RÚSSIA, A ÁGUIA BIFRONTE

 

Símbolo do Império Russo

A águia imperial russa tem duas cabeças, para olhar para o Oriente e para o Ocidente ao mesmo tempo

Origens

A história da Rússia é, como quase todas as histórias nacionais europeias, uma narrativa que começa ligada à história da expansão do cristianismo pelo continente. Assim, a “Rússia” nasceu a partir da cristianização dos eslavos rus que habitavam as planícies no extremo leste da Europa. Após converterem os eslavos dos Bálcãs – para o que os monges bizantinos vindos de Constantinopla criaram um novo alfabeto, o cirílico, destinado a traduzir a Bíblia para a língua eslava – a evangelização seguiu em direção ao norte do Mar Negro, para as terras da atual Ucrânia. Em 998, o rei Vladimir, do principado de Kiev, decidiu pela conversão de seu povo à religião cristã, tal qual praticada no Império Bizantino.

Diferente da narrativa religiosa, a pesquisa histórica, baseada em análise de documentos, estudos linguísticos e descobertas arqueológicas, recua em pelo menos um século para contar a história de uma Rússia pagã e povoado pelos varegues (como eram chamados dinamarqueses e suecos, enquanto os vikings correspondiam a dinamarqueses e noruegueses).

Esses povos da Escandinávia irromperam na história europeia a partir do século IX, quando passaram a atacar vilas e feudos na Europa Ocidental. Exímios navegadores, vinham por mares e rios e surgiam repentinamente; saqueavam e escravizavam pessoas para vendê-las nos mercados do mar Negro. O transporte desses escravos até lá não seguia pelo Mediterrâneo, dominado pelos árabes, mas pelos rios que interligavam os mares Báltico e Negro. Foi às margens de um deles, o rio Dnieper, que se formou a cidade de Kiev, capital do reino Rus-Kievano, uma confederação de cidades-Estados que compartilhavam o poder decisório com o rei.

Vladimir I

O príncipe Vladimir escolheu a religião que afirmava o seu poder

Antes de adotar o cristianismo, o rei Vladimir enviou emissários às terras do Islã e a Roma para conhecer todas as opções. A escolha pela Igreja Bizantina foi uma decisão política, pois aos olhos do rei o cesaropapismo bizantino (a subordinação da Igreja ao Estado, do patriarca ao imperador) era um elemento em favor da maior centralização do poder. Era diferente da Igreja Romana, na Europa Ocidental, onde a fragmentação política do feudalismo tornou o poder dos papas superior ao poder dos reis. Essa diferença foi a causa do Cisma do Oriente, em 1054, quando a Igreja cristã dividiu-se definitivamente nos ramos católico e ortodoxo. Vladimir escolheu fortalecer a monarquia em detrimento da confederação.

 

A Rússia tártara

A história do reino Rus-Kievano foi cortada por dois eventos externos, duas forças conquistadoras: os mongóis, capitaneados pelos generais de Gêngis Khan, e os turcos islamizados, cujo expansionismo ancorava a própria religião.

Vindos do mar Cáspio na direção do Cáucaso (região montanhosa que separa a Rússia da Ásia Menor), os exércitos mongóis varreram aquelas terras deixando um rastro de destruição; no caminho ocuparam cidades como Tabriz, no Azerbaijão, e Tbilissi, na Geórgia. Em 1237, atravessaram o rio Volga em direção ao norte, conquistando Moscou, Yaroslav, Novgorod… Kiev caiu em 1240. Iniciava-se o período da tartachina, ou seja, a dominação tártara (mongóis e turcomenos eram chamados tártaros, por associação fonética à palavra grega Tártaro, o Inferno).

As terras russas foram basicamente incorporadas ao Khanato (principado) da Horda de Ouro. Com o tempo, os mongóis islamizaram-se enquanto os eslavos, como ato de resistência, mantiveram-se cristãos. No século XV, a Horda de Ouro dividiu-se em três khanatos, dois deles conquistados por Ivan III, o Grande, e o da Crimeia, que existiu até 1783 como vassalo do Império Otomano.

O domínio mongol descortinou o mundo além-Urais, trazendo novas perspectivas de expansão territorial ao poder russo. Mas esse redirecionamento também seria responsável por um dos dilemas da “alma russa”, tantas vezes discutido para explicar a história daquele país.  Trata-se dessa porção asiática, “incivilizada” e “selvagem”, como são as intermináveis planícies geladas da Sibéria, e sua resistência ao Ocidente.

