UMA ESCOLA PARA NOS ENSINAR A BARBÁRIE (12/8/2019)

 

Eugênio Bucci

(Jornalista e professor da ECA-USP)

 

Agora ele chamou o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em 2015 e condenado na Justiça pelo crime de tortura, de “herói nacional”. Barbárie. Por essas e outras, muitas outras, têm sido frequentes as queixas sobre o estilo Bolsonaro de governar. Reclamam, com razão, do modo como o presidente tumultua as instituições da República à medida que dispara impropérios aos microfones. Ele faz gestão por desaforo. Afronta os consensos nacionais que tornaram possível a Constituição de 1988. Quando elogia reiteradamente um torturador notório, atenta contra o pilar fundamental da nossa democracia, que repousa na negação da ditadura, da censura e da tortura. Não é só. O tom exacerbado como ele se refere aos subordinados que não lhe dizem amém deixa sequelas. A normalidade da administração pública se rompe. O sobressalto vira rotina.

Os exemplos são diários. Pense-se, entre tantos outros, nos insultos que o chefe de Estado pronunciou contra o então presidente do Banco Central, Joaquim Levy, para constrangê-lo a se demitir, ou contra o agora também ex-diretor do Inpe, o físico renomado Ricardo Galvão. O que se viu e ouviu nos dois episódios foram assédios morais em cadeia nacional. Se ambos entrassem na Justiça do Trabalho contra o ex-chefe, por mais combalida que ande a Justiça do Trabalho, teriam ganho de causa. Foram destratados e humilhados em rituais sem fundamento.

A República é quem perde mais. Perde a urbanidade que deveria marcar as relações hierárquicas num Estado civilizado. O governante de turno administra pela balbúrdia estapafúrdia e pela intimidação desinibida. O “clima organizacional” do Poder Executivo se deteriora aceleradamente, mais ou menos como desmoronam os sistemas de proteção da Amazônia.

Os protestos contra isso se justificam e cumprem uma função de notória utilidade pública. Graças à grita dos descontentes – que nem são tantos assim –, acendem-se os alertas sobre os riscos iminentes de descambadas autoritárias, seja no micro-poder de bandos armados (fardados ou não) logo aí na esquina, nas prisões ou nos descampados sem luz elétrica, seja nas ameaças (veladas ou não) a outros poderes. A tensão aumenta. Um cidadão foi algemado pela PM num estádio de futebol por ter proferido palavras pouco enaltecedoras sobre o presidente.

Não adianta insistir que a democracia no Brasil está funcionando perfeitamente. Ela funciona, por certo, mas não perfeitamente. Está acuada. Algo esquisito se encontra em formação. Uma plúmbea mentalidade de intolerância ganha espaço. O estilo Bolsonaro de governar gera incerteza e medo. No fundo, seu estilo de governar é um método de desgovernar: o pé na porta, o berro como decreto, o desrespeito como lógica. Isso não anda bem. Nada bem.

O mais grave não está aí. Não está no Estado, nas instituições estatais e nas teias agora atribuladas pelas quais elas se relacionam. A teia de forças mais ameaçadoras se estende, sinuosa e ubíqua, atravessando a sociedade civil, cingindo os interstícios dos laços pessoais, lancetando os ambientes familiares e ferindo as conversas nos bares e nas igrejas. Há algo de monstruoso crescendo nas cidades e nos campos, um padrão de coexistência mais bruto, mais animalesco, que parece vir cuspido das entranhas dos cemitérios.

A nossa gente, ainda inculta, ainda mergulhada na pobreza e na miséria, ainda apartada dos benefícios da paz social, vem sendo vítima de um processo acentuado de deseducação política que aponta para o desmantelamento da cultura de direitos humanos. Escola de barbárie. Sei que o termo é gasto e um tanto cafona, mas não me ocorre outro. Nosso país está se convertendo numa escola de barbárie, uma escola a céu aberto de barbárie.

Enquanto isso, ligo a televisão.

 

E o gênio de Mazzaropi em lugar errado

Uma escola para nos ensinar a barbárie

Amácio Mazzaropi (1919-1981), ó comediante representou personagens que traduziam a esperteza do povo simples, de um Jeca Tatu ou um Pedro Malasartes.

