TIRANDO A BÓIA DOS MIGRANTES NÁUFRAGOS (17/12/2018)

 

Demétrio Magnoli

 

Acabou. No início de dezembro, a organização humanitária Médicos Sem Fronteira (MSF) anunciou o encerramento das operações de resgate e salvamento de seu navio Aquarius, que recolhia migrantes náufragos no Mediterrâneo.

O ponto final resultou de ações coordenadas de diversos países – e do silêncio de outros. O Aquarius perdeu seu registro panamenho no final de setembro e, desde aquele momento, ficou ancorado no porto francês de Marselha. Era o último dos cinco navios privados operando no Mediterrâneo para salvar náufragos. Como as outras, a embarcação do MSF teve que desistir diante de obstáculos crescentes impostos por países europeus, especialmente a Itália.

O governo italiano, uma coalizão de dois partidos populistas (o Movimento 5 Estrelas e a Liga), chegou ao poder à base de um discurso xenófobo. O líder da Liga, Matteo Salvini, co-primeiro-ministro e ministro do Interior, coordenou as ações que resultaram no desaparecimento dos navios de resgate e salvamento. Ao longo de 2018, mais de 2 mil migrantes naufragaram no Mediterrâneo. Sem os navios, as chances de sobrevivência dos náufragos ficam reduzidas a quase nada.

Salvini não é original. Como Donald Trump diante das caravanas de migrantes centro-americanos, ele alertou para uma suposta “invasão” da Itália. E, como Trump, ele mente. Desde o início de 2017, o número de migrantes que chegaram à costa italiana reduziu-se drasticamente, refletindo a diminuição da violência na guerra síria e a desorganização das redes mafiosas de tráfico de gente que atuam na Líbia. Mas o chefe de governo da Itália precisa de imagens dramáticas. A morte de migrantes no mar é seu troféu: a prova de que cumpre as promessas de campanha.

Tirando a bóia dos migrantes náufragos

Naufrágio de embarcação de migrantes no Mediterrâneo em 2015

“Este é um dia sombrio. A Europa não apenas fracassou em prover capacidades de resgate e salvamento como, ainda, ativamente sabotou outros que tentavam salvar vidas.” A declaração do MSF sobre o encerramento das atividades do Aquarius diz quase tudo. Mas a forma como se deu a sabotagem é reveladora.

Promotores italianos ofereceram contribuições decisivas para a política da morte. Em novembro, a procuradoria da Itália acusou o MSF de transportar lixo tóxico ao país, apontando as roupas dos migrantes como veículos de transmissão do vírus do HIV. A acusação absurda, que desafia o conhecimento médico sobre a doença, investe nos mais anacrônicos estereótipos racistas.

No discurso xenófobo, os migrantes surgem como fonte de contaminação cultural: a “Europa cristã” estaria sendo corroída pelo ácido das culturas alienígenas. A procuradoria italiana deu um passo à frente e converteu a contaminação cultural em contaminação biológica: a “saúde” da Europa estaria sob risco de degradação pela “doença” de africanos e árabes. No lugar de um muro de concreto e metal, como Trump pretende erguer na fronteira sul dos EUA, o governo italiano construiu um muro emocional, desumanizando os imigrantes.

Um ato decisivo na campanha xenófoba de Salvini foi o fechamento dos portos italianos aos navios de resgate e salvamento. Por meio dessa medida, o governo italiano dissuadiu embarcações comerciais de salvar vítimas de naufrágios. Para resgatar náufragos, os capitães passaram a ser obrigados a mudar radicalmente suas rotas, procurando portos mais distantes, na França ou na Espanha. Diante dos custos envolvidos com os longos desvios, muitos deles preferem virar as costas aos naufrágios, fingindo não vê-los. Agindo assim, violam a lei do mar – mas protegem o equilíbrio financeiro das empresas às quais servem.

“O Mediterrâneo não pode se transformar no Velho Oeste”, alertou Laura Boldrini, do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR). “Aqueles que não resgatam pessoas no mar não podem permanecer impunes”. Ela tem razão em pedir punição para capitães que violam a lei do mar. Mas o capitão dos capitães permanece em terra firme, em Roma, e chama-se Salvini. Só quem pode puni-lo são os eleitores italianos.

 

 

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