HONG KONG RESISTE

 

1º de julho na ilha de Hong Kong: aniversário da reintegração à China ocorrida em 1997, a partir de um acordo com o Reino Unido. Em 2019, no seu 22º ano, milhares de manifestantes ocuparam as ruas, valendo-se do feriado, para exigir a revogação de um projeto de lei apresentado em fevereiro. Os dissidentes políticos denunciam o significado profundo da proposta: o fim da autonomia da população de Hong Kong frente ao governo da China, encabeçado hoje pelo temível Xi Jinping. Elaborada pelo Conselho Legislativo local, sob a batuta da chefe do Executivo, Carrie Lam, a nova lei permitiria a extradição de cidadãos de Hong Kong para a China, submetendo-os a um Judiciário controlado pelo Partido Comunista.

Mas Hong Kong resiste.

 

Vista aérea, manifestação dia 16/06/2019

Vista aérea, manifestação dia 16/06/2019 (By Daily Mail -https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=79753892)

 

Desde 2014, na chamada “Revolução do Guarda-Chuva”, as manifestações são encabeçadas por jovens preocupados com a perda de suas liberdades civis e políticas. Organizações não governamentais realizam, a cada 1º de julho, atos para cobrar respeito à Lei Básica que rege o território de Hong Kong e garante esses direitos (pelo menos até o 50º aniversário). Nos últimos meses, as manifestações começaram a ganhar apoio popular, pois a aprovação da lei de extradição romperia o princípio de autonomia interna da ilha, subordinando-a ao poder absoluto de Pequim. No dia 5 de julho uma passeata de mães de manifestantes saiu às ruas para declarar apoio aos filhos.  

Esse ano, contudo, não foi igual aos anteriores: cruzou-se uma linha. Os atos essencialmente pacíficos baseados na ocupação das ruas – e reprimidos com bruta hostilidade pela polícia – deram lugar a uma ação mais ousada. Uma centena de jovens mascarados invadiu o prédio do Conselho Legislativo (o parlamento local). Era madrugada. Cerca de três horas depois, avisados da preparação da polícia para invadir o prédio, começaram a sair. Nas ruas, a repressão atuava para dispersar os ocupantes, com saldo de 54 feridos, três em estado grave.

As autoridades locais culparam os manifestantes, a quem acusam de agir com “violência inaceitável pela sociedade”. Para os que saíram às ruas, inaceitável é a permanência de Carrie Lam no cargo. Desde 2014 ela dá claros sinais de subordinação à Pequim, embora chore publicamente diante de tais acusações, invocando seu amor à população da ilha. Parte dos locais não se declara chinês, mas hongkongnês.

 

Questão de perspectiva

“Um país, dois sistemas” – sob tal princípio a ilha de Hong Kong foi devolvida à China pelo Reino Unido, em 1997. O período colonial estendeu-se por 156 anos, desde que a derrota chinesa na Guerra do Ópio (1839-1841) obrigou-os a cederem a ilha pelo Tratado de Nanquim (1842).  Moldada à imagem da potência colonizadora, Hong Kong possui instituições e valores políticos de cunho ocidental. Por isso, a negociação para a retirada britânica foi cercada pela preocupação de preservar direitos e liberdades civis e políticas.

Os estudantes, à entrada do edifício do Conselho Legislativo no dia 20 de junho, ocupam a linha de frente na resistência democrática de Hong Kong

Os estudantes, à entrada do edifício do Conselho Legislativo no dia 20 de junho, ocupam a linha de frente na resistência democrática de Hong Kong

O acordo de devolução previa, por exemplo, que Hong Kong permaneceria com um sistema capitalista, isto é, baseado na propriedade privada. Garantiu-se também a plena liberdade de imprensa e a independência do Judiciário, bem como a perspectiva de eleição direta do chefe do Executivo. Já o governo chinês mantém a soberania sobre questões de política externa e defesa. O problema é que o acordo firmado estabelece um prazo de 50 anos para a sua vigência. E ai surge um conflito de perspectivas.

No final de século XX, após o desmoronamento do bloco soviético, esperava-se que a China seguisse o caminho da abertura política, uma vez que a abertura econômica já era um fato. Hong Kong seria, então, o modelo a inspirar essa mudança. Todavia, o PC chinês tem sido hábil em impedir qualquer tipo de abertura política e usa seu imenso poder econômico e militar para bloquear pressões externas. Vistos hoje, os 50 anos  parecem um futuro próximo. Pequim, ao que tudo indica, aguardará com paciência oriental o término do prazo para submeter integralmente Hong Kong, enquanto tenta acelerar o processo pragmaticamente. Eis o choque de perspectivas que explica os acontecimentos em Hong Kong nas duas últimas semanas, bem como na “Revolução do Guarda-Chuva” de 2014.

A proposta da lei de extradição – que foi congelada após os incidentes do dia 1º para impedir a escalada de enfrentamento dos manifestantes – surgiu de uma situação corriqueira, mas causadora de grande repercussão junto à opinião pública da ilha: um cidadão de Hong Kong assassinou a namorada durante uma viagem à Taiwan, mas não pode ser deportado para lá, onde seria julgado.

Cartazes pedem a renúncia de Carrie Lam

Cartazes pedem a renúncia de Carrie Lam

A chefe do Executivo e defensora da lei invoca essa causa justa, mas os manifestantes não confiam nela. A lei, imaginam, seria usada para promover represálias a dissidentes políticos. 

Aparentemente, Pequim também perdeu a confiança em Carrie Lam. Desde a “Revolução do Guarda-Chuva”, ela tinha sobre os ombros a missão de acalmar a agitação social e reduzir a oposição à integração com a China. Esse começo de julho expôs suas falhas (ou, mais realisticamente, a impossibilidade de cumprir os dois objetivos ao mesmo tempo). Analistas apostam que veio de Pequim a ordem para a retirada da proposta de lei. Steve Tsang, cientista político da SOAS em Londres, declarou: “Acho que os dias de Carrie Lam estão contados. Pequim não pode se dar ao luxo de demiti-la imediatamente, porque isso seria uma indicação de fraqueza.”

As declarações emitidas por políticos e autoridades britânicas, como Boris Johnson, em apoio aos manifestantes e cobrando respeito aos termos acordados em 1997, provocaram reações firmes do governo chinês, que falou em tentativa de ingerência externa em assunto nacional.   

Mas a grande incógnita é o que fará Xi Jinping. No início de junho, o mundo lembrou os 25 anos do Massacre da Praça da Paz Celestial, tema que o governo bloqueou nas redes sociais. Estaria o líder chinês disposto a repetir o passado ordenando uma ocupação militar para reprimir com violência as manifestações, subordinando definitivamente a ilha ao governo de Pequim? Ou a nova posição da China no cenário internacional exigirá maior cautela e diplomacia?

 

SAIBA MAIS

Video: Thousands join pro-Hong Kong police rally, as anti-extradition law ‘Lennon Wall’ messages destroyed

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