nisso. Erdogan segue um curso de aproximação estratégica com a Rússia de Vladimir Putin, colocando em risco a posição turca de integrante da OTAN. A punhalada nas costas dos curdos contribuiria para reaproximar a Turquia dos EUA, reduzindo a influência russa no Oriente Médio.

Combatentes curdas do YPG

Combatentes curdas do YPG

Qualquer que tenha sido a motivação principal de Trump, os resultados são desastrosos. Sob o ponto de vista geopolítico, a traição de um aliado militar tem impacto devastador para a credibilidade dos EUA. Os curdos trocaram o combate ao Estado Islâmico pela proteção tácita oferecida pelos EUA. A mensagem do presidente americano é que os EUA não são um parceiro confiável. Não são apenas os curdos que a ouviram.

Já sob o ponto de vista dos direitos humanos, o gesto de Trump provoca uma nova crise humanitária de grandes dimensões no cenário da tragédia síria.

 

Erdogan e os curdos

Erdogan utiliza sempre a palavra “terroristas” para fazer referência aos combatentes curdos. Contudo, na operação em curso, as força turcas bombardeiam povoados curdos, espalhando o terror entre civis. Dez dias após o início da ofensiva, segundo as grosseiras estimativas disponíveis, algo entre 160 mil e 300 mil pessoas já tinham fugido de suas casas. O presidente turco não se preocupa muito em separar os “crânios” de combatentes armados dos “crânios” de civis desarmados.

Os curdos são uma nação sem Estado. Eles habitam o norte do Iraque, o nordeste da Síria, o sudeste da Turquia e o noroeste do Irã, além de regiões fronteiriças da Armênia. A maioria do povo curdo, cerca de 20 milhões de pessoas, vive na Turquia.

O temor do separatismo curdo é um motor profundo do nacionalismo turco. Na campanha em curso, Erdogan pretende estabelecer uma zona-tampão entre a Turquia e as áreas sírias controladas pelos combatentes curdos.

Ofensiva turca na Síria

Fonte: BBC

Contudo, o fantasma do separatismo curdo cumpre uma função política essencial para o presidente turco. Na sua marcha autoritária, Erdogan degradou a nascente democracia, implantando um regime semi-ditatorial. Seu poder, porém, encontra-se ameaçado por uma crescente erosão de apoio popular, que deriva da recessão econômica. Nesse contexto, o combate aos “terroristas” curdos funciona como toque de reunião do nacionalismo turco.

A zona-tampão desenhada no mapa por Erdogan é tudo, menos um deserto humano. Trata-se de uma faixa de fronteira pontilhada por cidades e povoados curdos, inclusive a icônica Kobane. O eventual controle dessa área por forças militares turcas e seus aliados entre os rebeldes sírios implicaria a transferência forçada de centenas de milhares de civis.

Evidentemente, o desastre humanitário que se delineia não tem nenhuma importância para Trump. “Deixemos que lutem”, disse o presidente americano, antes de qualificar a trágica situação na fronteira turco-síria como um cenário “estrategicamente brilhante” para os EUA.

 

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