À SOMBRA DE MUGABE (UM RELATO MUITO PESSOAL) – I

 

Peter Fry

(Antropólogo, professor emérito do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ)

 

No final de julho de 2018, o eleitorado de Zimbábue participou maciçamente na primeira eleição subsequente ao golpe militar que levou à renúncia do então presidente, Robert Gabriel Mugabe, que governara o país desde a independência em 1980.  O que segue é um relato muitíssimo pessoal sobre esse evento extraordinário no contexto de uma história que, muito parcialmente, vivi, na década de 1960, como jovem antropólogo fazendo a sua primeira pesquisa de campo, e depois como representante da Fundação Ford, entre 1989 e 1993.  Meu ponto de vista é também temperado por uma “fase britânica”, o meu nascimento, criação e formação acadêmica, e uma “fase brasileira”, de 1970 para o presente, mais que metade da minha vida, portanto.

 

Capítulo 1 – O espectador engajado

 

Em dezembro de 1963 embarquei em Trieste num navio italiano que me levaria à cidade de Beira, em Moçambique, onde peguei um trem que ia à capital da então Rodésia do Sul (hoje Zimbábue), Salisbury (agora, Harare). Com uma bolsa de estudos da Commonwealth (Comunidade Britânica de Nações) ia desenvolver pesquisa de campo para o meu doutorado em antropologia social no University College of Rhodesia and Nyasaland (UCRN), uma sucursal colonial da Universidade de Londres.

Foi nesta viagem que conheci os primeiros rodesianos brancos, um fazendeiro e sua senhora. Perguntaram-me o que ia fazer na Rodésia. Expliquei que ia fazer pesquisa de campo antropológica, numa aldeia qualquer. “Numa aldeia!”, explodiu a senhora, “isto não. Os nativos são sujos e desagradáveis.  Não podemos admitir que seja possível, menos ainda aconselhável, um branco educado como você se sujeitar a um tormento desses.  Melhor mesmo morar em Salisbury. Mas você vai entender o que estamos dizendo após alguns meses no país.” Era um refrão que eu ouviria repetido ad nauseam durante os dois anos seguintes.

No trem que atravessou Moçambique, ainda “província” de Portugal, para Salisbury, viajei de Primeira Classe (soube depois que isso era praxe para os brancos; poucos negros teriam recursos para tanto), com cabine para dormir particular do lado de um carro restaurante com poltronas e cortinas de veludo cor de vinho. Jantei bem: talheres pesados, pratos de porcelana e copos de cristal. Dormi pouco: a cabine se encheu de vagalumes. Na manhã seguinte, o trem subiu devagar para o planalto, parando perto de Umtali (agora Mutare), a primeira cidade de Rodésia, para que um outro trem, vindo em direção oposta, pudesse passar. Este também parou. Da minha janela olhei para, e fui olhado por, uma multidão de homens, crianças e mulheres negros, espremidos num carro de Quarta Classe, comendo fatias grossas de pão de forma e olhando para o jovem inglês tomando seu café da manhã britânico com bacon, ovos, torradas e geleia de laranja. Chegara ao mundo absurdo da desigualdade e segregação raciais, um mundo no qual passaria os próximos anos da minha vida.

De Umtali a Salisbury, o trem passou pelas melhores fazendas “europeias” do país, verdes nessa época das chuvas, os campos circundados por belas árvores misasa e midondo, repletos de tabaco e milho. De vez em quando, quebrando a monotonia da paisagem, surgia um ou outro amontoado de rochas cobertas de aloés, os famosos kopjes da região. Não vi nenhuma evidência de vida africana no percurso. Os colonizadores brancos construíram suas estradas e caminhos de ferro para o escoamento dos produtos das grandes fazendas, bem separadas das “Reservas Indígenas” demarcadas pela Lei de Alocação de Terras (Land Apportionment Act) de 1933.

Na chegada a Salisbury, fui levado ao UCRN e instalado num quarto de estudante. Uma universidade residencial nos moldes das universidades britânicas, era o único lugar do país onde negros, brancos, mulatos (coloureds) e indianos podiam morar juntos. Ao mesmo tempo em que a UCRN era o grande orgulho, também era o maior embaraço dos governantes brancos da Rodésia, pois tinha se tornado o mais estridente foco de oposição ao governo racista do país. Situada no bairro mais alto da cidade, ficou conhecida como “o Kremlin no Morro”. O departamento que mais articulava a oposição ao governo era o de Estudos Sociais (não se chamava Antropologia porque naquela época de descolonização a Antropologia tinha se tornado uma disciplina não grata), onde professores e alunos usavam de sua teoria e seu conhecimento do país para escrever artigos e proferir palestras contra a iniquidade da segregação racial e a favor da urgente independência do país sob regime de sufrágio universal.

