A GUERRA DE ESCOLHA – E SUAS VÍTIMAS (9/3/2026)

 

Demétrio Magnoli

 

Guerra é, sempre, um inferno. Nem por isso é impossível identificar crimes de guerra.

Na coletiva de imprensa de 4 de março, autoridades do Pentágono (o Departamento de Defesa dos EUA, renomeado por Donald Trump como Departamento de Guerra), mostraram um mapa com as localizações dos bombardeios no Irã durante as cem primeiras horas do ataque. Os bombardeios dos EUA e de Israel formam uma extensa faixa no oeste e sul do Irã e mantêm correlação com as defesas antiaéreas iranianas.

O que o mapa não mostra é a escola primária Shajareh Tayebeh, de meninas, na cidade meridional de Minab, adjacente a um quartel da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC). A escola foi destruída por bombardeios nas horas iniciais da campanha militar. O governo do Irã anunciou 168 vítimas fatais, na sua maioria crianças. Dias depois, imagens aéreas mostraram linhas de mais de uma centena de sepulturas.

Israel declarou que não realizou bombardeios na área. Pete Hegseth, secretário da Guerra dos EUA, garantiu que suas forças jamais escolheriam alvos civis. O Pentágono iniciou uma investigação, que segue sem conclusões. Não há motivos para crer que a escola infantil tenha sido marcada como alvo de bombas americanas. Tudo indica que o alvo era o quartel da IRGC. As crianças morreram porque tudo que circunda os alvos militares não tem importância no planejamento da guerra.

 

As guerras de Trump e Netanyahu

As motivações dos EUA e de Israel para a guerra contra o Irã são fundamentalmente diferentes. A guerra de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, decorre de um objetivo nacional; a guerra de Trump deriva de uma escolha pessoal.

O Estado iraniano refundado pela elite clerical depois da revolução de 1979 tem, no seu DNA, a meta de destruição do Estado judeu. Por isso, a expectativa de uma confrontação total com o Irã figura como consenso político e social em Israel. Do ponto de vista de Netanyahu, a guerra deflagrada no último dia de fevereiro é a conclusão da operação de bombardeios de 12 dias conduzida em junho de 2025. A estreita cooperação com as forças dos EUA na guerra em curso nutre, no governo israelense, a esperança de derrubada do regime dos aiatolás.

O governo de Trump ofereceu inúmeras explicações falsas e contraditórias para o devastador ataque contra o Irã. Numa tentativa pouco convincente de invocar o direito à autodefesa, alegou que o regime iraniano estaria perto de obter armas nucleares ou mísseis balísticos intercontinentais. Os dois pretextos chocam-se com avaliações das próprias agências de inteligência americanas – e com a afirmação de Trump, em junho passado, que o programa nuclear iraniano fora “obliterado” pelo bombardeio único dos EUA.

Trump e Netanyahu, aliados no ataque ao Irã, movem-se por objetivos distintos

Trump não parou por aí. Justificou a guerra pelo objetivo de mudança do regime iraniano, acusando-o de promover matanças indiscriminadas de opositores durante a sangrenta repressão de janeiro. A acusação é verdadeira: as estimativas oficiais iranianas giram em torno de 7 mil mortos, enquanto organizações de direitos humanos falam em números três ou até quatro vezes maiores. A guerra, contudo, promove destruição, não democracia ou liberdade, como comprovam as intervenções que derrubaram regimes sanguinários no Iraque (2003) e na Líbia (2011).

O secretário de Estado Marco Rubio sinalizou, por via elíptica, a causa da deflagração da guerra. Numa tentativa de retornar ao argumento da autodefesa, afirmou que Israel inevitavelmente atacaria o Irã, provocando represálias iranianas contra bases americanas na região. Segundo tal raciocínio, os EUA tiveram que agir preventivamente, arrastados por uma decisão israelense.