Mapa sec XV

Fonte: Colin McEvedy, Atlas de História Medieval, Editora Ulisseia: Lisboa, 1973, p. 83

“Terceira Roma”

Com o desaparecimento da Rus-Kievana, os príncipes de Moscóvia foram hábeis em se aproximar dos mongóis, a ponto de serem reconhecidos como seus prepostos, chegando mesmo a arrecadar impostos em seu nome. Assim, o reino moscovita estendeu sua influência sobre uma vasta rede de cidades e regiões, facilitando seu domínio após a expulsão dos tártaros, em 1480.

Em outra direção, a expansão mongol havia empurrado os povos turcos para o oeste e, em 1453, a cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino, era definitivamente conquistada pelos turcos otomanos e rebatizada Istambul.

Duas consequências profundas para a história russa derivaram desse evento. Primeiro, a Igreja Ortodoxa e o Patriarca, seu líder máximo, transferiram-se para Moscou, passando a tratar a cidade como a “Terceira Roma”, ou seja, a nova sede da Igreja e de um novo Império. Além de livros e relíquias sagradas, o clero ortodoxo trouxe na bagagem a rivalidade com a Igreja Católica e o Ocidente, um traço que o Império Russo iria assimilar. A segunda consequência foi o estabelecimento de um poderoso rival, o Império Otomano, fazendo-lhe frente no mar Negro. Desde então, controlar as terras da Ucrânia e do Cáucaso se tornou fundamental para a segurança da Rússia.

Com o apoio decisivo da Igreja Ortodoxa, a monarquia russa assumia a narrativa de um milênio e meio de história do cristianismo para ancorar suas pretensões territoriais. A adoção do pronome de tratamento czar invocava os césares do Império Romano.

 

O ataque é a melhor defesa

Ivan IV, o Terrível

O olhar sombrio do rei alucinado pelo poder

Ivan IV, o Terrível, foi o primeiro monarca a adotar o título de czar, em 1547. Seu reinado, até 1584, inaugurou o império, com a expansão do território em direção a terras não eslavas, além do rio Volga; para o norte, em direção à Sibéria; para o sul, até o mar Cáspio, a partir do qual poderia controlar as terras do Cáucaso e barrar o avanço mongol.

“Agora os russos tinham uma zona-tampão parcial e um interior – algum lugar para onde recorrer em caso de invasão. Ninguém iria atacá-los com força do mar Ártico, nem abrir caminho contra os Urais para chegar até eles. A terra deles estava se tornando o que agora é conhecido como Rússia, e para invadir pelo sul ou sudeste seria preciso ter um enorme exército e uma linha de suprimentos muito longa, e seria necessário lutar para passar por posições defensivas.” (Tim Marshall, “Russia and the Curse of Geography”, The Atlantic). 

Apoiado em seus sucessos, Ivan IV, conseguiu enfraquecer o poder da aristocracia boiarda centralizando o poder e eliminando com violência seus opositores. Em contrapartida, uma série de infortúnios, incluindo matar o próprio filho, deixou o trono sem herdeiros e o reino em grande confusão. Finalmente, em 1613, uma assembleia do reino escolheu um herdeiro distante, Miguel Romanov, para assumir o trono imperial com as devidas bênçãos da Igreja.

Enquanto a Rússia ganhava corpo avançando para o leste, as terras da Ucrânia eram conquistadas e divididas pelos reis da Lituânia e Polônia. Aquelas planícies vastas e férteis foram alvo de disputas e trocas de mãos até 1815, quando o Congresso de Viena dividiu as áreas de influência na região entre a Rússia e a Áustria. A Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica fazendo frente ao Islã – representado pelos otomanos – nos mares Negro e Egeu.

 

O Império dos Romanov

A expansão territorial para o leste, nos século XVII e XVIII, foi acompanhada pela expansão das relações de servidão sobre todas as terras do Império, enquanto as relações de trabalho assalariado avançavam na Europa. Parte do apoio da aristocracia boiarda à autocracia czarista deveu-se ao reconhecimento das vantagens da conquista de terras e da sujeição de suas populações ao trabalho compulsório, da qual se beneficiavam como vassalos do czar.

O lago Baikal foi alcançado em 1647 e o estreito de Bering, em 1648; entre 1650 e 1660 a Polônia e a Suécia perderam o controle sobre as cidades de Smolensk e Kiev, reintegradas ao espaço russo. No Oriente, Rússia e China disputaram o controle sobre o rio Amur na década de 1680, sem chegar à vias de fato.