Com o entusiasmo de um jovem de 23 anos, vislumbrei desenvolver a minha pesquisa num distrito rural do país, acompanhando os passos rumo à independência, até que a Rodésia “europeia” se tornasse o Zimbábue de todos. Eu imaginava observar as consequências do fim da segregação racial nas áreas rurais e urbanas, nos hospitais, nas escolas e nos banheiros públicos. Com a introdução do sufrágio universal, certamente seguiria a primeira eleição: o país seria governado não mais pela pequena minoria de brancos colonizadores, mas pela maioria negra africana.

Naquele ano havia mais ou menos 250 mil brancos, 4,4 milhões de negros, alguns poucos mulatos (coloureds) e indianos.  Os brancos eram predominantemente oriundos da Grã-Bretanha, mas havia também significativas comunidades portuguesas, italianos e gregas. A população nativa negra consistia em duas etnias: no sudoeste, os ndebele, cerca de 14% da população; no centro-norte e nordeste, os shona, o grupo majoritário, com cerca de 82% da população. No vale do rio Zambezi havia uma terceira etnia relativamente pequena, os tonga.

Os diversos grupos se encontravam distribuídos em áreas nitidamente segregadas e hierarquizados. No campo as “fazendas europeias” ocupavam 49 milhões de alqueires, 51% da área do país, e as Reservas Indígenas (Tribal Trust Lands) perfaziam 29 milhões de alqueires, 22%. Além delas, existiam as Áreas Disponíveis para a Compra pelos Nativos (African Purchase Areas), 7,2 milhões de alqueires, e as Reservas Florestais (National Land), que ocuparam 590,5 mil alqueires. Sobravam 89 mil alqueires sem designação. A maioria das fazendas europeias ficaram nas áreas consideradas mais férteis do planalto central do país e foram bem interligadas com os centros de distribuição através de boas rodovias e estradas de ferro. As demais áreas ficaram entre e ao redor das fazendas europeias e florestas.

As cidades eram divididas em “subúrbios europeus”, onde moravam os brancos em casas grandes, em áreas de um alqueire ou mais, as “cidadelas africanas”, onde moravam os negros amontoados em pequenas casas, zonas intermediárias para indianos e mulatos, e zonas industriais. Até a localização dessas áreas obedeceu ao pensamento racista da época: as cidadelas africanas foram construídas na direção em que os ventos passavam sobre as zonas industriais. Grande parte da população negra urbana era composta por jovens homens e algumas poucas mulheres que trabalhavam e moravam nas cidades, mas mantinham sua base familiar nas reservas indígenas, onde moravam a maioria das mães, avós e crianças.

Essa distribuição das famílias teria sido encorajada pelos governos brancos como uma maneira mais econômica de distribuir a população em termos de produção e consumo, explorando a mão de obra com a mínima despesa possível. Os trabalhadores urbanos enviavam dinheiro às famílias no campo para comprar pão, açúcar e manufaturados, enquanto os familiares residentes no campo cultivavam milho, amendoim, etc., cuidando também do gado, dos cabritos, patos e galinhas. Na ausência de qualquer sistema de aposentadoria, era para as zonas rurais que os homens voltariam quando desempregados, doentes ou velhos demais.

O partido político que governava esse país racial e economicamente dividido ao extremo era a Frente Rodesiana, sob a liderança de um ex-piloto de caças na Segunda Guerra Mundial, Ian Smith. Como o direito de voto era restrito a cidadãos com alto grau educacional, certas propriedades e renda também relativamente alta, os brancos constituíam 90% do eleitorado. Os partidos nacionalistas negros não foram representados no parlamento mas ficaram cada vez mais organizados fora dele. A Frente Rodesiana tinha como principal política a manutenção da supremacia dos brancos. Smith bradava constantemente que se os africanos tomassem as rédeas do governo haveria caos e o fim do que denominou de “padrões ocidentais cristãos”.

Quando, em 1965, ficou claro que o governo britânico não ia conceder independência sem sufrágio universal, a Frente Rodesiana proclamou uma Declaração Unilateral de Independência (UDI). A fim de assegurar seu controle sobre o país, o governo dos brancos montou um verdadeiro Estado policial para reprimir qualquer oposição, sobretudo a representada pelos dois partidos nacionalistas africanos. A polícia rondava sempre, nos seus landrovers, e a famigerada Law and Order (Maintenance) Act de 1960 determinava, entre outras coisas, que uma reunião de mais de três pessoas seria desmantelada como uma reunião política ilegal.