O raciocínio é falso, pois Israel não iniciaria uma guerra total desafiando a Casa Branca. Contudo, há nele um núcleo verdadeiro: Netanyahu convenceu Trump a acender o pavio de um ataque devastador. O planejamento conjunto minucioso desenvolveu-se desde janeiro, como confidenciaram fontes do Pentágono.

Encorajado pela operação de extração do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, o presidente americano decidiu atender ao apelo de Netanyahu. Seus objetivos: oferecer uma demonstração espetacular de força no palco mundial e marcar pontos na corrida às eleições ao Congresso no fim do ano, nos EUA. O ataque ao Irã iniciou-se em meio a rodadas de negociações nucleares entre representantes americanos e iranianos.

 

As vítimas sem nome

As leis internacionais autorizam a guerra por motivo de autodefesa. O conceito vincula-se à ameaça iminente de agressão externa. A guerra no Irã representa mais uma flagrante violação do direito internacional. Trump nem mesmo tentou persuadir o Conselho de Segurança da ONU a amparar sua ação militar, ao contrário do que George W. Bush fez, sem sucesso, na hora da invasão do Iraque, em 2003. Assim, os EUA oferecem um diploma de legitimação da guerra imperial da Rússia na Ucrânia – e, de modo geral, de guerras de agressão.

Teerã sob bombardeio noturno, no início de março

O primeiro bombardeio, orientado por uma impressionante operação de inteligência, eliminou Ali Khamenei, o Líder Supremo, além de diversas autoridades do alto escalão civil e militar iraniano. Chefes de Estado são alvos militares legítimos – mas apenas em caso de declaração formal de guerra. Não houve, contudo, declaração de guerra.

Trump não foi ao Congresso solicitar autorização para a guerra, violando as lei americanas. Putin também não declarou guerra ao invadir a Ucrânia. Declarações de guerra parecem ter se tornado relíquias do passado. Há um motivo para isso: a deliberação de circundar as leis de guerra.

Não vale a pena derramar lágrimas pelo assassinato de Khamenei. Mas, atrás das figuras salientes do regime teocrático-militar, existe uma multidão de vítimas sem nome. No Irã, em uma semana, contavam-semais de 1,1 mil mortos civis. Os bombardeios “de precisão” atingem edificações comuns, como a escola infantil de Minab. Arrasam infraestruturas, destroem capital social.

A guerra de Israel não se limita ao Irã. O Hezbollah, milícia libanesa controlada pelo regime iraniano, lançou foguetes contra Israel em represália ao ataque contra o Irã. Netanyahu aproveitou a oportunidade para ir bem além de uma contra-retaliação proporcional. Bombas israelenses incendeiam o sul do Líbano e a periferia meridional de Beirute. O governo israelense exige que o Líbano desarme o Hezbollah, algo que o governo libanês gostaria de fazer mas não dispõe de força militar para tanto.

No Líbano, contavam-se mais de 300 vítimas fatais no final da primeira semana de março. Não se sabe quantos são combatentes do Hezbollah, mas entre elas há incontáveis civis inocentes. As ordens de evacuação israelenses já produziram o deslocamento de centenas de milhares de civis das áreas sob bombardeios.

Bombardeio de Israel em Beirute, Líbano, no início de março

Na Europa, os governos oscilam entre a aversão, covarde e silenciosa, à guerra ilegal e a justa condenação das represálias iranianas contra alvos civis nos países árabes vizinhos. À sombra da guerra russa na Ucrânia, os governos britânico, francês e alemão temem enfurecer Trump, o que poderia produzir novas fissuras na já abalada aliança transatlântica.

A honrosa exceção é o governo espanhol, que condenou explicitamente a guerra, atraindo a ira da Casa Branca: “Não à violação unilateral das leis internacionais. Não à repetição dos erros do passado. Não à ideia de que os problemas do mundo podem ser resolvidos com bombas”, escreveu o primeiro-ministro Pedro Sánchez, oferecendo um exemplo que não será seguido por seus colegas europeus.

 

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