TRUMP PRESTA HOMENAGEM AO AFOGAMENTO SIMULADO (10/05/2018)

Demétrio Magnoli


Nomeação de chefe de centro de tortura para a direção da CIA gera preocupações em relação aos direitos humanos

Detention Site Green (Local de Detenção Verde), um “black site”, não existe no mundo oficial. No mundo real, corresponde a um galpão da CIA situado na base da Força Aérea Real da Tailândia em Udon Thani, no nordeste do país, menos de 60 quilômetros distante da fronteira com o Laos. A base, construída pelos EUA nos anos 60 para servir às campanhas de bombardeios na Guerra do Vietnã, adquirira novas funções. Lá, em 2002, no início da “guerra ao terror” anunciada pelo presidente George W. Bush, experimentaram-se pela primeira vez as “técnicas intensificadas de interrogatório” – ou seja, os expedientes de tortura avalizados pela Casa Branca. A história antiga volta à tona, na hora da audiência de confirmação de Gina Haspel para o comando da CIA, no Senado americano.

 

Local de Detenção Verde (Detention Site Green)

 

Os fatos vieram à luz num relatório de 6 mil páginas publicado em 2014 pelo Comitê Especial de Inteligência do Senado dos EUA. Abu Zubaydah, 31 anos, palestino nascido na Arábia Saudita, suspeito de pertencer ao círculo interno de colaboradores de Osama Bin Laden, o chefe da Al Qaeda, foi capturado numa ação conjunta de forças americanas e paquistanesas em Faisalabad (Paquistão), em março de 2002. Dias depois, embarcou num avião americano que decolou de uma base no Paquistão rumo a Udon Thani. Os agentes da CIA que o receberam já haviam decidido que ele seria a cobaia do experimento.

Zubaydah não foi o único. Depois dele, vários detentos passaram pelo Local de Detenção Verde antes de serem transferidos a presídios em outros países, mas sempre fora dos EUA. O “black site” atendia a dois requisitos básicos da CIA: 1) Pertencente à força aérea tailandesa, evitava colocar os detentos sob custódia militar americana, algo que exigiria informação ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha; 2) Ao contrário da Base de Guantánamo, era um local secreto e livre de hipotética interferência dos militares ou do FBI. Mas o segredo tinha limites. A transferência de Zubaydah para o galpão foi aprovada por Bush em 29 de março.

Thaksin Shinawatra, o primeiro-ministro tailandês, exercitava o jogo duplo. Publicamente, para se mostrar sensível a uma opinião pública ressentida com os EUA desde a crise financeira asiática de 1997, prometia neutralidade de seu país na “guerra ao terror”, buscava estreitar laços com a China e criticava seus antecessores por se curvarem às vontades de Washington. Por baixo do pano, cooperava plenamente com os serviços de inteligência americanos e, em especial, com a CIA. No mesmo 29 de março, diante de um pedido da Casa Branca, o governo tailandês deu consentimento à transferência do detento.

A saga de Zubaydah em Udon Thani começou no hospital, onde recebeu tratamento por graves ferimentos sofridos no momento da captura. No 15 de abril, chegou à cela, toda branca, sem janelas ou luz natural. Os carcereiros usavam uniformes negros, botas, capuzes, balaclavas e óculos escuros, de modo a impedir que o prisioneiro os reconhecesse individualmente e tentasse estabelecer relações pessoais. Durante 47 dias de isolamento, entre um interrogatório do FBI e outro, o detento foi submetido a ruídos artificiais permanentes e sons de rock em alto volume. Depois, a partir de 4 de agosto, a CIA assumiu o controle, sujeitando-o a mais de 20 dias de “técnicas intensificadas de interrogatório”.

A cobaia passou 200 horas numa caixa estreita, no formato de um esquife, e mais 30 horas num caixote ainda menor, com largura de 50 centímetros. Muitas vezes, foi atirado contra paredes e, 83 vezes, submetido a simulações de afogamento. De tudo isso, não surgiu nada de especialmente relevante. Zubaydah não era um heróico jihadista capaz de resistir aos tratamentos mais crueis. De fato, mostrou-se cooperativo desde os primeiros interrogatórios convencionais do FBI. No final de 2002, notícias sobre o galpão secreto vazaram para jornais tailandeses. A publicidade provocou o fechamento do Detention Site Green. O prisioneiro foi transferido para outro “black site”, na Polônia, e passou por diferentes outros lugares. Apareceu em público, pela primeira vez desde sua detenção, na base de Guantánamo, em agosto de 2016. Hoje, os EUA admitem que ele tinha escassa importância na rede terrorista da Al Qaeda.

Gina Haspel assumiu a chefia das operações da CIA na Tailândia em outubro de 2002, depois do encerramento dos interrogatórios de Zubaydah e de um outro detento, Abd al Rahim al Nashiri, submetido às mesmas técnicas extraordinárias. Circulam informações de que, orientada por superiores, ela ordenou a destruição, em 2005, de 92 gravações em vídeo de sessões de interrogatórios conduzidos no galpão. O senador John McCain, ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, escreveu que o uso de tortura nos anos de Bush “comprometeu nossos valores, manchou nossa honra nacional e ameaçou nossa reputação histórica”. A indicação de Haspel para a chefia da CIA revela que Donald Trump não concorda com McCain.

Gina Haspel, nova diretora da CIA // fonte: BBC NEWS, 07/05/18 

Na campanha eleitoral, Trump prometeu trazer de volta “montes de coisas bem piores que afogamento simulado”. Jeff Sessions, o advogado-geral da União, votou contra a lei aprovada em 2015 que proibiu o uso das “técnicas intensificadas de interrogatório”. Mike Pompeo, o chefe da CIA apontado para a secretaria de Estado, declarou-se aberto à retomada das simulações de afogamento. A indicação de Haspel deve ser interpretada, nesse contexto, como uma declaração política do governo Trump.

Dias atrás, um comunicado da Casa Branca pediu a aprovação do Senado ao nome de Haskel. Nele, cita-se John Bennet, um agente da CIA, que celebra a indicada por ter assumido as tarefas “mais exigentes e menos recompensadoras” em nome de seu senso de dever patriótico. Não é preciso ser especialmente arguto para descobrir o que jaz sob as palavras de Bennet – e da Casa Branca.

Diante do Comitê de Inteligência do Senado, na quarta (9/5), Haspel comprometeu-se a não retomar as “técnicas intensificadas de interrogatório” do passado recente e reconheceu sua responsabilidade parcial na destruição dos vídeos. Mas circundou as perguntas sobre a moralidade do afogamento simulado e recusou-se a criticar a CIA pelo uso de expedientes que equivalem à tortura. No fundo, ela está dizendo que os valores morais variam segundo os memorandos da Casa Branca.

 

 

 

Parceiros

Receba informativos por e-mail