A temida Organização Central de Informação (CIO) perscrutava a vida de todo os suspeitos, comprando informações de inúmeros X9 ao preço de bananas. Quando os dois partidos africanos foram banidos, o clima de suspeição mútua aumentou exponencialmente. Alguns professores da universidade foram expulsos por Smith em 1966, entre eles os antropólogos Axel Sommerfelt e Jaap van Velsen e o economista Giovanni Arrighi. Após a expulsão desses professores por sua oposição verbal ao regime, o governo alegou a descoberta de um complô armado, do qual eles fariam parte. Outro professor, John Conradie, foi acusado de fazer parte dessa célula guerrilheira. Como só ele permanecia no país, foi o único preso. Conradie ficou na cadeia até logo antes da independência, em 1980.

Eu fui apenas cuidadosamente vigiado, e mais de uma vez inquirido. Consegui permissão para ficar numa pequena reserva indígena habitada por pessoas de fala chizezuru, um dialeto de chishona, apenas 80 quilômetros distante da capital, onde imaginava estudar a vida social tanto no campo quanto na cidade onde a maioria dos jovens trabalhavam. Em lugar de acompanhar a emancipação da população negra africana, acabei captando o ponto de vista dos meus vizinhos africanos frente aos primeiros anos da independência de Smith e à proscrição dos partidos nacionalistas africanos.

Dizem os adeptos dos assim chamados “lugares de fala” que apenas as mulheres podem sentir, escrever e falar sobre a opressão masculina; os negros sobre a opressão racial; os gays sobre a opressão heterossexual, etc….  Discordo. É difícil, sem parecer demasiadamente ingênuo e/ou romântico, expressar minhas emoções ao longo dessa pesquisa, ainda mais num texto curto. O fato é que acabei me identificando com os meus vizinhos.  Sim: chegava, às vezes, a esquecer momentaneamente que era branco.

Lembro-me de uma manhã em particular. Havia ocorrido um longo ritual noturno depois do qual todos nós dormimos, como os raios de uma bicicleta, no templo redondo, as cabeças na parede e os pés no centro. Ao nascer do sol, cujos raios chegaram filtrados pela palha do teto, acordei e comecei a seguir os pés. Levei um baita susto quando vi meus próprios pés, empoeirados, mas brancos mesmo assim.

Peter Fry e seus amigos, após um longo ritual, Chiota Tribal Trust Land, julho de 1966

Aprendendo a falar a língua e a tocar o mbira (marimba), convivendo um bom tempo com um dos mais importantes médiuns (masvikiro, singular svikiro) de espíritos de antepassados da área, fui adquirindo, por um processo de osmose, as mesmas atitudes dos meus anfitriões em relação aos brancos da Rodésia: uma combinação de pavor e desgosto, temperado, como é tão frequentemente o caso, com humor ácido e sardônico. Num dado momento de um ritual para exorcizar um espírito de bruxaria de uma pobre senhora, por exemplo, o espírito do curandeiro olhou para mim, sentado no meio de umas cinquenta pessoas, e perguntou: “Peter, para onde devo mandar esse espirito? Para Smith, não acha?”. É claro que concordei.

Um svikiro no seu templo, onde Peter Fry morou, Chiota Tribal Trust Land, agosto de 1966

Foi quando meu primeiro assistente de pesquisa, Kenneth Mpanduki, começou a se tornar um svikiro de um ancestral importante da sua linhagem que comecei a perceber que havia algo como que um verdadeiro movimento entre jovens com uma certa educação que estavam a romper com as igrejas cristãs, de volta aos antepassados.  Nesse momento, caiu nas minhas mãos um dos primeiros artigos, ainda não publicado, do historiador inglês Terence Ranger, parte do seu futuro magnífico livro sobre a rebelião dos shona contra os recém chegados brancos nos anos 1896-7.

Kenneth Mpanduki se tornando svikiro, no centro, com chapéu de pele de animal, Chiota Tribal Trust Land, dezembro de 1965

 O artigo começa descrevendo como os primeiros brancos a chegar na área hoje conhecida como Zimbábue vieram sob os auspícios da Companhia Britânica da África do Sul (BSAP), liderada por Cecil John Rhodes, que vislumbrava a descoberta de ouro. Constituindo o que se chamava Coluna Pioneira, chegaram em 1890 e levantaram a bandeira britânica onde estabeleceram sua capital, Fort Salisbury, hoje Harare. Como não se descobriu ouro, Rhodes providenciou a distribuição de terras.

