“VOCÊ SABIA SOBRE O MEU SEQUESTRO?” (14/5/2018)

 

Demétrio Magnoli

 

Sob o título “I have a few questions for Gina Haspel” (Tenho algumas perguntas a Gina Haspel), Fatima Boudchar publicou um artigo no The New York Times (8/5/18) que lança luz sobre capítulos ainda parcialmente ocultos da “guerra ao terror”. Fatima não tem a oportunidade de formular diretamente suas indagações, mas espera que algum senador americano o faça, na audiência de confirmação do nome de Haspel à chefia da CIA. “Você sabia sobre o meu sequestro e abuso? Esteve envolvida neles? O que dirá se o presidente Trump solicitar que faça algo assim novamente?”.

Fatima fugiu do Marrocos para reencontrar seu marido, o líbio Abdul Hakim Belhadj, líder de um grupo islamista que combatia o regime de Muhammar Kaddafi. No Sudeste Asiático, saltaram de país em país, tentando chegar à Europa. Os dois foram capturados no aeroporto internacional de Kuala Lumpur (Malásia), em 2004, pela CIA, a partir de um informe providenciado pelo MI6 britânico, e transferidos para um “black site” na Tailândia. Semanas depois, no quadro do programa de entregas secretas, uma aeronave da CIA os conduziu à Líbia, onde passaram à custódia da polícia política de Kaddafi. “Mas as piores torturas da minha vida não foram infligidas pelos bandidos do coronel Kaddafi. Elas ocorreram na Tailândia, pelas mãos da CIA.”

Era março de 2004 e Fatima estava grávida. “Eu venho de um povoado no Marrocos. Eu não era uma dissidente política. Eu nunca tinha estado na Líbia até a CIA me enviar para lá, num avião, e jamais quis fazer mal aos EUA. Quase nunca pensei sobre os EUA antes de ser acorrentada a uma parede no “black site” da CIA.” Numa cela suja da Líbia, ela deu à luz o bebê, que nasceu com menos de 2 kg. Pouco depois, foi solta. Abdul Hakim permaneceu preso até 2010, quando foi libertado junto com 170 outros islamistas, a partir de um acordo entre o regime líbio e o Qatar. Dias atrás, passados 14 anos do sequestro, ela compareceu com seu filho nascido no cárcere ao Parlamento britânico para ouvir um pedido de desculpas do Reino Unido.

“Está claro que vocês dois foram submetidos a um tratamento estarrecedor e que sofreram imensamente, sem contar a afronta à dignidade da senhora Boudchar”, escreveu a primeira-ministra Theresa May, na carta lida pelo procurador-geral britânico. “Uma grande sociedade não tortura, não ajuda os outros a torturarem e, quando comete erros, aceita e se desculpa”, declarou Belhadj, que se prepara para concorrer às eleições gerais líbias como líder do al-Wattan, um partido conservador islamista. Ele não disse, mas “uma grande sociedade” não se limita a pedir desculpas: investiga e pune crimes contra a humanidade cometidos ou possibilitados por seus governos e agências de inteligência.

A carta de May concede: “O Reino Unido admite sua responsabilidade. As ações do governo britânico contribuíram para as detenções, entregas e sofrimentos de vocês.” Contudo, numa passagem crucial, estabelece um pretexto para circundar a necessária investigação: “Deveríamos ter compreendido mais cedo as práticas inaceitáveis de alguns de nossos parceiros internacionais”. De fato, o “black site” pertencia à CIA, assim como a aeronave que transferiu os prisioneiros ao regime de Kaddafi. Não é fácil acreditar, porém, que o governo britânico da época ignorasse as “práticas inaceitáveis” conduzidas sob ordens escritas do governo americano de George W. Bush.

Mark Allen, ex-chefe da seção de contraterrorismo do MI6

Mark Allen, ex-chefe da seção de contraterrorismo do MI6

Sabe-se que agentes britânicos do MI6 (agência de inteligência externa) interrogaram Abdul Hakim no “black site” tailandês – e que passaram seus registros aos interrogadores líbios. Sabe-se, ainda, que Eliza Manningham-Buller, então chefe do MI5 (agência de inteligência interna), expulsou altos funcionários do MI6 de seu gabinete e enviou uma carta furiosa ao então primeiro-ministro Tony Blair, denunciando o envolvimento deles na saga de Fatima e Abdul Hakim. O primeiro-ministro David Cameron prometeu, em 2010, realizar inquéritos e processos sobre a participação de agências britânicas nas “práticas inaceitáveis” da CIA. Mas, depois, Cameron recusou-se a firmar pedidos oficiais de desculpas e, em junho de 2016, a Procuradoria-Geral britânica decidiu não abrir inquérito contra ninguém.

Fatima e Abdul Hakim não são casos únicos. Há fortes indícios de que outra família, os al-Saadis – inclusive quatro filhos, o menor com seis anos – foi capturada em ação conjunta do MI6 com a CIA e embarcada no mesmo avião, semanas depois. Diversas evidências sugerem que Mark Allen, então chefe da seção de contraterrrorismo do MI6, buscou alguma forma de aprovação superior para a escandalosa cooperação. Terá ele se dirigido a Jack Straw, então ministro do Exterior – ou diretamente a Blair? Ao lado das perguntas de Fatima a Haspel, essas indagações permanecem no ar.

 

Fatima Boudchar e seu filho, Abderrahim Belhadj, 14

                                                   Fatima Boudchar e seu filho, Abderrahim Belhadj, 14                                                                                                                                                                                                                    Foto: Kirsty O’Connor/AP

 

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