PARTE 2: COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS E AQUECIMENTO GLOBAL
A polarização provocada pela Guerra Fria, opondo liberais e comunistas, havia engessado a política e afastado os jovens, sobretudo os da geração de 1968. Contudo, foi essa mesma juventude quem começou a falar em pacifismo, desnuclearização e preservação do meio ambiente. E eles mudaram o modo de fazer política ao se afastarem dos velhos partidos, dominados por temas pré-fixados e palavras de ordem pré-definidas, e chamarem a atenção para novos problemas, especialmente ligados ao meio-ambiente e à própria sobrevivência humana.
No final da década de 1970, auge da corrida nuclear, manifestações, ocupações e protestos antinucleares começaram a mobilizar públicos amplos e variados, deixando de prevalecer o caráter bipolarizado das mobilizações. Os novos agentes políticos perceberam que pequenos grupos unidos em torno de pautas comuns, “locais”, geravam capacidade efetiva de pressão sobre as autoridades responsáveis, dados os custos eleitorais. E mais e mais pessoas saíram às ruas para lutar contra decisões prejudiciais ao meio ambiente e à vida humana e, muitas vezes, foram vitoriosas. A militância ambiental se baseava em objetivos pragmáticos.

O ativismo ambiental se tornou uma força política com a criação do Partido Verde
Nos mesmos anos 70 teve início a “revolução digital” e, rapidamente, os ativistas ambientais aprenderam a usar as novas ferramentas para se conectarem com outros grupos, realizando ações semelhantes em outros lugares. Vem dessa época o conceito de organização em rede para a troca de experiências e táticas de ação; ela é mais direta e igualitária que a estrutura hierárquica presente em sindicatos e partidos políticos. “Agir localmente, pensar globalmente” era o mantra da nova ciência, a Ecologia, que despontava trazendo notícias alarmantes sobre o futuro da humanidade. Hoje, já existe o neologismo “glocal”.
Os Verdes e o ativismo ambiental
Se a cor do comunismo é vermelha e a do liberalismo é azul, o ambientalismo seria verde: auto-explicativo!
Na Alemanha dividida pela Guerra Fria, a presença das bases americanas e soviéticas com suas armas nucleares era tão ameaçadora que foi capaz de provocar na Alemanha Ocidental uma reação popular. Assistindo à passagem de mísseis a serem instalados em seu território, os alemães ocidentais reagiram para não serem varridos caso começasse uma guerra entre EUA e URSS. Eles fizeram passeatas, performances, bloquearam estradas e cobraram os políticos para que parassem de se sujeitar cegamente à Otan.

Protesto na Alemanha Ocidental contra a instalação de mísseis Pershing II, em 1981
A militância anti nuclear logo entendeu que precisaria se organizar partidariamente para defender suas pautas no Parlamento da Alemanha Ocidental. Em 1980, foi oficialmente fundado o Partido Verde.
Nos Estados Unidos surgiram movimentos ambientalistas como o Friends of the Earth, muito importante por sua intensa atuação na política legislativa, foi responsável pela criação de leis ambientais destinadas a estabelecer regras para as atividades econômicas e militares.
Já no Canadá, destacou-se o Greenpeace, uma das mais antigas e mais famosas organizações não-governamentais dedicada ao ativismo ambiental. Fundado em 1971 para impedir a continuidade de testes nucleares na costa do Alasca realizados pelos EUA, o Greenpeace organizou uma ampla campanha de esclarecimento sobre os imensos riscos que a radiação derivada da explosão nuclear traria a todas as formas de vida na região, até que o teste foi cancelado.