Não se trata de anedota, não é hora para isso, mas um incidente curioso se deu comigo e vou contá-lo. Não sei se por intuição, por sexto sentido ou por falta do que fazer, de vez em quando me pego sintonizando a TV Brasil. Assim, só para ver o que eles estão exibindo. Foi com espanto – e uma ponta de candura – que constatei um fato inesperado: a toda hora encontro um filme do Mazzaropi, o Jeca, na TV Brasil. Por que será?

O mais provável é que estejam enchendo lacunas na grade de programação esvaziada. Suponho que as comédias do Jeca estejam dando sopa nas prateleiras da antiga TV-E do Rio de Janeiro (incorporada pela TV Brasil) e são usadas para tapar buraco. Os atuais próceres da propaganda ideológica do Palácio do Planalto devem gostar daquele histrionismo caipira. Seguramente não detectam na filmografia do Jeca os germes de esquerdismo oculto que localizam em 90% da cinematografia nacional. Então, põem no ar.

Acho que estamos diante de um ato falho continuado. A cena bolsonárica em Brasília e o sarcasmo mazzarópico na TV são reflexos invertidos uma da outra. As encenações da Esplanada dos Ministérios fazem lembrar os cafundós do Brasil retrógrado que Mazzaropi retratou com tanta mordacidade. Há, porém, um toque de ironia nesse espelhamento invertido. Onde Mazzaropi é grandioso e malandro, os capangas empoderados no Distrito Federal são medíocres e crédulos. Aquilo de que o primeiro ri é aquilo de que os segundos se jactam. Aquilo de que Mazzaropi faz troça é aquilo que eles, sem saber que a troça é troça, mais levam a sério.

Talvez venha daí a afeição, inconsciente, que os atuais programadores da TV Brasil parecem nutrir pelo inesquecível comediante da roça nacional. Talvez, na falta de modos do Jeca, que xinga os tipos mais esnobes e sem conteúdo, os propagandistas do governo se imaginem gritando vilipêndios contra intelectuais, artistas, cientistas e jornalistas. Vendo Mazzaropi caçoar da afetação sem conteúdo, lavam a alma e se sentem autorizados a torpedear o conteúdo sem afetação. Sem entender o objeto de seu ódio, eles creem no lobisomem como o profeta da bonança. Sua utopia é a treva. Sua utopia é um arraial em que os jagunços triunfam, atirando para todo lado e gargalhando como perus bêbados.

 

Torpor e fúria

Desligo a TV Brasil e volto ao Brasil sem TV. O quadro atual da ordem democrática, ele também, guarda um quê de reflexo invertido. Da comédia bufa, brota uma tragédia torpe. Os urros do presidente, que a muitos olhos não passariam de excentricidade inofensiva, constituem uma força material invisível e malévola: alteram a conformação da matéria, desinibem os torturadores, mobilizam os matadores, encorajam as piadas machistas, racistas, opressivas. Os boçais lustram as armas que acabaram de comprar. Sobre os olhos das multidões, desce uma opacidade de embotamento, uma narcotização. As saraivadas de atrocidades enunciadas pelo incansável presidente falastrão entorpecem o povo (e segmentos da imprensa), e um país anestesiado vai se tornando incapaz de se indignar, vira um país pronto para aceitar qualquer forma de indignidade. 

Nessa escola de barbárie, que já começou a operar, ensina-se pelo exemplo. Combater a corrupção é bom, mas combater a corrupção por métodos que violam os direitos fundamentais é melhor ainda. Contra o inimigo certo, pisotear a lei é marca de heroísmo. Condecoremos os cruéis. Os sonhos de democracia e justiça, de fraternidade e paz, também se invertem. Agora são pesadelos gozosos em que o inferno em que são atirados os “maus brasileiros” faz as delícias dos sádicos que se olham no espelho e se enxergam anjos: anjos guerreiros. Anjos que obedecem. Anjos que se perfilam. Que batem continência. Que repetem o que aprendem sem pensar.

Uma escola para nos ensinar a barbárie

Dizem que, na diplomacia, palavras são atos. Na política, também. A política se faz com palavras. Num processo virtuoso, as palavras movem diálogos, e onde o diálogo floresce, a política ajuda a conter a violência. Num processo vicioso, as palavras constroem muros entre os seres humanos, e onde o diálogo míngua, a violência faz as vezes da política. Palavras que fomentam a violência são atos de violência. Na boca de um governante, são uma escola de violência. É por isso que um governante que governa por xingamentos ateia fogo no arraial das trevas.

 

 

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