Entre 1682 e 1725, Pedro, o Grande, ocupou as terras da Letônia, Estônia e Ingria após  derrotar os suecos.  Para garantir posição ainda melhor no mar Báltico, mandou erguer ali, às margens do rio Neva, uma nova capital: São Petersburgo. O czar que sonhou com a modernização da Rússia e, para tanto, buscava se apoiar na revolução científica em curso nos países europeus, realizou obras tentando conjugar poder militar e vantagens comerciais. Era essa a intenção quando ordenou a construção de canais ligando os rios Volga e Don, mas o projeto não foi adiante, ao contrário da bem-sucedida rede de canais construída para ligar os mares Báltico e Cáspio.

Já Catarina, a Grande, preocupou-se com o flanco sul, reconquistando toda a margem norte do mar Negro. Isso incluiu o domínio sobre o Khanato da Criméia, com o que o último vestígio do poder tártaro-mongol desaparecia. O Império Russo fortalecia sua retaguarda para se proteger de qualquer ataque do vizinho Otomano e as cidades portuárias de Odessa e Sebastopol se tornaram os maiores sinais da presença russa na região.

“Agora havia um enorme anel em torno de Moscou; começando no Ártico, descia pela região do Báltico, através da Ucrânia, para os Cárpatos, o Mar Negro, o Cáucaso e o Cáspio, voltando aos Urais, que se estendem até o Círculo Ártico.” (Tim Marshall, “Russia and the Curse of Geography, The Atlantic”).

Mapa Formação do Imperio

Fonte: Georges Duby, Atlas Histórico Mundial, Editorial Debate: Madrid, 1997, p.174

Gigante com pés de barro

O século XIX começou com a invasão napoleônica à Rússia. Depois da aproximação com o Ocidente iniciada por Pedro, outro período de afastamento e desconfiança marcaria as relações entre Moscou e as novas monarquias parlamentares que ascendiam na Europa convulsionada pelas revoluções liberais.

A posição reacionária do czar Alexandre I no Congresso de Viena e o fato de haver capitaneado a criação da Santa Aliança contra os movimentos liberais reforçou esse afastamento. A Rússia “exótica” vista nas cortes europeias nos tempos de Pedro dava lugar a uma Rússia anacrônica, encarada com crescente desdém por seu apego absoluto à religião, enquanto a população camponesa seguia miserável e sujeita a níveis de exploração não mais aceitas no ocidente europeu.

Cartaz contra o Japão 1905

Guerra Russo-Japonesa de 1905: o tamanho da arrogância foi também o da humilhação

O Império dos Romanov ficou irreversivelmente ultrapassado quando a revolução industrial modernizou os armamentos. A vantagem militar da Rússia era o tamanho da população, pois isso significava capacidade de reunir um gigantesco exército (era o maior da Europa em 1815). Mas a tecnologia anulava a diferença numérica, fazendo um único homem mais letal que um batalhão, dependendo das armas usadas. A questão surgiu após a derrota na Guerra da Criméia (1853-1856), quando os turcos receberam apoio das marinhas do Reino Unido e da França para impedir que os russos ganhassem espaço. E ficou gritante em 1905, na humilhante derrota para o “pequeno” Japão, na guerra em que se disputava a Coréia.

No interior do Império, as contradições entre o império territorial e a pobreza social alimentavam a agitação intelectual e política em grupos que emergiam com a urbanização do país. A partir da década de 1840 duas correntes dominaram o debate público: os “ocidentalistas” e os “eslavófilos” (também conhecidos pela palavra russa narodniki, traduzida como popular ou populista).

Um dos principais efeitos desse debate e da derrota na Criméia foi a abolição da servidão, em 1861, destinada a modernizar as relações de trabalho no país e a melhorar a fraca economia russa, retirando o país da “era feudal”. O problema dos czares era fazer tudo isso sem admitir reformas políticas e liberdades civis.

À derrota na Criméia, a Rússia respondeu em 1877-1878 com uma coalização de Bulgária, Romênia, Sérvia e Montenegro contra os turcos otomanos. A rivalidade austro-russa só aumentava e, ao reconhecerem as independências desses países em relação ao Império Turco, as potências europeias fragilizaram ainda mais os Bálcãs e o equilíbrio geopolítico de poder. A Europa rumava à Grande Guerra.

 

A saída para os mares quentes

Como as demais potências europeias, a Rússia dos Romanov participou da corrida imperialista e tratou de conquistar seu quinhão de terras na Ásia. Mas, de acordo com a história oficial russa, diferente dos britânicos e franceses com sua arrogante “missão civilizadora”, os russos chegavam fazendo alianças e acordos, ou ocupando terras desertas. Assim são explicadas, por exemplo, a incorporação da Sibéria “vazia”, ou do reino da Geórgia, por um pedido de proteção do próprio rei local.