Em outubro de 1970 os fundadores do Greenpeace organizaram um show em Vancouver para arrecadar fundos para a sua primeira ação. A cantora Joni Mitchell, muito famosa, apresentou-se voluntariamente.
O buraco na camada de Ozônio
Nos anos 1970, o mundo aprendeu que a atmosfera da Terra é coberta por uma espécie de escudo gasoso composto de Ozônio (O3) responsável por reduzir a incidência da radiação ultravioleta (UV-B) emitida pelo Sol, com funções muito importantes como proteger as pessoas de cânceres de pele (cujos índices cresciam nas estatísticas médicas) e equilibrar certos processos ecológicos.
Os cientistas detectaram um “buraco” na camada de Ozônio que atribuíram aos gases CFC (Cloro-Fluor-Carbonetos), muito utilizados na indústria em setores como o de refrigeração. Os gases CFC foram transformados em grandes vilões do aquecimento global. Em 1977, a ONU, por meio de suas agências PNUMA e OMM (Organização Meteorológica Mundial), estabeleceu um “Plano de Ação Mundial para a Camada de Ozônio”.
Em 1982, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Carta Mundial da Natureza, um conjunto de princípios éticos e morais para a conservação da natureza e a manutenção do equilíbrio planetário. Esse documento foi muito importante porque ajudou a fortalecer o compromisso global com a preservação dos ecossistemas pois, apesar de não ter força jurídica vinculante como um tratado, a “Carta da Natureza” orientou a criação das primeiras legislações e políticas ambientais em diversos países.
Em 1985 foi assinada a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio. Do surgimento do problema até o aparecimento desta primeira regulamentação internacional, menos de duas décadas haviam passado. Naquele período a credibilidade das ciências e dos cientistas era imensa e a questão climática foi levada suficientemente a sério por todos os espectros políticos para gerar ações concretas.
Em 1988, o PNUMA criou o Painel Internacional de Mudanças Climáticas, IPCC, na sigla em inglês, para acompanhar pesquisas a respeito do comportamento climático em todo o mundo. O IPCC recebe dados sobre as emissões de gases derivados da queima de combustíveis fósseis e as projeções de aumento das temperaturas médias no planeta. Graças ao trabalho do IPCC, aprendemos que além dos gases CFCs, a queima de combustíveis fósseis tinha peso ainda maior sobre o “efeito estufa”. Logo se instaurou um novo consenso: o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera terrestre aumenta a temperatura em todo o planeta – era o “aquecimento global”.
Era preciso repensar o modelo econômico baseado na queima de combustíveis fósseis e hidrocarbonetos.
A ONU e o “desenvolvimento sustentável”

Gro H. Brundtland apresenta o relatório na Assembleia Geral da ONU
Em 1987, a ONU publicou o Relatório Brundtland, chamado “Nosso Futuro Comum” . Era o resultado do cuidadoso trabalho conduzido pela ex-primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, junto à Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada para estudar as relações entre meio ambiente e progresso e propor soluções para o futuro.
O relatório criticava o padrão econômico baseado em industrialização e consumo elevado. Além de poluente do ponto de vista ambiental, o relatório apontava para a preservação das desigualdades históricas, ao assegurar o alto poder de consumo nos países ricos atrelado às cadeias de exploração de matérias-primas causadoras de destruição ambiental e exploração social nos países pobres.
O Relatório Brundtland apresentava um novo conceito, capaz de oferecer uma nova abordagem para a questão ambiental: desenvolvimento sustentável. Nele, a preservação e o desenvolvimento econômico devem ser integrados e voltados para o combate à pobreza em todo o mundo. Entre as medidas propostas estavam:
- limitação do crescimento populacional;
- preservação da biodiversidade e dos ecossistemas;
- diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias com uso de fontes energéticas renováveis;
- aumento da produção industrial nos países não-industrializados com base em tecnologias ecologicamente adaptadas;
- controle da urbanização desordenada e integração entre campo e cidades menores;
- atendimento das necessidades básicas (saúde, escola, moradia).
- proteção dos ecossistemas supra-nacionais como a Antártica, oceanos, etc, pela comunidade internacional;
- implantação de um programa de desenvolvimento sustentável pela Organização das Nações Unidas (ONU).