Cecil Rhodes em cartaz de 1892

O povo autóctone consistia basicamente em duas grandes etnias: no sul, os ndebele, parte da diáspora zulu, sob o comando do rei Lobengula; mais ao Norte, um povo dividido em um sem número de pequenas chefias autônomas denominado shona.  Os ndebele foram os primeiros a se revoltar em 1893. Dominados facilmente pelos brancos e seus metralhadoras Maxim, acabaram vencidos e incorporados ao novo país.

Os colonizadores acharam que tudo estava tranquilo e nunca imaginaram a possibilidade de qualquer resistência dos shona, que não possuíam estrutura política acima das pequenas chefias, pareciam mais preocupados em cuidar da sua agricultura e, presumivelmente, estavam aliviados das agruras dos ataques dos ndebele, comuns antes da chegada dos brancos. Ledo engano! Em junho de 1896, de repente, após nova insurreição dos ndebele, eclodiu uma série de ataques de grupos shona contra fazendeiros isolados.

Tinha começado uma guerra denominada em chishona chimurenga. Na primeira semana, mais de cem brancos foram mortos pelos ndebele e shona. Os colonizadores demoraram em entender como teria sido possível grupos diversos atacarem aparentemente de uma forma coordenada. Finalmente, perceberam que a rebelião dos shona estava sendo coordenada através de uma rede de masvikiro.

Teria havido uma praga de gafanhotos que destruíra a coleta de 1896 e o alastrar de uma peste bovina (rinderpest) que dizimara os rebanhos de gado. Os antepassados, falando através dos seus masvikiro, associaram essas aflições à chegada dos brancos. Pregaram, portanto, a guerra contra eles e, através da rede de comunicação que existia entre eles, invisível aos brancos administradores, propiciaram as linhas de comunicação necessárias para o êxito dos ataques. No caso dos ndebele, a liderança e inspiração vinha de um oráculo chamado Mlimo. Com a morte de Mlimo, a rebelião dos ndebele terminou em 1896, numa reunião deles com o próprio Rhodes.

Nehanda e Kaguvi, à espera da execução, prisão de Salisbury, 1898

A rebelião dos shona foi finalmente esmagada em outubro de 1897, quando foram enforcados os dois médiuns shona, Kaguvi e Nehanda. O primeiro se submeteu ao batismo antes de ser enforcado, enquanto a segunda, a mulher Nehanda, morreu fiel à sua própria tradição.

Lendo o artigo de Terence Ranger, percebi que eu estava assistindo a um processo semelhante, no qual os antepassados, através dos masvikiro, participavam e organizavam a resistência à dominação colonial. De acordo com a cosmologia dos shona, o bem-estar dos vivos depende da proteção dos seus antepassados. Essa proteção seria retirada em casos de falta do devido respeito para com os antepassados ou comportamento antiético em geral. Os masvikiro, então, explicaram a persistência da dominação dos brancos pelo fato dos antepassados terem sido esquecidos.

Ao dominarem o país no século XIX, os brancos europeus incentivaram os africanos a abandonar seus próprios antepassados em favor de um antepassado deles, Jesus Cristo. Sem a proteção dos seus antepassados, dominados pelo antepassado dos brancos, os nativos africanos ficaram condenados à subjugação e ao sofrimento. Quando sai de Rodésia, em dezembro de 1966, com dois amigos num landrover, rumo a Londres, sabia que seria esse o assunto da minha tese, que defendi em 1969 com o título Spirits of Protest (Espíritos de Protesto), publicada em 1974.

Enquanto escrevia, sentia muitas saudades do Zimbábue e procurava os exilados zimbabuanos. Mas, para minha tristeza, logo encontrei o mesmo clima de suspeição mútua que reinara em Zimbábue – tão característica de todos os movimentos revolucionários no exílio. Na impossibilidade de sequer pensar em voltar para um país descaradamente racista e incapaz de me adaptar a uma rede de imensa suspeição em Londres, fiquei num estado de tensão constante.

Reconheço, agora, que foi essa tristeza/alienação uma das razões que me fez querer sair de Londres, em 1970, para participar na implantação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Capinas (Unicamp). A mudança geográfica provocou uma mudança radical na minha vida social, saindo da anglofonia, do protestantismo e da segregação racial para a lusofonia, o catolicismo, o candomblé, o neopentecostalismo e uma recusa da segregação racial legal a partir de uma ideologia de “democracia racial”. Um hiato e tanto.

 

Kenneth Mpanduki, ao lado de sua tia paterna (valete), nonagenária, julho de 1965

 

 

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