A verdadeira singularidade do império colonial russo, contudo, esteve no fato de não haver uma separação clara entre as terras da metrópole e suas colônias. A Rússia colonizava por contiguidade, ou seja, as próprias colônias lhe faziam fronteira. Assim, no último quarto do século XIX, à medida que trens e tropas avançaram pela Ásia Central, foram incorporados o Cazaquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão, o Tadjiquistão e o Quirguistão.

O Império Russo logo entendeu que, na nova ordem mundial, era decisivo ter uma grande marinha. Contudo, tanto o mar Báltico quanto o Ártico ficam congelados por longos períodos. Solução? Conquistar territórios em latitudes mais baixas, garantindo o acesso permanente aos “mares quentes”.

Havia três possibilidades: o mar Negro, área de presença turca; o mar do Japão, no Extremo Oriente; e o Golfo Pérsico, onde a Pérsia xiita permanecia isolada do Islã majoritariamente sunita. Ao optarem por esta última, os russos entraram em conflito com o Império Britânico, que logo se pôs em defesa de seus interesses no norte da Índia. Começava o que a diplomacia britânica batizou como o “Grande Jogo” e o troféu era o controle sobre a Pérsia e o Golfo Pérsico.

Para aceder à Pérsia, os russos deveriam primeiro conquistar o Afeganistão, o que os britânicos jamais permitiram, armando as tribos afegãs para reagir às investidas russas. Em compensação, os russos fizeram a mesma coisa para impedir que os britânicos avançassem da Índia em direção à Pérsia e pudessem controlar a passagem pelo Afeganistão. O resultado foi que nem Pérsia, nem Afeganistão foram dominados pelas metrópoles europeias. Essa condição de “neutralidade” acabou formalmente reconhecida pelo Tratado Anglo-Russo de 1907, após a derrota russa frente ao Japão deixar claro para o governo britânico que a Rússia não representava ameaça verdadeira na Ásia Central e no Índico. Era hora de se aliar aos Romanov para combater um perigo muito mais premente: a Alemanha.

 

A geografia da “não confiança”

Deportações e reassentamentos se tornaram métodos recorrentes do Império Russo para consolidar ganhos territoriais, especialmente no Cáucaso. Incontáveis vilarejos nas montanhas (auls) foram movidos para as planícies e reagrupados. No norte do mar Negro, especialmente na Criméia, a população muçulmana foi deportada. Até o Império Otomano encorajou a vinda de minorias muçulmanas para o seu território na década de 1860; transferiram-se cerca de 400 mil pessoas. A Sibéria também recebeu grupos deportados, em geral pessoas envolvidas em revoltas, contados na escala das centenas.

No final do século XIX, o Estado imperial russo consolidava sua visão estratégica colocando alfinetes no mapa e classificando a miríade de povos sob seu controle como “confiáveis” e “não-confiáveis”. Desenvolvida pelos estatísticos militares Vladimir A. Zolotarev, Vladimir A. Maksheyev e Nikolai Obruchev, a doutrina que iria orientar o pensamento geopolítico russo dividia os povos do império de acordo com o percentual de russos étnicos presentes naquela população. Eram necessários mais de 50% de russos para ser “confiável”. Regiões “não-confiáveis” recebiam efetivo militar reforçado. De modo geral, judeus, germânicos, poloneses, caucasianos e os povos muçulmanos da Ásia Central não eram considerados confiáveis.

Baseado nessa doutrina, o exército criou unidades especiais treinadas para serem cruéis ao menor sinal de descontentamento ou rebelião. Fazer civis de reféns, confiscar ou liquidar a propriedade e o gado, deportar grupos de acordo com etnia e nacionalidade, tudo isso era avaliado do ponto de vista da eficácia da conquista, no tempo em que estava nascendo o Direito Humanitário.

Estima-se que as deportações na parte ocidental da Rússia afetaram um milhão de pessoas, com judeus constituindo metade desse número e alemães, um terço. Na Ásia Central o mais comum não eram as deportações, mas o assassinato puro e simples de civis. A Rússia czarista foi a precursora da política de “limpeza étnica preventiva” e deportações em massa.

propaganda anti-otomanos 1915

Ao fundo de mais uma imagem que menospreza o inimigo, a mesquita de Haja Sofia, antiga catedral bizantina de Santa Sofia. Fé e razão de Estado estavam misturados nas mentes dois inimigos

 

Desse ponto de vista, a decisão do Império Otomano de eliminar os cristãos ortodoxos armênios, aliados da Rússia, de “suas” terras, em 1915, chocou mais pela escala do massacre do que pela violência contra civis. O genocídio tornou-se o primeiro sinal inequívoco da capacidade dos Estados contemporâneos de eliminar milhares de pessoas em nome de seus interesses estratégicos.  Mas a Rússia de Stalin não deixaria por menos

 

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