“Efeito estufa”
Nos EUA, o grande público foi apresentado oficialmente ao tema das mudanças climáticas em 1977, quando o presidente Jimmy Carter fez um discurso televisionado para explicar à população o que novas descobertas científicas vinham chamando de “efeito estufa”. No caso, o planeta Terra se transformando numa estufa gigante devido à queima de combustíveis fósseis (carvão e petróleo), cujos gases liberados ficam retidos na atmosfera provocando a elevação das temperaturas médias globais. E, sobre esse padrão de consumo de energia, assentava-se a organização de toda a economia mundial.
E por quê o presidente do país mais poluidor do planeta decidiu levar aquelas notícias preocupantes à população? A década de setenta foi profundamente marcada por duas crises mundiais do petróleo, em 1973/74 e 1979, provocadas por altas súbitas no preço do petróleo, resultando em processos inflacionários em todos os países. Naquele período, ficou evidente a fragilidade de uma organização econômica apoiada em basicamente uma fonte de energia, e abriu-se uma janela de oportunidades para pensar em “energia limpa” e outros modelos produtivos.

O presidente Jimmy Carter inaugura paineis solares na Casa Branca, em 1979, demonstrando o compromisso do governo em estimular o desenvolvimento de energia limpa.
Nessa perspectiva, em 1979 aconteceu a Primeira Conferência Mundial do Clima, em Genebra. Seus frutos foram a proposta de um tratado global para conter as emissões de gás carbônico e a criação de um centro de estudos para monitorar o clima mundial. Meses depois, durante a reunião anual do G-7 (os sete países mais ricos do mundo), seus líderes se comprometeram a trabalhar pela redução das emissões de carbono em seus Estados.
Em 1980, Jimmy Carter solicitou à Academia Nacional de Ciências dos EUA um estudo abrangente sobre as mudanças climáticas e propostas para novas políticas energéticas. Seu governo criou incentivos à pesquisa no setor e estabeleceu limites à exploração do petróleo. Mas o presidente sofreu um forte desgaste por conta da inflação reinante que se manifestava principalmente nas bombas de gasolina e não conseguiu se reeleger. A população estava assombrada com a falta de combustível e a perspectiva de racionamento.
Menos bombas, mais petróleo
O republicano Ronald Reagan venceu Jimmy Carter no final de 1980 propondo um novo pacto nacional baseado nas ideias neoliberais defendidas pelos pensadores da Escola de Viena. A palavra de ordem era reduzir a intervenção estatal na economia e isso significou, entre muitas outras coisas, o encerramento dos programas federais destinados à energia limpa. O mercado de energia solar, por exemplo, entrou em colapso.
O nacionalismo que Reagan invocava trazia o saudosismo dos anos dourados da gasolina barata e dos automóveis para todos, portanto, apoiar a indústria petrolífera era também um modo de prestigiar o american way of life. E assim, em nome de reduzir a dependência de fornecimento externo, o novo presidente retirou as restrições para a exploração de petróleo, incluindo as ambientais.
Ao mesmo tempo, na política externa, o discurso belicoso de Reagan, que prometia construir um escudo antimísseis para vencer a União Soviética em caso de um conflito nuclear, coexistiu com negociações com Moscou para a redução e controle dos arsenais nucleares das duas superpotências.

Gorbatchev e Reagan assinam o INF, em 1987. Uma cena impensável uma década antes.
1987: Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF). Primeiro acordo para a destruição física de mísseis terrestres de curto e médio alcance. Foram destruídos 2.619 mísseis.
1991: Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START I). Foi assinado pelo presidente seguinte, George Bush, mas toda a negociação transcorreu sob o governo Reagan.
A nova política de contenção viabilizou a negociação do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que visa impedir a disseminação de armas nucleares e promover o desarmamento geral e permanece como a peça central dos esforços globais para conter o uso militar da tecnologia nuclear.
Esses tratados serviam à lógica militar da época, mas também foram vitórias dos movimentos antinucleares e da pressão política que souberam exercer. Depois de quatro décadas, o temor de uma hecatombe nuclear começou a diminuir.
O negacionismo climático
Desde o início, o debate sobre o controle da emissão de poluentes foi acompanhado de perto pelas grandes companhias petrolíferas, majoritariamente radicadas nos EUA. Gigantes como a Shell, Exxon e Mobil (antes da fusão, em 1999) criaram departamentos inteiros voltados à pesquisa de fontes alternativas de energia, com descobertas importantes para o setor. Afinal, os investimentos no setor energético são gigantescos e de longo prazo e as previsões científicas sugeriam mudanças.
Mas a eleição de Reagan mostrou às grandes companhias de energia que havia espaço para manter os lucros elevados e defender a economia baseada na queima de combustíveis fósseis. E assim, os departamentos de novas tecnologias foram desmontados em nome de concentrar os investimentos na prospecção, extração e comercialização de combustíveis de hidrocarbonetos derivados de petróleo, gás natural e carvão térmico. O problema é que gigantes globais adotaram o negacionismo climático como tática empresarial e o caso da Exxon mostra bem essa história.

Presidente George H. Bush ao telefone, um auxiliar no centro e John Sununu à direita
Mas essa mudança de rota só aconteceu porque, nos Estados Unidos, as forças de oposição aos controles ambientais encontraram um perfeito representante na figura do ex-governador republicano de New Hampshire, John H. Sununu, nomeado Chefe de Gabinete (função similar à Casa Civil, no Brasil) do vice e sucessor de Reagan, George H. Bush.
Sununu, doutor em Engenharia Mecânica pelo MIT, sentia-se apto a contestar os trabalhos dos pesquisadores que insistiam em falar em aquecimento global declarando-os “absurdos técnicos”. Ele acreditava que sem a exploração de combustíveis fósseis o país pararia de crescer, então tratou de organizar uma campanha de desinformação para influenciar a opinião pública, com direito a cientistas negando as mudanças climáticas dentro da Casa Branca.
O país foi posto diante de um falso dilema: desenvolvimento econômico ou proteção ao meio ambiente.
Toda essa história é minuciosamente descrita em um premiado artigo publicado em 2018 sob o título (traduzido) Perdendo a Terra: a década em que quase impedimos as mudanças climáticas, indicado abaixo e cuja leitura recomendamos fortemente. Seu autor, Nathaniel Rich escreveu que, em novembro de 1989, Sununu impediu a assinatura de um compromisso de 67 nações na Conferência Climática de Noordwijk para congelar as emissões de dióxido de carbono até atingir 20% de redução em 2005, e apontou-o como um dos principais responsáveis pela campanha para confundir o público sobre o tema do aquecimento global, transformando uma questão urgente e não partidária em uma questão política.
Mais tarde, em uma entrevista sobre seu papel para impedir o acordo, Sununu afirmou: “Não poderia ter acontecido, porque, francamente, os líderes mundiais daquela época estavam numa fase em que todos procuravam uma forma de parecer que apoiavam a política sem ter que assumir compromissos firmes que custariam recursos consideráveis às suas nações. E francamente, é mais ou menos onde estamos hoje.”

Quando teremos coragem para encarar esse problema?
O “efeito Casa Branca”
Apesar de tudo, durante a campanha para a eleição presidencial de 1989, ao ser questionado pelos jornalistas sobre a questão ambiental, George Bush declarou-se um “ambientalista” e afirmou que aqueles que alertavam para os perigos do “efeito estufa” ignoravam o “efeito Casa Branca”, aludindo à incontestável liderança tecnocientífica dos EUA.
Enquanto isso, no Congresso, democratas e republicanos propuseram a elaboração de um acordo internacional sobre o tema. Foi o ponto de partida para a ECO-92.
SAIBA MAIS
- Documentário: Efeito Casa Branca (2025), diretor Pedro Kos, Netflix
- Nathaniel Rich, Losing Earth: The Decade We Almost Stopped Climate Change (2018)
- Neela Banerjee, Lisa Song e David Hasemyer, Exxon – The road not taken. Em 2015, jornalistas da organização Inside Climate News revelaram que a indústria petroleira tinha conhecimento desde a década de 80, da relação entre a queima de combustíveis fósseis e o aquecimento da Terra.



